2015-05-09

letra kitsch para música insigne por escrever que pode vir a ter como título nunca me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

 Deixa-me um cartaz na estação de são bento a dizer que ainda me amas e procura o meu corpo entre os trapos e os cartões e as garrafas que o carro do lixo recolheu às quatro da manhã do vidrão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me andar pelos cantos da cidade com o resto da verdade e fome e sede e saudade perdido nas veredas do progresso e na delícia gratuita do índice médio de sucesso e felicidade e qualquer modo social de agressão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me encontrar o teu olhar no reflexo de uma loja quando eu estiver diluído no granito que dá consistência às moradas dos que vivem por cima dentro das portas sem fome e deixa-te ficar a analisar os itens que consideras adequados para aquisição no próximo pretexto ou ocasião,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um abraço dos nossos filhos na soleira onde eu dormir quando eu já não puder vir por ter sido removido de ambulância paras as macas dos corredores do santo antónio em urgência humanitária e diz-lhes que há muitos poemas que explicam o fracasso do pai no projecto da nação,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um sinal de memória no foyer do crematório do cemitério do prado do repouso ou entre os altares abandonados dos outros mortos decentes dos jardins do além e canta baixinho aquela nossa canção remendada a cuspe com os restos que tens no coração e no meridiano de todos os amores que vivemos à vista de um instante de paixão mas

nunca, nunca, nunca

me deixes morrer de tristeza nas noites de verão 


cantada por PG-M (2015)

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