2014-03-11

Livro sem ninguém - Apresentações de 13 (Ovar) e 15 de Março (Gaia) - e as já decorridas

Aqui vão os cartazes das apresentações de

13 de Março, Museu de Ovar, 21:30h, por Afonso Cruz



15 de Março, Fnac Gaiashopping, 18h, por Luís Miguel Rocha e Miguel Miranda, com Maria Rosário Pedreira e Clarice Lispector (por Catarina Lacerda):


Já decorridas:

2 de Março: Leiria, por Gil Vicente


 1 de Março: Évora, por Maria José Lascas
 
27 de Fevereiro: Guimarães, destacou-se a Beatriz

2014-03-04

Entrevista à Smooth Fm sobre livros

Para ouvir, clique sobre a foto, pf
http://www.smoothfm.iol.pt/player/flash_player.html?t=audio&id=59881

A última noite de óscares


Está bem, está bem, Academia. Não é preciso esfregar-nos na cara com requintes de malvadez. Eu, pelo menos, já percebi. A noite de 2013 já tinha sido, televisivamente, a pior de sempre - sendo que o meu "sempre" começa em 1985, quando as comecei a ver todas em directo, para só parar em 2015, quando "celebraria" 30 anos, e é razoável presumir que as anteriores a 1985 não terão batido em sofisticação e glamour as posteriores -, mas a de 2014 bateu todas os recordes de gosto duvidoso, quer no cenário, quer no alinhamento de bocejo, quer nas escolhas, com a honrosa excepção da inevitável consagração de "Gravity", aliás merecida, à face da fraca concorrência. Um dos pontos bons, óptimos, da noite foi Ejiofor ter perdido (como podem instir nesta consagração de actores medianos - já não basta a menina Jennifer Lawrence?) e "12 anos escravo" ter ridicularizado a própria Academia com o óscar de melhor filme, quando a Academia lhe negara tudo ou quase tudo (Lupita é um caso à parte, não se venha o filme gabar disso:) durante a noite.
E depois Frozen, e o lobby Disney, ao arrebatarem o óscar da melhor música com a pior música (não é possível!) e a melhor longa metragem de animação ("The Wind Rises", obra-prima absoluta e supostamente a última de Myazaki, não podia ter perdido para..."Frozen", porque vê assim boicotadas todas as hipóteses de estrear nas salas de cinema portuguesas). De resto, Ellen, nem superior nem inferior ao que faz no seu programa, colocou as coisas in situ quando nos mostrou que os óscares já não são bem sobre televisão, mas sobre tudo o resto, ao bater o record de tuitadas com uma boa ideia: a selfie da década. E é isto. Os óscares estão a apoucar-se a si próprios, a desprezar o directo peçonhento que hoje são, e o conteúdo que veiculam na célebre madrugada é tão escasso que o compacto do dia seguinte dura cada vez menos. Foi ainda doloroso ver Kim Novak congelada em todos os cantos menos na boquita. Bom, bom, foi ter sido um dos convidados "especiais" (boa, Ana Margarida) do Final Cut, o abnegado site de cinema da Visão e do JL, onde o Fernando Alvim passou a noite a dormir e a rematar todas as cenas com "estou a chorar" e o próprio intervalo da TVI ganhou autonomia e adeptos, nomeadamente repetindo até à exaustão imagens da, para mim, vencedora da noite, a Margot Robbie, que nem candidata era (mas já ganhou, e todos ganhamos com ela). A Cate Blanchett pode ser fria, cirúrgica, mas é finalmente o óscar de melhor actriz. O Matthew McConaughey tem a melhor música torácica do ano, mas noutro filme. Sempre foi um actor competente: está quase bem entregue. O Bruce Dern é que era. A própria passadeira vermelha tem estado aborrecida e formatada para as promoções e para os comentários sobre vestidos em todas as televisões do mundo. E até me podem dizer que isto era previsível, e era, e que óscares não são cinema, e não são, mas, pelo menos durante estes vinte e nove anos de directos, a Academia sempre soube disfarçar. A melhor destas vinte e nove noites nem aconteceu há tanto tempo assim, foi uma há quatro ou cinco anos, estilo retro, belíssima. Com as duas últimas, a terrível decisão ficou tomada: a partir de 2015 deixarei de ver em directo. Deito-me cedo, levanto-me pelas quatro e uso o milagroso timewarp para poder saltar toda a mediocridade. Os tempos mudaram. Esta foi a minha última noite má de óscares. Agora, como a própria Academia sugere, farei os meus próprios conteúdos.

PG-M 2014

2014-03-03

Viagem por dois livros e por duas ruas (por Rosário Ferreira)

Professora Rosário Ferreira sobre "A manhã do mundo" e o "Livro sem ninguém", apresentando a sessão de 27-02-2014 à Escola Francisco de Holanda, em Gumarães:


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Nunca estive em NY mas já fui muitas vezes a NY, … não isto tem som de repetido e, para isso basta o “Sino da minha aldeia”.
Recomeçando: continuo sem nunca ter ido a NY a não ser nas viagens que lá fiz com os atores das minhas séries favoritas (pronto! Confesso que também já la fui com a Tyra Banks e o America’s Next Top Model – é verdade. AH! E com o masterchef Austrália na terceira edição!)) com a música de Sinatra e com o livro do Pedro Guilherme-Moreira (com hífen!). E esta semana regressei lá pela mão de PGM: e encontrei outro livro, outra história, outra magia. Não sei porquê, mas quando reli, logo nas páginas iniciais a descrição do The Falling Man, pareceu-me vislumbrar um vulto numa cabine telefónica que, apressadamente mudava de roupa para o apanhar na sua queda vertiginosa. Depois, quando Thea tentava escalar os corpos amontoados nas janelas, pensei que um gorila gigante apareceria no topo das torres gémeas para salvar a sua Ann Darrow…. E estes “loucos suicidas”, como tão facilmente Ayda lhes chamou, transformavam-se em seres frágeis a serem resgatados por heróis incompreendidos. (Saltei páginas, porque já conheço a história, sei que os bons não aparecem, não há finais felizes, e tenho medo que surja voando, qual “Mostrengo que está no fim do mar”, nesta imaginação traiçoeira, uma Alice em forma de Lex Luther ou que a Teresa se metamorfoseie em Jack Black).
Não resisti a reler o número dois: a ironia – ou não- do destino – ou da sorte – de um homem que não ousa contrariar a mulher, que se levanta quando o instinto – ou a preguiça, ou o sono – lhe segredavam que ficasse na cama – mas que ousa contrariar o destino - ou a preguiça, ou o sono – porque se demorou nuns olhos verdes. (Acho que foi aqui que me lembrei do Master Chef).
Foi então que reencontrei a minha personagem favorita – Millard, que, tal como eu prefere as alamedas às avenidas - e com ela regressei à casa de chá com papel de parede bordado com beija flores.
E Alice, a tímida – ou não – secretária que, não fosse o humor negro de Deus, não deveria estar ali, na torre norte do WTC, mas na sua pequena cidade natal.
Redescobri Solomon, não o rei mas o advogado, a alcançar a janela do seu escritório no 106º andar, que teimou em não fazer um check-up, em continuar a conduzir o seu Cadillac por Brooklin Bridge e completou o seu ciclo iniciático nesse dia em que fazia sete anos que se reformara. “Ao contrário de muitas das histórias do 11 de setembro (…) a [história] de Solomon era límpida e sem espaços para lamentos, descontando o sinal vermelho.”
Voltei a página, e lá estava Thea outra vez, aquela bela rapariga de “olhos verdes” (qual Joaninha de Garrett, também ela destinada à desgraça) que vai “partilhar com Millard os piores momentos desta fatídica manhã”, ambos se sentem sufocar – pelo fumo e pela vida – e ambos resistem a afundarem-se no desespero. Thea apercebe-se de que mesmo que as suas “conversas tenham sido mais pensamentos do que diálogos (…), apenas o símbolo da resistência, da vontade e até da coragem”, houve muito mais do que solilóquios entre esta repórter gastronómica e este conciérge obcecado por um beija-flor.
Depois, bem, depois, já o disse e redigo-o pois acho que não há outra maneira de o dizer, depois virei a página e já era “o dia que Ayda pensava ser 12 de setembro de 2001”. E das páginas do livro soltaram-se notas, compassos, pautas inteiras que teimavam em calar os gritos de dor e os espasmos de raiva: acordei com Lopes Graça; ouvi o coro dos escravos de Verdi, o Pedro e o Lobo de Prokoviev… e depois um interlúdio de Taikovsky quando Romeu e Julieta (entenda-se Darius e Teresa) celebram o seu amor, afinal tão tragicamente possível. Entretanto, soavam-me ao ouvido as palavras de Eugénio de Andrade: Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio.
A mão segura de Pedro ensinou-me que qualquer suicida vê “a morte desmaiada. O verdadeiro suicida conquista um destino que não lhe está naturalmente reservado”, e isso fez-me ver o suicídio como algo ainda mais cruel do que eu já o entendia.
E a morte estava ali: “no azul do céu, bela.” Sem “foices ou vestidos negros”, apenas “um horizonte que encurta”.
E foi aqui que precisei de voltar atrás no livro, regressar ao apartamento de Daruis e sentir, de novo, aquela força revitalizada por um sol que se espraia no apartamento da River Terrace e voltar a sentir a mão de Pedro Guilherme-Moreira a dar voz à força de Ourique, de Aljubarrota, do 1º de Dezembro, do 5 de Outubro ou do 25 de Abril, que resistiu ao opressor: na imagem de Darius que resiste ao cheque de 6 dígitos para vencer a batalha do filho; nos olhos de Teresa que resiste ao adultério em prol da amizade; na força de Ayda que resiste ao destino para salvar destinos.

E, urgentemente, precisei de conhecer um outro espaço, tão diferente e tão igual a Nova Iorque.
Já tinha ouvido falar do Sítio do Pica-Pau Amarelo, da Rua Sésamo e até mesmo do Parque da Mónica, mas juro que nunca ouvira tal coisa como a rua do arco celeste. Bem, parece que:
Na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata, um infantário e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas – que frequentam o café, trabalham na horta, lêem no jardim, compram flores para oferecer a quem amam, se desembaraçam dos seus podres ou jogam à bola no recreio –, (…) durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, consiga uma vida nova. Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos.
Antes mesmo de ler a obra, li esta sinopse e, quase de imediato – não sei se por andar às voltas com a Mensagem ou se é mesmo a minha paranoia pela simbologia – o número sete começou a elevar-se das entrelinhas: 7 casas, sete espaços comuns, sete atividades, sete acontecimentos (porque considerei o trauma como um acontecimento). E depois, apareceram cinco nomes que retratam esta rua do arco-íris.
Sete e cinco: círculo perfeito, sacrifício,… Isto promete!!!!
(esta parte foi escrita no dia 11 de fevereiro, quando ainda o livro não tinha sido publicado e já a minha curiosidade pulava freneticamente)
Dia 24 de fevereiro
Finalmente tenho comigo o livro. Abro- o, leio a dedicatória, oiço Caetano Veloso, atento no mapa (sempre gostei de mapas, fazem-me lembrar os livros da Enid Blyton), leio o prólogo. Novembro chegou.
Estou eu sossegada na minha leitura quando o narrador ma interrompe: “Um momento. Não era melhor apontar isto?(…) só assim, tomando notas, se poderá ter cá alguém, que o livro é de ninguém”. E subitamente, nos papeis que estão no meu pensamento, a rua do arco celeste transformou-se na rua vila flor. E o livro sem ninguém povoou-se das pessoas da minha infância que habitavam a rua da minha infância.
A rua chamava-se assim por causa de um palácio pertença da família Jordão que, à época, ainda não sabia que viria a ser centro cultural.
Na rua vila flor também havia um café: o Danúbio (quer dizer, não era bem lá, era em frente, a morada oficial era Av. D. Afonso Henriques, mas nós tínhamo-lo tomada de assalto e agora era nosso). Era lá que a muidagem e a “graúdagem” se juntavam para ver televisão, no tempo em que esta era muito mais rara do que um ipad, um iphone 5 ou até mesmo uma 4L cor-de-rosa.
Na rua vila flor não havia um jardim. Mas havia-o no palácio Vila flor, que comunicava com a rua por ruelas secretas que foram, nos tempos quentes de 75, a saída salvadora daqueles que por lá haviam brincado e que naquele dia tinham sido feitos prisioneiros num comício por terem cometido o crime de participarem num comício que não era das forças democráticas.
Na rua vila flor as casas não tinham as cores do arco-íris, mas as nossas brincadeiras, as nossas corridas de carrinhos de rolamentos, os nossos “esconde-esconde”, as nossas peças de teatro no sótão dos meus pais, davam-nos mais felicidade que um pote de ouro.
Na rua vila flor as casas era quase todas brancas, mas a mistura de gentes, de culturas, de partilha de bens e de sorrisos, fazia-nos mais diversos do que as cores do arco-íris.
Na rua vila flor não havia escola. Mas havia uma tipografia – a tipografia Maia – onde eu aprendi a mexer em letras, a formas palavras sem o saber, muito antes da D. Inês mo ter ensinado.
Na rua vila flor não havia uma horta, mas havia o quintal da D. Primavera, com laranjeiras perfumadas que nós teimávamos em transformar em alvos preferenciais das nossas fisgas, mesmo que, depois a boa senhora no-las oferecesse quando nos chamava da sua janela.
Na rua vila flor também havia quem amasse (e quem odiasse), quem se desembaraçasse dos seus podres e quem não conseguisse fazê-lo, quem jogasse à bola, não no recreio mas ao fundo, junto ao rio de Couros. Mas não. Chega! vou voltar ao livro que as memórias são infindas e o tempo está a esgotar-se
E depois disto, voltei ao livro. Ainda não o acabei. Vou em janeiro. Prometo que em outubro darei notícias.

AH! Espero que já tenha aprendido a fazer contas de dividir!
É que, para quem não esteve cá no ano passado, este senhor aqui sentado ao meu lado, teve um problema a resolver com as frações. Este senhor, que advoga, escreve e estaciona carros nos poveiros, também foi em tempos, uma criança dada mais às letras do que aos números. Vai daí, quando finalmente a professora D. Laura conseguiu ensiná-lo a dividir, o Pedrinho presenteou-a com uma bela redação! Foi o princípio de uma perfeita relação, nem sempre calma como convém em qualquer relação, com os papéis: hoje conta já com um palmarés digno de atenção, a saber:
Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. Profissionalmente, foi dos primeiros advogados a ganhar o Prémio Lopes Cardoso, com um artigo publicado, primeiro, na prestigiada Revista da Ordem dos Advogados e, depois, em livro. Decidiu publicar apenas aos 40, porque queria saber, e escrever, mais. Em 2012 foi agraciado com o prémio de poesia do Museu Nacional da Imprensa. A Manhã do Mundo aparece a meio do seu «dia», sendo o seu primeiro romance.
(isto fui copiar à net. Vantagens das novas tecnologias!
Pedro Guilherme Moreira podia não saber fazer contas de dividir, mas soube multiplicar o seu dom de contar a História com sabor a história, de somar os factos da História à brisa da ficção, de subtrair os olhares uniformes deste facto, fracionando-os em vários avos de diferentes olhares.

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