2015-05-01

o poeta a dar à pata para um verão interior



O poeta a dar à pata para um verão interior. Estranha hoje a sensação de pedalar, realmente pedalar, na hora do almoço, a ouvir o próprio Herberto a dizer os seus poemas. Creio que já posso falar de Herberto. Quando o povo o fez seu, à morte, quando o descobriu mesmo fingindo sempre tê-lo conhecido (não há logro moderno mais belo do que esse), e encheu os murais de colagens, os pequenos-animais-donos de um Herberto inventado, exclusivo e marginal, correram, desvairados, furibundos, os quatro cantos da própria jaula, e alguns escolheram um silêncio sujo. Eu só quero dar testemunho de coisa incrível que hoje me aconteceu, ouvindo-o. Normalmente o que ouço em exercício físico é para me distrair do sofrimento muscular e respiratório, e o efeito é desligar uma certa auto-consciência, ou seja, foco-me mais no que ouço e menos no que faço ou vejo. Mas hoje, com os poemas de Herberto ditos pelo próprio, tudo o que me rodeava ficou mais nítido, as cores e as sombras mais carregadas, e mesmo na paragem, quando tiro os fones e recebo a imagem da ponte Dom Luís e da largueza daquela curva do Douro, ali em Gaia, junto ao estaleiro dos rabelos, de frente, e me sinto privilegiado por ser daqui, tudo foi diferente, as palavras cósmicas do Herberto ligaram-me a carne e a respiração ao detalhe do mundo. Eu chamo-lhe lucidez, mas nunca o esperei da poesia desta forma. Físico, como um beijo líquido com as línguas a evoluir até à incandescência ou um abraço de braços e pernas de dois corpos nus, o meu e o do mundo inteiro

PG-M 2015

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