2015-02-21

Duas da manhã

duas da manhã e tu
encolhes pela cama
dentro
foste actriz, rodaste valsas
no soalho imperial,
foste pintora, escreveste
crónicas nos grandes
batéis, foste véu abriste,
foste porta velaste, foste
escuta calaste, foste
mordaça disseste, foste
mãe escalaste, foste deusa
selaste
cavalos, armaste
demónios,
vês o teatro ao longe, dói-te
o futuro, há um bailado a que
não vais, escolhes o lago
que pende da tua
parede,
está frio
e tu negra,
macilenta,

vem
tens
a cara molhada, os braços
cruzados sobre as
costelas

vem
somes
não fazes comida nem lidas a casa
não limpas o pó
não cantas não ouves as
conjugações

queres principalmente morrer
às duas da manhã
à alvorada foi um
sonho, a morta atrás
do biombo, rebelde
da história limpa


do mundo.



PG-M 2015
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