2015-05-01

Esse abraço foi surpreendente

 Título:
Vimos é de vir e de ver, vir no cortejo, ver o céu impossível, assim, ah sim

Corpo:
Ensina-me. O silêncio é baixinho? Conheces? Já viste onde trabalha? Não é na secção quatro da repartição sete da rua chã? Não é o único do jardim interior que usa casaca lisa sem condecorações? Ensina-me. Ensina-me a escrevê-lo. Abro parêntesis. Espaço. Fecho parêntesis. Já está. Oh, então canta-me qualquer coisa, estou tão cansado, não quero falar mais. Vimos no cortejo dos carros pretos e o céu tão claro que é impossível. A tua canção são gemidos em duas oitavas, não percebo nada, mesmo nada, mas continua, a música é mesmo assim, porque me haveria de emocionar o teu volapuque? A verdade é que emociona. Então sorrimos. Não preciso que me ensines isto. Já sei ler. Sei ler, ainda que os sorrisos sejam textos raros. Há poucos nas nossas idas e voltas e idas e voltas e idas e voltas. Com efeito, aparece um por semana, e aparece sempre assim, à sexta-feira. Ah, sim, peço perdão, adeus, bom fim-de-semana. Esse abraço foi surpreendente. Ensina-me. Tens cinco minutos?

PG-M 2015 
fotografia do Porto (Pasteleira)

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