2015-02-11

Quatro da tarde

sinceramente não me apetece escrever
sobre as quatro horas da tarde, até porque
esse é o momento em que não devíamos
estar dentro de nada, não devíamos
pertencer senão aos livres ou aos loucos
ter superpoderes, voar pelo
quarteirão, beijar
a morena da
loja de doces
ou a mãe
do charles
Ó menino!
Ó dona madalena!
não seja atrevido
serei
tens de aprender a sair
às quatro da tarde
mesmo que chova
apontas o chuço à montra da livraria e declaras
senhor josé, sou um novo herói,
mistura de charlot e chaplin

smile even though it's breaking
ou então gene kelly com hegel
it's a glorious day
mas a mão amparando as costas
da rita hayworth
a dançar a bossa nova
you were never lovelier
excepto no flume infinito
de um certo fred astaire
e ninlil dará a volta aos milénios banhando-se "na onda pura"
e recusará os beijos de enlil
porque tem os lábios pequenos
e tu serás, não gilgamesh, mas a simplicidade do supremo
bem vês, até o foxtrot vai dar a volta ao século
bem vês, não há propriamente limites filosóficos na tua abordagem ao piso,
não estás encerrado em muros ou montado numa estrutura de ossos
dermodisfarçada
pois isso é o que fica quando não há comoção que segure este mundo
e este mundo sem nós
sempre foi uma estrutura de muros sobre campos de ossos
e a voz dos que saíram a fazer eco
nos desfiladeiros
em Treblinka foram tremoços,
verdes e arrebatadores campos de tremoços e toneladas de terra
cultivados pelo camponês ucraniano
sobre consciências gaseadas, removidas, depostas, incineradas a cada
cinco segundos

cronometra:
cinco segundos, um menino de dois anos no lazareto, um tiro na nuca; cinco segundos, a bandeira branca com o símbolo da cruz vermelha, Samuel é deficiente e velho, um tiro na nuca; cinco segundos, na antecâmara de gás eu corto o cabelo a tamara - queres que continue? agora multiplica e diz quinze mil nomes e conta quinze mil histórias do nascente ao poente de cada dia

ele, obsessivo e calculista, tinha o ideal da arrumação da morte antes das quatro da tarde
mas os corpos eram tapados com terra até tarde
e tu voltavas ao barracão gelado
e dormias sem culpa
no inferno
o comandante comia cedo
excepto naquele dia em que o wirth veio
e ficou decidido incinerar as pessoas antes de as enterrar
e beberam cerveja quente e o jantar
atrasou-se 
e tu começaste a deitar-te
com fogo alto nas valas
e o mesmo gelo
nas veias

então porque é que,
nem que seja apenas desviando os olhos da secretária para os estratocúmulos suspensos sobre o estuário,
não sais sempre às quatro da tarde?
um dia ainda te cercam o bairro onde trabalhas
e fecham-no à chave
e é tarde demais
sinceramente não me apetece escrever
sobre as quatro horas da tarde, até porque
esse é o momento em que não devíamos
estar dentro de nada, não devíamos
pertencer senão aos livres

ou aos loucos


PG-M 2015
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