2015-02-23

A primeira noite de óscares


Eu explico-vos: a ideia não é ser um mimalhinho com soninho e doses industriais de desconhecimento - ou excesso de conhecimento -  cinéfilo. Já não estão cansadinhos dos posts onanistas em que assumem que todo o mundinho está à esperinha do que vocês vão escrever no facebook, no twitter, no instagram ou no tinder (era bem aplicadinho) coisas como "que tédio", "que chato", "o apresentador está apagado". Mimalhinhos: se querem mesmo cascar na Academia e nos mais de mil milhões de comparsas da noite, escrevam uma coisita devidamente fundamentadazita e bem humorada. Remeto minuta: a última noite de óscares. Entretanto, morreu o Final Cut, o site de cinema da Visão, mas ao menos não tivemos de aturar o Alvim.


Os mimalhos como vocês e eu são o exemplo da esperança: todos os anos voltam.
 
E agora comecemos tudo de novo. Depois da última, a primeira. Esta, a 87ª, de 2015, que se refere aos filmes estreados em Los Angeles até ao dia 31 de Dezembro de 2014. Para o vosso escriba, foi o 30º directo de enfiada. Consagro a noite de óscares de 2009 como a melhor das trinta (noite retro, substancial, os consagrados a apresentar os candidatos um a um, olhos nos olhos); e a que me faz mais saudades é uma em que não vi, só ouvi, na TSF, finais dos anos oitenta do século XX, era esta rádio um bebé. Piores as da TVE e as da RTP. Bons dezasseis anos de TVI, em que os comentadores começaram a calar-se. Melhor cobertura de sempre foi a deste ano, da Sic: apesar dos comentadores da Sic Caras, que desafiam a sanidade de qualquer santo, ou a santidade de qualquer sano, a Sic fez o que nenhum canal antes fez: recuperou grandes momentos e comprou quase toda a temporada de prémios (os Bafta foram uma grande surpresa, a não perder no futuro).
Neil Patrick Harris é um amigo de café com doses adequadas de humor. Talvez não se compare ao Ricardo Araújo Pereira. É melhor. É mais popular. Talvez menos culto. Ri-se de si próprio e não usa a auto-depreciação como técnica humorística. Começamos bem.

Todos desejávamos, estou certo, um misto de arranque entre o melhor do Billy Crystal e a clássica cantoria. Foi o que tivemos. Tema? Os mimalhinhos que criticam tudo e todos. "Moving pictures". Tecnologia (hologramas em palco) e beleza. Humor. Anna Kendrick subtil e engraçada. Jack Black a representar os mimalhões revoltados do frívolo e da cultura de espelho, ecrã e selfies. Arranque bom. O apresentador, para quem conseguia estar atento e perceber algumas private jokes (para isso, é preciso estar "dentro" da cultura artística americana), lançou tiradas de qualidade em todas as pontes para os apresentadores. Vítimas da noite: Ben Affleck ("Sabem como é que o Travolta chama pelo Ben Affleck? Benedict Cumberbatch!")  e Bob Duvall ("vá, acordem o Robert Duvall!").

Ponto negativo: faltou rasgo aos apresentadores das categorias. Praticamente ninguém saiu do guião. Grande desilusão o Eddie Murphy plastificado e sem um único sorriso ou tirada criativa. Ao menos que lhe tivessem escrito uma. É violação directa da nostalgia da geração que o consagrou.


Momento alto, para quem esteve atento: Rosamund Pike, ainda na passadeira vermelha: "I feel alone." Isto vale para a única nomeação do excelente filme "Gone Girl", mas também para o que acontece a um filme com lobby fraco. Já escrevi testamentos sobre a Rosamund Pike, uma das minhas actrizes favoritas. Fez o papel da sua vida neste filme. Só podia ter ganho. É verdade que nunca me opus a prémios de consagração, mas a Julianne Moore sacaria ainda, certamente, um papel ainda melhor do que este "Still Alice", que leva um "bom pequeno", para a merecida consagração. Assim, a unanimidade de que era o ano de Julianne estragou a coroação. Rosamund já não deve saber o que fazer. Mudar de promotor, de agente? "I feel alone". Coisa corajosa de se dizer perante todo aquele brilho. Mas vá lá: nada que se aproxime do escândalo do ano passado, quando foi consagrada a miúda Jenniffer Lawrence, que é só razoável, e criminosamente esquecido um papel que ficará na história do cinema. O da belíssima francesa Emmanuele Riva, de 88 (!) anos, em "Amour". Ah, pois não. Não perdoo.

Nota da distinção e educação britânica: os londrinos Rosamund Pike e Eddie Redmayne pediram aos americanos desculpa por terem trazido a chuva para Los Angeles.

Sabiam que Meryl Streep tem uma licenciatura em Design de Moda? É verdade. Por mim, deixava-a de fora uns anitos para não cansar, para não estragar a sua marca notável na história do cinema.

Mimalhinhos, deixem-me lá eleger as mais elegantes: Scarlett Johansson, de verde, acabada de ser mãe; Lupita, com milhares de pérolas; e a minha Marion Cotillard.

Diz que a única diva do cinema moderno é essa estrondosa Cate Blanchett. Eu não gostei tanto assim, mas que é um traço, é.

Laura Dern rejuvenesceu com a nomeação: menina dos nossos sonhos, que andava apagada e a desaparecer em papéis secundaríssimos, reapareceu com o "buzz" em torno do pai o ano passado, e agora esteve lá por direito próprio (mãe de Reese Witherspoon, em "Wild").

O permanentemente apaixonado Ethan Hawke deixou o clube dos poetas mortos no ano em que morreu o seu capitão, Robin Williams: está marcado pelos anos, mas representa bem aquele espírito de tropa de toda a equipa de Boyhood, derrotado da noite, mas já marcante na história do cinema. Eu era pela vitória no óscar do melhor filme: mesmo adepto confesso do Birdman, daria a consagração ao Boyhood. Creio que o realizador Linklater e toda a sua equipa mereciam a consagração pela contenção que, no meu entender, caracteriza a maior arte. Podiam ter feito um filme feérico e profundamente dramático, mas escolheram algo morno, como a vida, como a rotina. Grande risco e esta derrota. Alguém viu o notável e curtíssimo discurso do símbolo deste filme, o miúdo Ellar Coltrane, e a forma como ele explanou os conceitos - que eu nunca vira expostos a este nível - de vulnerabilidade e colaboração. Não percam o discurso dos Bafta aqui. "Life itself without anything explosive or tragic": isto convenceu-me de que o Linklater, ao não ter rasgo, drama, tinha arriscado tudo e merecia esse reconhecimento. Mas Arquette, bonita e vigorosa, rápida, a reclamar os direitos das mulheres que a sua personagem no filme vê denegados por alguns anos, colando-se à mulher que representa em Boyhood: não era a melhor actriz secundária, mas foi a compensação - pelo corpo dela Boyhood levou o ouro.

Parca justiça para Intersetellar, ao vencer apenas nos efeitos especiais.

Mais do que Foxcatcher, um filme mais denso e relevante do que a maioria dos oito: zero.
Empate no número de óscares entre Grand Budapest Hotel e Birdman, nas categorias principais para este último. Merecido o argumento original, a realização. Já não gostei tanto de Whiplash ter perdido no adaptado, mas o discurso do argumentista de Jogo de Imitação, o miúdo Graham Moore, confessando a tentativa de suicídio aos 16 e dando coragem a todos os "weird", em nome de Alan Turing, valeu parte da noite.
O outro discurso que deu nas vistas foi o dos oscarizados pela melhor música, Glory (do desprezado Selma), conhecidos por John Legend (estava John Stephen) e Common. Houve um silêncio "branco" na sala quando Legend lembrou que há mais negros presos hoje do que havia escravos nos EUA em 1850. Este foi o momento de Selma: este ano teve esse mérito, de nos ter oferecido uma espécie de curtas metragens de mini-consagrações. A fulgurante investidora Oprah e a comoção do rapaz que teve a ideia inicial e combateu duro para tornar este filme realidade: o britânico de Oxford, David Oyelowo, protagonista de Selma e novo Martin Luther King, não nomeado. Contraste de lágrima com as da ruiva e branca Jessica Chastain . Outro "detalhe": afinal houve nomeados, e vencedores, negros.

No intervalo, o apresentador imortalizou a cena que deu o óscar de melhor fotografia a Birdman e ao artista de Gravity, Emmanuel Lubezki (7 nomeações, 2 óscares, vencendo, pois, dois anos seguidos): Michael Keaton a cruzar uma Times Square de cuecas brancas, sem figurantes e numa cena inesquecível e imersiva. Cuecas que o realizador mexicano, Alejandro González Iñárritu, confessou trazer vestidas nesta noite, para dar sorte. E deu. Ganhou três óscares (argumentista, realizador e produtor de Birdman). Neil Patrick Harris prendeu o roupão na porta do wc do Dolby Theatre, despiu-se, passou pelo baterista Miles Teller (de Whiplash, mas a tocar a banda sonora de Birdman), ordenou que parasse (gesto e frase do oscarizado melhor actor secundário, JK Simmos, em Whiplash, "Not my tempo") e apresentou assim mesmo, de cuecas. Por falar em JK Simmons, ele só chegou ao cinema, vindo do teatro, aos 40 anos. Sabem quem foi o seu mentor? Sidney Poitier. "Call your mother, call your dad, don't text, don't email, call them." A mensagem anti-statu-quo cultural do vencedor JK Simmons.

Em termos estéticos, houve um regresso aos anos setenta e ao primeiro Star Wars, no cartaz comum dos nomeados. Não pode ser por acaso. Em Dezembro deste ano estreia o Episode VII.

Milena Canonero para o guarda-roupa (Grand Budapest Hotel): 9 nomeações, 4º óscar: e estes heróis, sempre esquecidos, mesmo afogados em óscares? Fica a menção.


Ida, previsível melhor filme em língua não inglesa, é um grande filme: Pawel Pawlikowski, o realizador, comenta, no "acceptance speech": "um filme tão calmo, com nevoeiro, a preto e branco, sobre silêncio, retirada do mundo e a contemplação, e aqui estamos, confusão, barulho, cores", e dedica "to my Polish friends who are drunk watching this, to my late wife and parents, to my children who are still alive, to the resilience of Polish people...and go drink!"

In memoriam, recordo os mortos mais imortais: mickey rooney, james garner, elisabeth peña,  maya angelou, james rebhorn, anita ekberg, virna lisi, richard attenborough, ruby dee, matha hyer, robin williams, luise rainer, lauren baccal, gabo, resnais, bob hoskins.
 
E ganha o melhor actor Eddie Redmayne, o colega de escola do príncipe William: apesar da composição esforçada, o sangue só ferveu em Michael Keaton. Creio que Eddie tinha tempo, Michael veio das sombras e merecia.


Lady Gaga surpreendeu, primorosa, a cantar o clássico "The sound of music" (o filme faz 50 anos), e, no final, grande oscar moment com o abraço à própria Julie Andrews.

E concluo com as curiosíssimas previsões micronarrativas de Neil Patrick Harry e a vigilância  da Viola Davis.

Uf. Este tem conteúdo, mimalhinhos?




Até para o ano e viva o cinema. Sim, cinema. Como se dizia na abertura, vocês falam, falam, falam, mas neste cinema coroado no centro do mundo também há momentos inesquecíveis e sonhos.

PS sobe o POST 1.000:
"one day, when the glory comes, it will be ours". Este milésimo post do blogue Ignorância é dedicado à Margot Robbie, a minha estagiária para óscar. Lembro das que formei no meu Estúdio de actores com cê, desde 1985: Halle Berry, Charlize Theron e Marion Cotillard.

PG-M 2015

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