2015-05-01

notas sobre a grande audiência, ídolos, whiplash e rosselini


O lado bom da grande audiência. Sou lentíssimo a arrumar a cozinha, gosto de intercalar a tarefa com a televisão, porque há dias em que só a vejo a esta hora. Vejo o sempre excelente jornal do Pedro Mourinho, salto a meio do Marcelo e depois, de costas e entre pratos, se os suportar, os programas que se seguem em ambos os canais. Curioso o que hoje me fez mudar de canal, já depois do palhaço Raminhos. A dose de lamechice da Cristina e do júri no pós-dança da Cuca foi tão exagerada e artificial, que eu, telespectador burro, como eles pensam, percebi logo que alguma coisa se passava no outro canal. Estreia do Ídolos, pois. Tenho de agradecer a este programa o serviço que prestou a uma canção que eu amava sozinho desde 2008, quando alguém se candidatou com ela ao Ídolos de 2012 e fez dela um sucesso nacional. Apesar de o sucesso de uma música ter tendência afastar alguns melómanos, o "Anda comigo ver os aviões" é uma bela letra kitsch e, para mim, a mais bonita canção que se escreveu nos anos 00. Mérito do agora mediático Miguel Araújo, um letrista e músico genial, que já tem municiado, por exemplo, o Zambujo (que também a cantou). Portanto, o Ídolos faz esse serviço público. Nesta fase de castings nortenhos (o nosso sotaque é o mais bonito do mundo), farto-me de chorar a ver aquilo. A brutalidade "whiplash" já vai incorporada em alguns concorrentes, e isso é bom. É evidente que por lá passam bons músicos, mas também é evidente, e outra discussão, que muitos dos que lá vão querem um sonho rápido, não propriamente trabalho, - mas não se pode censurar isso a pessoas tão jovens. O Abrunhosa nunca passaria, o Camané nem pensar, o Bob Dylan seria gozado, o Leonard Cohen mandado embora de fininho, a Madonna era corrida com insultos, só para citar alguns. Na volta do comando, vi dançar na 4 um casal de jovens com trissomia 21, ela tinha um sorriso tão bonito que comovia. Voltei a chorar. Fico sempre sem chão com o afecto sem filtros. Achamos que é muito cool, muito in, socializar à estalada, e estas pessoas, com que também me cruzo por razões profissionais, fazem-nos sentir ridículos com o amor incondicional por todos, mesmo pelos que conhecem mal. E estou de coração cheio tendo engrossado as audiências, que sou capaz de abandonar para vos vir contar isto e, agora, ler. À tarde vi Roma, cidade aberta, do Rosselini (bendito ciclo) e voltei a chorar - a cena não podia ser mais simples, mas o óculo do Rosselini sabe muito: o padrasto aconchega o enteado, um menino de uns seis anitos, que ele não sabia ter sido cúmplice, nessa noite, com o grupo de crianças de que fazia parte lá no prédio, e cujo líder era o Romoletto, de um atentado com uma bomba artesanal aos nazis que ocupavam Roma, e pede-lhe para contar o que se passa, o menino diz que não pode, que é segredo, o padrasto conforma-se, se é segredo, guarda-o, e, como amanhã o padrasto se casa com a mãe (Ana Maganani), o menino pergunta:

- A partir de amanhã posso chamar-te pai?
 - Se quiseres.
 - Sim, quero.
 E diz o menino:
 - Te voglio tanto, tanto, bene.
 E abraça-o, sob a macro de Rosselini.

  Não há nada de transcendente em nada disto, nem eu estou particularmente fragilizado, mas a vida - não necessariamente a felicidade ou a tristeza - é assim mesmo. E isto faz-me pensar. O que é magnânimo, afinal? A nota densa, complexa, do Whiplash, do Ulysses ou da Recherche ou os aviões do Mendes na voz transparente de um miúdo ou o abraço do pequeno enteado no desarmante preto e branco do Rosselini? Eu acho que é tudo, se não se limitar a passar, como a garota de Ipanema, ou mesmo ela, se regressar a nós. Boa noite e boa semana. 

PG-M 2015
fonte da foto


Sem comentários: