2015-02-21

Quatro da manhã

houve um momento na noite em que o pai deixou que na casa uma urgência
escalasse as suas próprias
paredes


a urgência que está sempre lá
o mal do amor incondicional
um sufoco indelével e pardo
a síncope permanente
a todo o momento deixa de contar
o corpo
e vem o amor em vez
e é uma coisa concreta
e tudo fica claro, nítido
os corredores da casa mesmo às escuras
quase sempre os cabelos dela
quase sempre os cabelos dele


os dela ficam mais bonitos com o tempo



quando o pai entra tarde na cama
se se desmoronou pela
sala
ela está sempre, quase sempre,
iluminada
não é a luz da televisão
o quarto fica subitamente dentro de uma
noz, o universo maior do que o
universo
a pequenez agiganta e no entanto
o mundo inteiro
o escritor, o pintor, o realizador, o actor, o cantor
explicam pressurosamente o sentido da vida
que pode ser dos olhos ou da própria consciência
e refulge no plano visível como uma moeda de prata
no deserto

quando sente essa urgência o pai
tem apenas duas formas de reagir


ficar na cama e pousar a mão sobre a cabeça
dela e deixar subir pela margem do braço uma espécie de sangue
paralelo aos corpos
o cabelo tem uma textura própria, nunca teve outra cor
que não as cores dela, por pouco tempo apenas o preto
mais tarde o castanho escuro com laivos de vermelho
depois as brancas suaves que lhe ocupam o pedestal
desde os vinte anos,
foi a certa altura um cabelo questionado socialmente, põe-te mais velha, devias pintar,
mas à força de tanta estima, de tanto amor deles, que de cada vez que a encontram lhe puxam a cabeça para o peito e a sossegam com carícias, o que pareciam brancas espessas, invasoras, tornou-se, com o vagar da vida e a têmpera da felicidade – que na vida pode ser tão áspera e sublime como a desventura na arte – um só conjunto harmonioso e macio onde se a vai buscar inteira

quando sente essa urgência
o pai tem esta forma de reagir,
ficar na cama e pousar a mão sobre a cabeça dela e escutar a respiração dele
no outro quarto e então deitar-se,
fincar o nariz na almofada e cingir os lábios com força como um sorriso que se trava porque não se pode consentir que o corpo siga sempre o curso do rio que traz dentro,
nenhum dique suporta toda a dádiva,
o pai tem essa forma de reagir ou a outra

levantar-se e ver o amor incondicional corporizar-se nos cabelos dele
enquanto dorme
os cabelos que foram sempre os mesmos desde o berço, como se o toque do pai pudesse ser traduzido na fórmula científica de uma reacção química
a pele dos dedos mais um fio de cabelo do filho é igual ao batimento cardíaco de ambos sintetizado pela respiração e pelo olhar e talvez
– outra vez –
pela boca
ele nasceu cheio de cabelo, depois perdeu-o, depois reganhou-o, esteve no pequeno berço do avô, depois numa cama com grades, depois numa cama que daria para chegar a adulto, e agora,
com as medidas a ultrapassar largamente as da mãe
tem exactamente o mesmo cabelo, que o pai toca de forma delicada mas dolorosa
porque sabe que, se no casal há um movimento de fora para dentro,
e pode-se sempre tentar entrar,
na paternidade tudo é de dentro para fora
ele nasce parte e já parte
estar tão dentro e fora é insuportável
agora ele dorme num beliche alto mas não importa que tenha um corpo de homem
se na noite o pai lhe toca os cabelos o amor incondicional vira sólido
em sublimação




às vezes,
há um momento na noite em que o pai deixa que na casa uma urgência
escale as suas próprias paredes
não raro,
perante esta urgência que está sempre lá
o pai senta-se na sala a ver a sua imagem reflectida na televisão apagada
e o tempo não se estende
suspende-se mas passa depressa
não há pensamentos, não há sentimentos, é só o corpo a voltar ao sítio
às vezes adormece e no outro dia, felizmente, esquece-se
de quanto os ama, ou, felizmente,
lembra-se de quanto os ama


PG-M 2o15


Sem comentários: