2015-04-15

Francoatiradores


Primeira parte: o fenómeno Ana Catarina. Ana Catarina já abateu a tiro dois escritores. Fui um deles, hoje mesmo. Fiquei fã. Nuno Camarneiro chamou-lhe francoatiradora. Confere. Questiona sem pudor, dialoga, mas não tem perguntas porque tem convicções, fortíssimas convicções. Mas vamos por partes.

Segunda parte:
Cremos que as descrições da luz estão todas feitas. Mas eu ainda não descrevi isto:
vejo-os assim. Um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

Mas vamos por partes. Terceira parte:
Eles pensam que eu vou à escola pelo meu texto, pelo meu livro, mas nós, eu e os meus livros, que são deles, somos apenas os pretextos. É tudo sobre eles. Eu quero que seja sempre tudo sobre eles. Tem de haver uma sedução singular da literatura aos jovens leitores, e creio que a forma de o fazer ainda não foi devidamente pensada. Até a frio poderíamos dizer que eles, sendo leitores agora, são o corpo do leitor informado e criterioso do futuro, ou seja, não vale a pena apressá-los, apenas deixar as sementes, seduzi-los. Eu sei a marca que a mera imagem de Saramago, a dez metros de mim, deixou nos meus vinte anos, na altura em que o mundo nos ensinava a não gostar dele. A outra, em Penafiel, a pouco mais de seis meses da sua morte, foi outra coisa, foi um corolário de qualquer coisa e eu já tinha crescido.

E é como lhes digo: se a obra só pode ser avaliada, devidamente avaliada, muitos anos depois da morte do escritor, apesar da miríade de prémios (quantos prémios nóbeis estão ignotos e sem leitores?), o que estamos nós, escritores, a fazer aqui, agora? A esconder-nos dos leitores? A viver num olimpo de cortiça longe de tudo? A fingir de mortos, decidindo a nossa própria relevância? Não. Não eu. Eu sou apenas corpo e vou até aos corpos que me esperam. Estes, ainda ontem deitados ao mundo, são um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

E eu tenho uma consciência aguda, quando escrevo sobre os magníficos que se destacam em cada sessão, que são muitos mais os que ficam na sombra, às vezes leitores de uma vida, alguns já com maturidade para decidir que não se querem desiludir e que o autor, para eles, não é uma pessoa física, inteligível. É por isso que hoje eu e um grupo de professoras concluímos que o "pathos", o intenso pathos dos 9ºs anos de escolaridade, acontece porque eles ainda estão no colo dos pais, ainda não erguem barreiras ou distâncias e todo o arrebatamento, todo o fascínio, é permitido. Mas não é hoje, ainda, que  vou escrever sobre essa espantosa experiência de ter passado sete horas numa escola porque os alunos me quiseram lá, como aconteceu em Vilar de Andorinho - embora tenha recentemente publicado no meu facebook a fotografia da Andreia, uma rapariga agarrada ao meu primeiro livro, "A manhã do mundo", enquanto assiste à sessão, e que está nessa franja dos que ficam na sombra e, provavelmente, nunca nos aparecerão à frente, mas serão grandes leitores.

Esta longa introdução serve apenas para disfarçar os magníficos da sessão de hoje, 15 de Abril de 2015, no Olival, e que vou nomear. Mas insisto: voltarei para falar dos que ficaram na sombra, se algum dia comunicarem.

Quarta parte, que volta à primeira:
O fenómeno Ana Catarina.
A Ana Catarina não é apenas uma rapariga que quer provocar desconforto no interlocutor. É profundamente inteligente, está sempre com um sorriso - parcialmente cáustico, parcialmente franco. Não sei se tem boas ou más notas, sei que tem o barro dos grandes. O actual sistema de ensino não permite, propriamente, perceber este tipo de excelência. É burro e burocrático. A Ana Catarina, essa, é uma força da natureza. Questionou todo o seu mainstream social, mas é muito curioso: exaltou, provavelmente sem se aperceber, um filme como o Titanic, que foi o mainstream social da geração anterior. Mas fê-lo com tal conhecimento que me vai obrigar a rever o filme: muito por causa da Kate Winslet. E da Ana Catarina, claro.

Havia uma menina que sabia cantar uma música da Nena. Caramba. E, apesar de eu lhe ter dito que nenhum verdadeiro fã da Nena Kerner gostava do 99 redbaloons - pedi-lhe  pelo menos a versão em alemão -, caramba. É bom, caramba.

O fenómeno Cristiana Dias. Pequenina, doce, e no entanto a fazer-me lembrar tanto o que eu era da idade dela. Eu, que era doce, mas nunca fui pequenino. Atravessada pela paixão da música, clarinete, ficou hoje com duas incumbências suplementares. Um livro e o filme, porque a comparei à Setsuko do Túmulo dos Pirilampos. Perguntei-lhe, no fim, se achava que era discreta, se se diluía na multidão. Disse-me que, se não fosse chamada a intervir, sim, diluía. Eu disse-lhe que não. Que uma pessoa como ela se destacará sempre na multidão. Fico para o segundo acto.

O Pedro fez uma pergunta, foi o único, o corajoso, mas eu obriguei-o a começar assim: "Pedro, tu, que tens um nome fabuloso, nós, que temos um nome fabuloso...". E perguntou sobre a Manhã do Mundo.

A Cristiana Ferreira, ainda que suavemente questionada por aqueles risinhos naturais de colegas, fez-me sentir que o que dela descrevi foi um tiro certeiro. Que ela é mesmo assim, que a adivinhei, mesmo que seja impossível decalcar completamente uma personalidade que se está apenas a projectar. Mas o sorriso dela, no final, era de "closure" (calem-se lá os puristas, não há tradução para o tom original de "closure", é uma bela palavra inglesa).

E a Mariana Moura, e o João Oliveira, e a Inês Peixoto.
E a abertura com a Sara Moreira, sem sono, presente, alerta, fantástica.

E finalmente o Edward Norton. O Edward Norton estava na Diogo de Macedo. Se ele me fizer a gentileza, um dia ainda juntarei foto a provar isso. Entretanto, dá pelo nome de Paulo Tavares e lê muito bem, mesmo apanhado de surpresa. Leu o texto "Abigail, abigail, abigail", de uma sessão anterior na Diogo de Macedo.

Voltarei. Sempre. Pela Luz.


PG-M 2015
Foto de Ana Catarina

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