2015-02-21

Oito da noite

 Não te falo dos fumos vesperais das sopas
que subiam aos céus às oito da noite
nem quero que te lembres dos meus
indecorosos ritos
quando tinha o escritório à vista
de casa
de como eu me atrasava
para sair à gloriosa hora
do coro das chaminés
quero mais do que esta vida
neste poema
estou em crise com Sebald
procuro o olhar fixo
dos bichos da Nocturama
sinto a culpa do atalho
do Mário de Carvalho
já te neguei o afã
da rima do Celan,
como o génio do Gonçalo
para aprender a sangrá-lo
quero, isso quero, refazer o sistema venoso dos braços do Eme
enquanto descubro uma forma de ficar de pé no vê central
a decompor os restos do sistema venal
porque do Tavares farei o labirinto
onde vou cair com absinto
e tremoço
depois do almoço
com a Alice
a Alice é a puta velha
estruturalista
que tu conheces dos nossos passeios
ao Porto, e parava
na travessa das liceiras
a cinco contos
o broche
não tem sentido procurar os fundamentos da verdade
às oito da noite, à sopa,
e adormecer
subordinado
adormeci,
mas antes das nove
acordo
pornográfico
acordo-te
ortográfico
Não te falo dos fumos vesperais das sopas
que subiam aos céus às oito da noite
nem quero que te lembres dos meus
indecorosos ritos
passa-me o sal

como se fôssemos nada



PG-M 2015
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