2015-02-02

Abigail, Abigail, Abigail




Somos todos Abigail.
Esta é a moda dos nossos dias desde os atentados ao jornal satírico Charlie Hebdo. Je suis Charlie. Somos tudo todos e somos todos tudo?
Da forma como ouço o nome Abigail, com sotaque britânico e como mote de um poema de Keats dito por Ben Wishaw,

"Bright star, would I were steadfast as thou art"

podemos, realmente, ser todos Abigail.
Mas, neste caso, sermos todos Abigail retiraria mérito à própria Abigail que origina esta crónica e pode retirar mérito a todas as outras que o merecem. Abigail beneficia de um conjunto de factores que a tornaram singular: estar doente ao tempo em que a conheci - e isso significar empenho, coragem (em vez da cama, escolheu resistir), ser alta, ter um nome singular e bem escolhido pelos pais e exalar literatura por todos os poros: foi, pois, todo um universo que me compareceu por diante.

O lugar foi uma escola, a Diogo de Macedo, onde, em tempos, eu trocava livros dentro de um autocarro: fica-me a memória da escultura do adeus, com que termino este, no post scriptum "Da intimidade".

Ao lado dela estavam a Cíntia e a Maria Beatriz, todas a apresentar o "Livro sem Ninguém". São todas Abigail. A dedicação e o trabalho tidos em volta do livro foram tais que a sessão colectiva da manhã de 2 de Fevereiro de 2015 é só o primeiro de muitos actos: ficou quase tudo por mostrar. E eu tenho de ver, tenho de ouvir a sequela. Todas as sequelas. Por isso vos condeno, Abigails, a replicar a vossa sabedoria pelos meses, pelos anos.

O que se passa com a beleza das mulheres? Já não há, verdadeiramente, mulheres feias, ou, quando desaceleramos o tempo voraz, ficamos mais parados do que antes e reparamos e, reparando, a beleza torna-se a única resposta? Será a beleza apenas a matéria e, quando há matéria, conteúdo, não ser possível a fealdade? Somos todos Abigail?

Oh, Abigail, Abigail,
Thou shall never lose our
Trail
começa o Ben Wishaw com palavras que me apareceram aqui, no colo, as palavras como elas me soaram, assim, possuído de Keats.
O que se passa com a beleza das mulheres?
A professora Rosário tem os olhos e o sorriso claros; os olhos podiam ser escuros, o sorriso nunca será. Apresenta-me à entrada, logo à entrada, a professora, Sandra, loira, bonita, e, ao cimo das escadas, já dentro da biblioteca, a professora Maria José, loira, bonita, olhos claros. Os olhos podiam ser escuros, o sorriso era ainda mais definido - leitora crítica d'A Manhã do Mundo. Alta definição, estado crítico - matéria, profundidade: quando é assim, a beleza está sempre? A Celeste, entre livros, era bonita - não sei se era loira ou ruiva. A Célia era ruiva, pelo menos apresenta-se assim: temos um pacto de flores, não de beleza (não desconversem, a beleza está no pacto). A professora Antonieta deixou-me o livro pelo filho. A mãe da Inês é professora primária e a mais entusiasta leitora do Livro sem Niguém - não estava: que pena, eu teria despachado no sentido de a dispensar nesta manhã. Um despacho apolítico, cheio de matéria: quando é assim, sim, a beleza está sempre. A menina que comprou um livro da Manhã e se esconde, onde está ela? Onde estás, qualquercoisa Sofia?
Têm todas olhos verdes, garanto, mesmo as que não têm.
Todas as mulheres da Escola Diogo de Macedo têm olhos verdes.
E vocês, Daniel e Emanuel e Tiago, não querem que fale da outra beleza, pois não? Os homens preferem que lhes digam outras coisas, são básicos e mentirosos na verdade estrita, não é? Somos. Levo-vos a Caixa com mulher dentro ou a Gaveta. A comunicação fica mais limpa.

Todas as professoras, sem excepção, toda a Escola Diogo de Macedo, merecem o elogio público: o empenhamento em tempos turvos e desmotivantes, tempos estruturalistas em que nos abstemos de ler as síncopes nos factos, é digno de admiração. Mas está na altura de começar esta ode, porque ainda nada começou e eu ouço Abigail da boca do Ben Wishaw dentro da minha cabeça.
Elas, as três meninas que se levantaram para apresentar o Livro sem ninguém e tinham tudo planeado e que nem a gripe: a própria Abigail, que em português tem acento tónico - mas não gráfico - no segundo i, a Cíntia e a Maria Beatriz, que, literata que é, se debateu com o livro até à exaustão, são todas Abigail, no sentido do que se destaca pela matéria, não apenas pela forma. 
Não houve alguém que disse que, quando assim é, a beleza está sempre?
O que se passa com a beleza das mulheres?
O filme chega ao fim e aparece a voz do Ben Wishaw a dizer-me.
(oh, quanta honra, possuído que estou de Keats por causa deste nome, Abigail, Abigail, e surgem os versos, que são, verdadeiramente, o anverso de tudo, e vos dirão a todos pelos tempos:)


Oh, Abigail, Abigail,
Thou shall never lose our trail

We inhabit in each blink
We are fully what you think

Will you form us as you sail,
Abigail?

Lose the rhymes
Change the skins
Move the hearts
Come inside
We are all

Always were

Abigail,

Abigail,
Abigail



PG-M 2015
Da intimidade: Fonte da Foto da obra de Diogo de Macedo, "L'Adieu ou le pardon", que, segundo Afonso Ramos, "sugere a intimidade mais pessoal e intransmissível" precisamente a que eu tento trazer para dentro da literatura enquando estou vivo, entre mim e os meus contemporâneos, já que só valerei mais tempo morto: resta saber se esquecido, como todos, o que está bem, ou lembrado, o que estará melhor, mas não é necessário;

restantes fotografias de Rosário Meireles

2 comentários:

Abigail Macedo disse...

Ui!! Gostei muito de ver o meu assim, sublimado com tanta paixão (mesmo não sendo eu a musa deste escrito). Obrigada!!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

somos todos Abigail, Abigail :) - obrigado!