2015-02-20

Sete da manhã



às sete da manhã estou sozinho,
minutos antes
da respiração do dia
na casa,
a pensar na pureza
da literatura
nas hordas de génios
que desprezaram
prémios
e os desejaram
em segredo
e à mesa de cafés parisienses
ou lisboetas
ou madrilenos
ou romanos
ou de qualquer café
central
o confessaram a amigos
que o venderam a
biógrafos
dedico este libro a la impureza

dijo aramburu
penso na pureza
e na solidão
de qualquer arte
na aspiração
e na demência
na velhice
e no princípio
na absoluta simplicidade da semente
na absoluta complexidade

da semente
que vergado deitarei à terra
desconhecendo ainda
a frase


e como a morte se insinua
na eternidade 


saio nu e imperfeito para o pátio de cimento

com quebras como os homens
que executam
dedico este libro a la impureza
começam a passar os carros e os torsos frios
para o trabalho
os pobres acordam e voltam
a ter fome
eu entro em casa
visto o pijama
deito-me
cubro-me
encolho-me
como um feto

e não escrevo nada



PG-M 2015
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