2015-02-01

"Segundo Platão, tu és um mentiroso"

 "Segundo Platão tu és um mentiroso. És um sofista, um charlatão. Mentes sem nobreza. Não tens vergonha? Platão escreve um "Autopsicografia", com o seu o poeta é um fingidor mas não perdoa. Platão fala tão mal dos poetas que nunca se atreveria a escrever um verso que fosse. Porque os poetas não são responsáveis por aquilo que fazem. Quando escrevem, encontram-se numa espécie de estado mediúnico, não racionalizando, já que são possuídos, no momento de criação, por uma loucura instigada por uma entidade divina. Para Platão, há um deus que cria através do poeta. Mas isto não pode ter nada de bom. O poeta é apenas o invólucro, a marioneta. Para piorar o cenário, os poetas usam e abusam do ofício dos outros para poderem produzir os seus objectos artísticos. Compara o pintor ao tragediógrafo, uma vez que ambos actuam de igual forma: um pinta uma cadeira não sabendo nada da arte de fazer cadeiras, outro descreve essa mesma cadeira, não sabendo nada de carpintaria nem de limar arestas. Platão entende que os poetas não deveriam ter lugar na república ideal mas, se o tivessem, deveriam ser aqueles que cantassem os feitos dos homens bons e as virtudes dos deuses. Porque, de resto, todos os outros convivem com a pior parte da alma, o que quer que isso seja, todos os outros se encontram "três pontos afastados" da realidade (expressão idiomática da Grécia Antiga para dar a noção daquilo ou daquele que está bastante afastado de algo). É desta forma que os pressupostos platónicos submetem a literatura a critérios que são extrínsecos à sua análise, que é o caso do critério da verdade e do critério moral (canto do homem moralmente superior).

É aqui que entra Aristóteles, aquele que vai refutar as conclusões brilhantes de Platão que, ao lado do nosso novo amigo, se tornará caduco e pequeno. Aristóteles vai converter o moralismo platónico numa qualidade imanente da obra literária, que pode ter um poder moral se estiver esteticamente bem construída. Aristóteles caminha em passos lentos, cada um com uma estrutura argumentativa bem pensada. Compreendemos que, para o autor, a poesia é imitação. Essa imitação, a mimesis grega, distingue-se das outras artes pelo meio que utiliza: o meio verbal. Então, a poesia é uma imitação através do "simples verbo", isto é, através da linguagem. Mas não se trata de uma imitação passiva da realidade. Refutando os pressupostos platónicos, Aristóteles defende que o poeta é um ser totalmente consciente do seu ofício e que essa imitação é uma faculdade inata do ser humano, um acto congénito, e não uma maldade ou uma mentira. Afirma que o Homem cresce e aprende através da imitação e que este é o seu primeiro veículo de conhecimento. E, não imitando apenas, o Homem também retira prazer dessa imitação. Sabendo então que a poesia é imitação por meio da linguagem verbal, é importante sublinhar o facto de essa linguagem ser especializada, embelezada, ornamentada, é uma linguagem temperada e cheia de sabor, o tal sabor barthesiano (Roland Barthes afirma, em Lição, que a literatura acontece sempre que as palavras tenham sabor). Mas esse tempero da linguagem, próprio da literatura, é acompanhado da apologia da "clareza sem baixeza", uma vez que não há conotação apreciável se não é possível reconstruir a denotação. Essa clareza, defendida por Aristóteles, é assegurada pelas palavras correntes e a beleza e elevação que se esperam da linguagem poética são asseguradas pelas palavras raras. As palavras correntes são aquelas que são do uso da maioria, as palavras raras são os estrangeirismos, que chegam dessa forma até nós, vindas de outros povos e culturas. Aristóteles defende a figuração na linguagem literária, possível através do enigma (o resultado do uso da metáfora, que para Aristóteles se trata da transferência do significado original de uma palavra para um outro, que melhor servirá o texto literário) e através do barbarismo, ou seja, o uso das palavras raras. Em Aristóteles encontramos já a defesa do verosímil, quando este distingue o discurso histórico, que conta as coisas como elas aconteceram, do discurso literário, que conta as coisas como elas podiam acontecer ou como podiam ter acontecido, segundo "o princípio da verosimilhança". Para Aristóteles o verosímil na literatura justifica-se desta forma: de preferir às coisas possíveis mas incríveis são as impossíveis mas críveis.

Para rematar este duelo de titãs, os dois raciocínios, o de Platão e o de Aristóteles, explicam-se resumidamente desta forma:

PLATÃO - MIMESIS remete para um critério de VERDADE
ARISTÓTELES - MIMESIS remete para a POIESIS (construção) através do EIKOS (verosímil - aquilo que convence graças a uma construção inteligente)"

Catarina Lacerda, em carta que me foi enviada e com autorização de publicação
Foto é frame do filme "Alexandre, o Grande", de Oliver Stone. Aqui, quem desempenha o papel de Aristóteles é o actor Christopher Plummer)