2015-05-15

9 da manhã

 
às nove da manhã estou atrás
do balcão de madeira mais
propriamente um tipo raro
de castanho muito mais
escuro do que aquilo
a que o senhor está
habituado e vai
começar o meu
último dia de
cinquenta
anos de
casa

o patrão vendeu a loja aos chineses

deixei o carro num lugar de ninguém
como é costume desde que eles
instalaram os parquímetros
mas não pintaram o
rectângulo final
tomei café no
vitorino que
eu já venho
comido de
casa

vendo
tabaco e harmónicas
o patrão usa um casaco
de lã de inverno ou de verão
e tem um cofre negro no escritório
mas leva sempre o apuro embrulhado para
casa

vendo
bem já ninguém
compra tabaco em lojas
rigorosas com coisas relevantes
penduradas nas paredes e expositores
do melhor vidro e poesia nos guarda-pós que
o patrão substitui meticulosamente todos os dias
por outros novos mais cuidados do que os fatos que
ele guarda no armário para se mudar antes de regressar a
casa

vendo
bem já ninguém
quer harmónicas,
já ninguém quer harmónicas na
rua
já ninguém quer harmónicas em
casa

estou com a lagrimita quando
o patrão fecha a casa pela
última vez amanhã
as trancas vão ser mudadas, o balcão,
o imenso e majestoso balcão,
vai ser desmantelado
e a vitrina forrada
a mandarim
ficou um acordeão
esquecido no alto
do armário
maior
ai meu deus, senhor caius,
disse eu a olhar por mim
abaixo, não tirei
o guarda-pó
é para si, antónio,
deixe estar

cortámos pela travessa da rua chã, como sempre

quer boleia?
não, senhor caius,
deixe estar
ele entrou na 4L
a carreira chegou logo e
ainda virou à esquerda para o tabuleiro de cima
da ponte dom luís, ainda passou para gaia
ainda se cruzou com tróleis
 
lá em baixo, no cais da estiva,
a ribeira descoseu os vultos
dos caixotes
e todos gritaram alto vai-te foder e todos
riram abraçados e entraram
nas tascas e nas
casas
nos varadins estreitos as mulheres preencheram
a falha do estendal com camisas brancas
puseram a mão na ilharga e umas
também se riram e outras
choraram

ai o tacho ao lume

ao longe a arrábida soprava
a noite para a foz e
a afurada ouvia
o amanhã
às nove da manhã
se me forem ver
procurem devagar
e com cuidado o meu
lugar em casa

voltarei eternamente
sou de cá tenho
harmónica
não tenho 
mais nada 
o acordeão ficou
esquecido no alto
do armário
maior



PG.M 2015
fonte da foto

Sem comentários: