2015-02-11

Dez da noite


Dez noite e eu sozinha
diante do espelho americano
dos lavabos do bistrot
tenho quinze
vinte e cinco
trinta e cinco
quarenta e cinco
cinquenta e cinco
sessenta e cinco
setenta e cinco

vou pintar-me vou mudar até notares
o lugar vago

quinze
nem acredito que estou aqui, que o pai deixou
ó meu deus
a mãe vai ser atravessada pelo ácido dos portões da escola secundária
o coro dos amos
"que tempos salazes estes em que eles se vendem pela liberdade miúda"
e o meu batom vermelho vai esbater-se entre os teus tipos
o vestido curto sobrar
pensei que o peito podia doer e a respiração apertar
antes de o corpo ser nosso
nunca beijarás uns lábios pintados
pelas fotografias da emily blunt
nunca tomarás uma mão demasiado segura
com unhas de gel
nem me conduzirás ao jardim interior
quando a tua evasão
é recordar o código
do cartão do teu pai

vinte e cinco
não há vez nenhuma antes desta
quando eu voltar à sala
pode começar a vida
não o pesadelo de um jantar acabado
eu a levantar-me sem nada
tu agarrado ao telemóvel
e no bengaleiro
quer o casaco minha senhora?
já sou minha senhora e tu
a travar o passo
vais responder a isso,
eu sei,
nada a declarar
nem um anel
nem saturno
nem a lua
nem ao menos o teu corpo
ao meu lado
antes tivesse pintado
os lábios de vermelho

trinta e cinco
restauro no espelho americano
a últma hora de vida
tens jeito para mudar fraldas
mas eu movo a cadeira do bebé
não queremos que acorde
janto com uma só
mão
a patrícia já vai na terceira lista de compras e acabou de entrar
no domínio do low cost
tu e o miguel de costas
o jogo é importante, elas
estão bem, deixa
deixa
deixo
deixamos as duas
se ao menos a patrícia se calasse
entrava em mim de
olhos fechados
o bebé a dormir
o vinho é bom
e uma mão
sempre
chegou

punheteiro

patrícia, vou ao wc
olhas pelo bebé?

quarenta e cinco
este poema está a ficar
demasiado contemporâneo
entrámos no domínio criativo
dos génios de escola
faço descontos ao espelho
ainda sou capaz de tapar
o tempo
que idade tinha
Clitmnestra,
de Coéfaras?
E a Ofélia, de Hamlet?
E a mulher de Bath?
E a Hester Prynne?
E a Blimunda?
Desenho com o dedo os contornos
do meu rosto
quando entrar na sala
ele observará o movimento
dos quadris
a malícia do sorriso
escreverá a didascália
no guardanapo de pano
(ele tomou-lhe a mão e saíram
com urgência)

cinquenta e cinco
só por convencimento artificial e soezes
redundâncias
posso consentir o meu aspecto
e à luz dos trinta e tal
o meu é o desespero de todas
as mulheres
vou atravessar a sala fingindo
a melhor versão do meu engano
usarei a táctica humorística
da auto-depreciação
e fingirei a menina
e lembrarei
o ridículo sonho de
que às vezes esqueço
o ridículo e sou mesmo
menina


sessenta e cinco
entreguei o cadáver
voltei a mim
majestosa e material
corpórea palpável sensível tangível visível
ergo-me na estampa dos dias
subtil, marginal,
não sou o centro de nada
não sou o centro de tudo
mulher de porte
de sorte
defino os contornos
o perfume
o vestido
a écharpe
a estola, sou
 
intemporal


setenta e cinco
vou absoluta
se ele voltasse
entraria pelo espelho americano
com a mão grossa e bonita
nos meus cabelos
as testas encostadas
se o amor cresce
até um fim

já é mais alto do que nós
mas na cruz fria da campa
tem o tempero certo
a massa exacta
o calibre
devido

quando saio ao encontro dele
ainda pinto os meus lábios
de vermelho


PG-M 2015
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