2015-05-29

Too good to be true

Hoje há muita gente de ressaca em Fornos de Algodres.
Hoje eu estou com uma ressaca emocional das valentes por causa de Fornos de Algodres.
Esteve um dia magnífico, a viagem desde o Porto correu bem e eu cheguei uns vinte minutos antes da hora prevista. Ao passar pelo Tribunal de Fornos, decidi parar. Eu fui a Fornos como escritor, mas, como sou advogado, a minha ideia era procurar a sala dos advogados, tomar um café e saber como vivia o tribunal esta nova reforma. Pois. Não há tribunal, este foi um dos deixou de existir (um rápido aparte, porque a crónica não é sobre tribunais: uma colega juíza em Viseu contou-me uma história de resistência e cidadania que não foi noticiada a nível nacional, e é muito recente: quando o Tribunal Judicial de Viseu mudou de instalações, não há muito tempo, os funcionários do Tribunal de Trabalho de Viseu, em más instalações há muitos anos, mudaram o tribunal todo, de noite, em segredo e em protesto, para o edifício desocupado, a que a Câmara ia dar outro destino, e a verdade é que acabaram por ficar lá).

No edifício do Tribunal de Fornos de Algodres funcionam os serviços de registos e notariado. A Débora, uma das alunas que colaborou comigo na preparação da sessão, tinha-me dito que a mãe trabalhava lá. Entrei de mansinho, tirei a pinta da mãe da Débora e perguntei-lhe se era mesmo. Era. Quando cheguei à escola já levava que contar. No fim do dia, contudo, as emoções eram tantas que um só corpo não as consegue conter a todas. Daí as ressacas sucessivas. É por isso que eu costumo dizer que o amor é sobre-humano, voga numa dimensão paralela e vai descendo sobre nós.

A ideia era, ao arrepio de todas as desconfianças, burocracias e bloqueios mentais e sociais, cumprir um sonho que há muito eu próprio alimentava e que ia cumprindo, parcialmente, pelas escolas: construir uma narrativa que incluísse toda a assistência. Não pura ficção, mas apoiada em factos e características dos alunos que iam assistir à sessão. Pedi dois representantes por turma, e eram três turmas, do 10º, 11º e do 12º. Com eles trabalhei durante uma semana de forma a ter material de trabalho para escrever a intervenção. Numa iniciativa assim, como é fácil de perceber, há muita coisa a vencer. O mundo aberto de notícias e a histeria instalada impede-nos de dar colo sem correr riscos de sermos mal interpretados, seja onde for. E durante esta semana eu senti esse medo, essa desconfiança, que chegava de várias formas e em vários silêncios e resistências e é naturalíssima, num país de egoísmos e predadores primários. A meio da semana de trabalho, quase todos os pais já tinham ido pesquisar quem era o escritor (por isso é que a mãe da Débora me reconheceu de imediato) que estava a preparar uma intervenção com os seus próprios filhos, ainda por cima num contexto mais conservador do interior português, e o facto de terem encontrado entrevistas televisivas e alguma projecção mediática aquando da saída dos dois livros ainda piorou as coisas:

 o que quer um escritor do meu filho ou da minha filha quando ninguém se interessa por nada?

Too good to be true.
Foi essa deliciosa ideia, essa deliciosa dúvida, o "demasiado bom para ser verdade", que se colou a todo este projecto. E ontem, à saída de Fornos, a boa incredulidade mantinha-se em todos nós. É tudo demasiado bom para ser verdade. Os meninos e as meninas, entre 15 e 19 anos, tiveram de embarcar com entusiasmo e acreditar que era pelo bem. Eu próprio me podia maçar com a mais leve sombra de suspeita sobre a bondade das minhas intenções, mas já há muito percebi que, contra a histeria, é marchar, marchar. Marchar sem olhar para trás até, realmente, os ter enroscados no nosso colo e já nada mais importar e todos, dos professores aos pais e aos próprios alunos, perceberem que, às vezes, os milagres descem à terra. Uma amiga, comentando apenas o resumo e o princípio da sessão de Fornos, aventou que me poderia chamar de santo, mas já sabia que eu ia dizer que santos eram todos menos eu. Até porque a beleza e o entusiasmo, muitas vezes, também é estético, de cheiros, de olhares, não apenas de intenções e pedagogia puras. Mas eu respondi à minha amiga Carla, na brincadeira, que ontem me senti tocado pela santidade. Caramba! Caramba!

Ontem, durante a sessão, algumas pessoas choraram, eu estive lá perto.
Eu tinha consciência de que, ao tocar na substância desta ou daquele pessoa, em geral (os medos de todos, as aspirações universais) ou particular (as saudades de um ente querido, de um amigo, a solidão, a incompreensão, os sonhos), podia haver comoção. E houve. Como o auditório era plano, fiz como tenho feito nestes casos: empurro a mesa para trás e encosto-me à dita, meio sentado, meio de pé, para que todos me vejam. Quando percebi que havia meninas a chorar, nos dois casos em que isso aconteceu (e ambas são personagens fortes), pousei as folhas e fui dar-lhes um beijo. Pedi desculpa. Não é minha intenção ultrapassar estes limites. Mas também sei que pode ser o melhor dos sinais. E houve muitas, muitas, muitas e francas gargalhadas. Vou aprendendo o ofício do cómico, e de como é difícil. Há umas que resultam sempre, outras que raramente resultam, outras que resultam num dia ou num lugar, mas não noutro dia ou noutro lugar.

O maior conforto foi, confesso, poder olhá-los a todos nos olhos e ter à minha frente, de pé, professoras e directores, e, sentadas na primeira fila, as sete meninas que comigo colaboraram directamente, todas elas maravilhosas, mas de que destaquei a própria Débora, que superou todas as minhas expectativas, leu os dois livros e um conjunto de poemas durante essa semana, e leu-os bem, tão bem que me desconcertou profundamente: pensei como é possível uma menina de quinze anos alcançar uma compreensão tão profunda da literatura no meio de obrigações e testes e aulas e saraus, etc. E hoje outro pensamento me assombrava: se não acontecessem estes contactos, vários mundos continuavam sem se tocar. A semana passada não conhecia uma Débora nem uma mãe da Débora. Nem a Laura que veio falar comigo depois da sessão sobre teatro e me fez descobri que há uma comunidade vibrante que promove a cultura na aldeia de Carapito, Aguiar da Beira. Nem a Mariana, ó Mariana dos olhos amendoados, que, no final da sessão, esteve vários minutos muito direita com aquele olhar puro a fixar-me, olhos muito abertos, como se me estivesse a fazer todos os exames da maldade e da bondade: eu autografei-lhe o livro, mas esqueci-me de lhe dar um beijo, e eu tinha imposto a mim próprio que abraçaria todos os que quisessem ser abraçados. Então chamei-a de volta para isso e ela voltou a ficar ali, em frente a mim, certamente com as conclusões do diagnóstico. Nem a incrível Vera, que tem qualquer coisa que se projecta da sua figura que, ela sim, nos faz querer aspirar à santidade. Nem a belíssima Babá, de cuja beleza ninguém me avisou em tempo e depois a gente fica meio aparvalhada a trocá-la de nome com a Faby, que, ela também alta e bonita, leu com uma força quase imprópria (isto é um elogio) o final do meu poema "Caixa com mulher dentro", foda-se para esta merda a tua mãe/ é sempre a mesma coisa adormece/ a ver a novela e um gajo que se lixe/ e um gajo se lixe,/ meu amor" (houve leitura colectiva, sim, levantava-se um e dizia um verso, levanta-se outro e dizia outro, e foi tão bonito). Nem a Lety, que é maravilhosa e está proibida de duvidar. Nem a voz profunda da Sandra nem o sorriso da Ritinha. Nem a força do Cabeças (que presença, rapaz!), nem a delicadeza do homem dos músculos, o António. Nem a entrega das professoras Isabel e Fernanda, a simpatia do director António (e a classe da Dona Amélia, uma auxiliar que me levou o Livro sem Ninguém!), nem a forma como aquele abraço final da Dona Paula, outra auxiliar que parece um anjo, me comoveu (e um dia falarei dela melhor, porque em Fornos havia a dor da perda oncológica em todo o lado, nela, na Isabel, e em mim - porque eu era para lá ter ido com o Luís). Nem a resistência à dúvida da Alexa, que a superou. Nem o colo da professora Anabela. Nem a integral e completa Ana Raquel, que é já uma mulher encantadora (ela desconfiava que era mais crescida do que pensava, agora tem a certeza). Nem a doce Diana. Nem a agridoce Mia, que parece frágil e forte ao mesmo tempo, doce e ácida, com um humor delirante e inteligente, mas também violento, mas que me encheu todos os poros com uma personalidade relevantíssima que tem em si todas as possibilidades de grandeza: a Mia tem naquele olhar curioso, luminoso, uma dor certa. Não sei se uma dúvida sobre si própria, mas ela entende-se pela própria natureza - da Mia uma só certeza: todo o mimo será pouco. É, pois, a mimalhinha-mor.  O que eu mais ouvi no fim foi "gostei de ti" (para os que me fazem a vontade do tratamento por tu, que rompe tantas barreiras) ou "gostei de si". A professora Fernanda até mo disse na cara, coisa rara: "Gosto de ti, Pedro." E hoje eram as saudades, a ressaca, que passa facilmente os montes e vales que separam o Porto de Fornos. Então e eu? Então e eu, caramba? Ainda por cima, nada do que eu deixei acima exclui qualquer outro que não vai mencionado nesta crónica, nem podia (seria deselegante, por exemplo, dizer que por lá têm a professora de educação física mais bonita do mundo...ups...já disse). Simplesmente não é possível. E, de cada vez que eu fosse pescar à minha memória de ontem, seriam outros os nomes aqui. Porque eu olhei todos nos olhos, até um nome que omiti por lapso, mas estará na versão final, o do Bruno Bush (mais um da família Bush, próximo presidente americano na segunda metade do século XXI?).

É por isso que houve lágrimas, outra vez, nos abraços finais.
O amor é sobre-humano e desce sobre os corpos, vai lá dentro, enche-nos até nos deixar a explodir e depois parte, ficamos zonzos, sozinhos, sem abraços. Não é possível o abraço permanente, esse é o problema.

Tenho de interromper aqui.
Percebi que tenho muito mais a dizer e não cabe aqui.
Aliás, há uma intimidade que nasce deste dia maravilhoso que não cabe em lado nenhum, muitas vezes nem dentro de nós.

E não há colo tamanho.

PG-M 2015

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