2015-05-23

Os putos de hoje não valem nada

 O difícil é explicar a uma criança, ou jovem adulto, cujos olhos brilham no lugar para onde se retirou para ninguém reparar nele que - por momentos - é o centro do mundo. Porque esta é a explicação do curso do afluente da vida onde, muitas vezes, todos os corpos parecem flutuar sem ela (vida), simplesmente em direcção à foz: os dias são uma sucessão de quedas para o centro e embate para as margens. Somos o centro do nosso mundo de manhã e, à tarde, postamo-nos tristes nas margens para que ninguém repare em nós, porque nos dá um acesso agudo de realismo e percebemos que não somos nada. E, sendo essa consciência condição de lucidez, é importante explicar a quem ainda não teve a sorte de algum amadurecimento que não, que é mentira, que não és irrelevante, e que o que os velhos muito velhos de todas as idades dizem nos cafés antes de irem aos correios receber o subsídio de inutilidade,

"os putos de hoje não valem nada"

é mentira.

"estão sempre a olhar para os telemóveis ou para os computadores"

até acontecer que tu os tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.


Um bom amigo que já me morreu ensinou-me a sabedoria de, na vida pública, nunca usar superlativos com pessoas ou instituições, para que todos se sintam estimados por nós. É uma sabedoria válida para nos cultivarmos a nós próprios. Mas, e se, por um momento, só de quando em vez, cultivarmos os outros? E se falarmos de nomes, sem que isso signifique apoucar os omitidos? Eu aqui vou falar de alguns nomes, mas é um facto que, nos meus olhos e no meu peito, ficaram muitas imagens intensas, até alguns abraços, que não vou, não posso, nomear.

Há uma razão para ter demorado a escrever esta crónica.
O arrebatamento é um sinal de influência do divino nos corpos. E aqui o divino talvez não seja dos deuses, talvez seja o amor, o mesmo que venho identificando como tendo uma natureza sobre-humana. Entrei na escola Anes de Cernache, em Vilar de Andorinho, terra do meu bisavô escultor, pouco antes das dez da manhã. Estavam previstos noventa minutos para a sessão de apresentação do escritor à comunidade escolar. Noventa minutos é hora e meia. Mas eu só saí da escola às cinco da tarde. O último rapaz a deixar-me foi o Xano, futebolista, que nem sequer lê muito nem é grande barra a português. No entanto, eu sei que, vida fora, ele vai hesitar quando passar por livros e vai parar quando passar pelos meus. Está explicado, em dez segundos, o meu objectivo máximo na missão que me impus quando me deram o privilégio de ir às escolas cair no colo de pessoas que têm todas as possibilidades em aberto e por isso ainda não foram devorados pelo cinismo. 
E depois a professora Isabel teve uma ideia perfeita. Quando eu me calei, no fim da intervenção, ela passou uma folha branca por aluno e todos me dedicaram umas palavras. As folhas estavam furadas e foram arquivadas todas juntas numa capa artesanal previamente trabalhada pela turma de artes e pelo professor Manuel Tavares, que aliás fizeram um trabalho belíssimo e inédito em torno de uma fotografia do meu bisavô escultor, sob iluminação da professora Ana Paula. E, pela primeira vez no final de uma sessão, a professora Dora teve de conter a vontade de alguns terem o seu exemplar do livro assinado na minha presença porque havia muitos outros que já não estavam ali, tinham deixado um post-it com a razão de ciência. Curiosamente, todos voltaram depois do almoço, quando souberam que eu ia ficar à espera deles. Venderam-se neste escola perto de quarenta livros, no conjunto, quando raramente passam da dezena. E, afinal, eram três nonos anos. O professor Abel Cruz tem uma dedicação excepcional aos livros e à biblioteca, o professor Paulo, que fotografou, uma dedicação excepcional às crianças.
 Depois ficaram os escritos, difíceis de suportar.
Porque os putos de hoje, não só valem muito, como têm um potencial adormecido que, quando estimulado, nos oferece respostas que nos deixam gagos. O fenómeno mais comum nas escolas onde me dão tempo é dialogar com elementos excepcionais que depois explicam que têm más notas. Não é surpresa. A escola está asfixiada por burocratas e depende da excelência de alguns, alunos e professores. Tem um modelo esgotado e não, o modelo revolucionário não é o que protege os meninos e tem medo que a avaliação os traumatize. Qualquer criança a quem sejam dados instrumentos, espaço e alento, funciona. E, entre estas, algumas que riscam o seu percurso escolar com rebeldia e revolta, são génios que escorrem entre as mãos de professores que, muitas vezes, sabem do potencial deles e nada podem fazer, agrilhoados como estão.

O Vítor Felix, 14 anos, escreveu-me assim e emocionou-me:
"Da primeira vez que te vi, achei que ia ser como os outros autores, uma apresentação rápida e sem muito interesse, mas não, cada vez que falavas colocavas um sorriso no rosto que abria os meus olhos e a minha imaginação. Fizeste-me pensar na vida e nos livros. Quando tu explicaste as minhas dúvidas, deste-me grandes exemplos da tua vida, e foi aí que eu disse: "Vou trabalhar, vou conseguir ser feliz".

Não procuro mais nada, Vítor.

Quase todos agradeceram coisas simples como olhar para eles, ouvir e sorrir.
WTF????
Estamos mesmo reféns de paranóias?
Nos EUA, desde cedo, mas principalmente ao nível universitário, o aluno é verdadeiramente acolhido como um par. Eu acredito, profundamente, que se tratarmos todos como pares, não só potenciamos tudo de bom neles, como nós próprios aprendemos. Aprendemos muito. E depois: os abraços e os mimos não ocupam espaço. E até aquilo que torna muitos paranóicos, a tensão sexual, as paixonetas, o encantamento e o arrebatamento descontrolado, funciona dentro da maior normalidade se a proximidade se construir olhos nos olhos, com verdade e sem subterfúgios. Os afectos são facilmente descodificáveis quando verbalizados e não oprimidos. Todos eles são o centro do nosso mundo, também, só não são o único centro e eles sabem disso. Aliás, sabem-no bem demais, e é por isso que se colocam, quase sempre voluntariamente, à margem.

Não vou citar o conteúdo de todos, porque muito dele é tão elogioso que me ficaria mal.
Mas quero aqui deixar registado quem se dirigiu pessoalmente a mim, por escrito, e me tocou:
A Ana Pinto (a sabedoria é tua), a Diana Barbieri (quanto empenho e dedicação), a Rafaela Anjos (o que eu quiser? está bem), a Ana Ramos (vou relfectir de volta o que escreveste), o Pedro Lima (a obrigação encantada), a Catarina Gonçalves (obrigado eu), a Inês Moreira (o ponto de vista novo e, está bem, eu digo aqui que és a melhor filha do mundo!), o João Ferreira (a beleza), anónimo (eu leio, ao princípio, porque não consigo ordenar as ideias espontaneamente e estou mais nervoso do que vocês), a Inês Sousa (espero que a tormenta tenha partido), a Catarina Silva (a melhor voz e a melhor conversa são as tuas), o Tomás Gonçalves (um leitor conquistado), a Natacha Pinto (a nova vontade de ler), a Viviana Silva ("as palavras são a base do mundo"), o Ricardo Leitão (se eu sou importante na tua carreira, tu és na minha), a Joana Lima (a curiosa), anónimo (honra minha), a Diana Patrícia (FCP forever: eu também estarei aqui sempre, eu também tenho os meus inexplicáveis), anónimo (nova leitora), Ana
 Rita (o fenómeno do tu), o Rui Martins (a linguagem altamente difícil, mas natural), a Rita Gonçalves (leitora dos dois livros, que bom!), Isabel Aragão (nome de rainha, mensagem de princesa), mais sete anónimos (a adoração da manhã), a Filipa Moreira Carvalho (o negativo e o postivo: da próxima leio os excertos eu; claro que gostei de te conhecer), a Inês Serra (também me cativaste), a Renata Pinto (e a dedicatória à mana, que acabou por ser dela própria), Leonardo Soares (o maior escritor, já se sabe, com esta barriga - obrigado por veres a dedicação), o Fábio Tavares (cativante também tu e, sim, lê os livros), o Bruno Sousa (que usa intelectual como elogio de uma forma originalíssima, e diz "foi a primeira vez que estive com um escritor deste calibre" - que vaidade, Bruno!)  anónimo (a primeira vez que ouve um escritor que descreve tão bem tudo à sua volta), o Alexandre Ferreira (pede-me para ter confiança em mim próprio; acho que este é o Xano, o peixe do Wallace), o Pedro Silva (sobre a maneira de expressão), o Tiago Santos (a percepção), a Vanessa Carvalho (a experiência bonita), a Maria Beatriz Silva (a lição de
vida), a Andreia Pereira (as palavras inspiradoras e o homem simpático e divertido), o Vasco (Blue eyes), a Bruna Campos e a Andreia (e a expressão clara da leitura), a apresentação da Ana Rita (adorei a apresentação, e sim, um abraço e um beijo, como pediste), o Cristiano Hipólito (leitor e a oportunidade melhor), a Diana Teixeira, as Professoras Maria José Soares, Maria Carlos e Maria João, o professor de design Rui Santos e o Manuel Vieira (obrigado por lerem o livro), o Tiago Cunha das estrelas, a Inês Matos (pelo silêncio empenhado).

Os putos de hoje são estratosféricos e lindos.

Não procuro mais nada. Não é preciso mais nada.


PG-M 2015
fotos de Paulo Almeida

2 comentários:

Denise disse...

Gostei imenso.
Muito bonito.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Densise.