2015-04-08

5 da manhã

 
quando chego à cama pelas cinco

não gosto que estejas virada para norte


deito-me fetal na margem sul
bebo televisão por uma palha
e quando o vasto leite da inconsciência
se entorna pelo quarto
a paz de dentro quer unir-se à paz de fora
e a massa do silêncio da rua chega
ao fundo dos pés que esfregamos
entre os dias
um de nós procura o comando e o fim
deste dia e a distância do outro


persigo com a mão esquerda qualquer forma


tua, abrando
as pálpebras
os lábios não
hei-de deitar-me de costas como um cadáver
de bruços como os vivos pelas praias
sobre o meu lado direito como a mãe
me punha no berço
sobre o meu lado esquerdo quando tu


cravas as unhas na manhã
e digo
tem calma, meu amor, tem calma,
dorme o último troço
da treva


esta noite foi belíssima
mas mentira
era o que faltava
contar num poema
a geografia da noite

que somos nós no esplendor
do que nunca dirão
de nós, portanto


das 5 da manhã em diante

a substância parda e absoluta
do amor



PG-M 2015
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