2014-02-24

Uma "Manhã..." macedónia

Saiu no final de Dezembro de 2013 no país do grande Alexandre, o país sem mar onde foi quase impossível traduzir o "Paredão" (nome do café onde foi escrito "A manhã do mundo"). A tradutora foi a académica e poetisa Nataša Sardžovsk. Aqui está:

2014-02-01

O Salinger nunca me deu tesão

 
Eles vão dizer, mal descubram quem escreveu um título absurdo como este, que eu sou uma escritora americana menor. Reparem: não uma menor escritora como a própria Joyce ao tempo que o JD a viu ser parida pela imprensa e não conteve as erecções - tema do dia - sucessivas que o artigo lhe provocou, a Joyce estava bem na fotografia e varreu a América, ainda hoje é uma mulher atraente mas quem varre a América - o mundo, aliás - é o JD e está morto. Ou não. Eu serei apenas uma escritora menor, aparecerei numa coluna do New York Times como titular de um ódio de estimação pelo gigante. Que sou conterrânea de morte, que terei vendido um milhar de exemplares do segundo livro na mesma editora do mito, que fora já caridade, certamente proporcionada por alguns amigos da cena literária décadas atrás, por eu ter um palimnho de cara, que caí para umas centenas no terceiro, e do quarto já ninguém falou. Que sou uma pessoa não existente, que mereço o tratamento que me deram os meus pares depois desse livro falhado. E a coluna concluirá assim: "Já nem as saias mínimas que passou a levar aos lançamentos de livros dos seus pares nos anos sessenta ou o consentimento das mãos dos escritores consagrados na sua exemplar cintura de pin-up adiantou. O tesão de Salinger passa bem sem esta senhora."

Um título para atrair todos os pérfidos, que aparecem sempre unidos, plenos de energia, e qualquer mulher que se atreva é enterrada nisto: uma puta.

Agora também estou com a mão estendida, a secar o verniz das minhas unhas afiadas, no terraço da penthouse de um hotel de praia em San Diego, eu também tenho um roupão branco aberto para o sol e mais nada além do azul do céu. E eu também tenho um marido deitado sobre uma toalha na primeira linha de água, lá longe, na praia dos albatrozes, que a esta hora está cheia e vibrante. E eu também tenho do outro lado do ecrã do computador portátil que me ferve nas coxas um escritor de dezanove anos que, provavelmente, me dá mais tesão com uma frase do que nove histórias do Salinger que podem ser tudo o que qualquer homem livre quiser, e normalmente quer. O homem livre quer odiar o sucesso e questionar o mito. Não há uma página escrita neste planeta que não tenha do recensor medíocre o tratamento dos humores, dos arrepios, das constipações. Porque do Proust se dispensam madalenas de dez páginas. Porque o Joyce não conhecia a beleza linear. Porque o Sherwood Anderson é escandalosamente etiológico, como se o país estivesse órfão de um novo modelo - e os simbolistas, esses pecadores? Porque o Saramago veio a ser uma espécie de adamastor que despegou da rocha e foi cantar grandiloquência, deixando o narrador omnisciente a falar sem parar, e que isso se pegou aos discípulos, porque o Lobo Antunes faz um mapa-múndi de cada pastelaria e não resolve o pai. E a própria voz banal do narrador do "Centeio" do Salinger pode ser dizimada. Porque os pares estão todos doentes de cosmopolitismo. Eu posso ser só isto, o meu putativo amante escreve que tenho bons genes, que sou a sessentona mais sensual de New Hampshire a passar férias na Califórnia, eu limito-me a comer uma banana, a comer não, a chupar, deixo que se desfaça na boca, gosto do sabor, não aspiro à evidência do fálico, à violência da linguagem, ligo a webcam durante us segundos, observo de fora as minhas próprias fraquezas. Estou há tanto tempo online, sou tão primitiva, tão pioneira, que sinto que a minha sexualidade já se liga por ventosas à rede. Basta uma frase que possa transportar segundos sentidos e eu incedeio. Mas o meu putativo amante-escritor de dezanove anos nunca sobre edifícios, leva-me sempre ao extremo no primeiro sentido de quase tudo. Nele basta o alinhamento das frases, as ideias que mais ninguém tem, os nossos sintagmas em fusão, como se o corpo fosse irrelevante, como se o que somos se solvesse ao mesmo tempo e no mesmo copo de água e já não fosse preciso fazer amor, porque está feito. Não digo que o Jerome David não me dê tesão. De facto, o título que dei a esta carta não é a minha verdade, mas já lá vamos. Cinjo o roupão porque passam aviões publicitários, depois penso melhor e volto a desatá-lo, deixo a púbis exposta, sorrio, tenho uma tez fixada na tentação, limpo os lábios dos restos de banana, bebo da palha o resto do batido e tiro do ecrã tudo o que sobrava, deixo a mão escorregar.

Só porque estamos a discutir o que é ou o que pode ser sublime na escrita de diálogos, ele diz-me que os grandes (o que são os grandes?) nunca deixaram de usar o "disse". "disse o homem", "disse a mãe", "disse o pescador", ou,

como o JD Salinger naquele conto maldito,

"disse a rapariga"
disse a rapariga, disse a rapariga, disse a rapariga, disse a rapariga

- Isso é bonito, Howard? (o meu miúdo chama-se Howard)
- Provavelmente não, mas o Bloom dir-te-ia que os melhores não inventam.

E, aí sim, fico para morrer de prazer. Os dedos dos pés em descontrolo, os joelhos a avançarem um para o outro, primeiro, depois a afastarem-se outra vez, a linha franca das pernas, deixo a mão chegar, as pernas fecham, atiro a cabeça para trás.

- E este desejo que surge das ideias, como é que se resolve? - perguntei eu.
- Resolve-se como tudo. A sós. - disse o Howard, acrescentando o sinal gráfico de um sorriso.
- E se um dia, num café, no fim de uma conversa em que as palavras andem livres, cheias, intensas, os nossos olhares sem sair de dentro um do outro, eu te pedisse um beijo seco, simples, um beijo que seria uma espécie de ponto final porque qualquer palavra estaria a mais, tu davas-mo? - perguntei eu.

O meu marido apareceu de mansinho por trás, fechou-me o ecrã, o meu coração saltou do eixo, teria ele lido alguma coisa?, não, não leu de certeza, está a beijar-me, a beijar-me profundamente, a puxar-me para o chão, a deitar-me sobre o peito, a dispensar o meu roupão, as unhas já estão secas, cravo-as nos ombros dele, começamos aquele cê basculante da penetração, ele senta-se e encosta-se ao muro do terraço, eu sento-me sobre ele, como os cavalos livres em supinação. Começo a sentir-me culpada por escrever um conto que não filtra o sexo e pode ser lido pelos miúdos das escolas que eu visito quase todos os meses, eu, a escritora menor de New Hampshire, mas sei o que eles vão escrever à margem, no final deste pensamento de ângulo recto. WTF? Várias vezes WTF. Não estás no movimento basculanwte da penetração, o que te deu para pensares nisto? Imediatamente antes do orgasmo, o meu marido afasta o livro do Salinger e aperta-me a mão que estava sobre ele - o livro.

O conto do peixe-banana do Jerome David Salinger sempre me atormentou. Não aceitava aquela mãe pérfida a afastar o marido da filha. Esse marido, o Seymour, eu teria amado. Bom, não sei bem se amado. Ele precisava de salvamento, não da pequena Sybil. E como eu tinha ciúmes da pequena Sybil, como eu cheguei a odiá-la como ela nunca odiou a concorrente do colo do "see more", a Sharon Lipschutz, de três anos e meio, que tinha mais liberdade no hotel à noite e podia saltar para cima do "see more" que, não só via mais, como lhe achava o nome erótico. Sharon Lipschutz. Sharon Lipschutz. Como eu quis o fato-de-banho amarelo da Sybil, como desprezei que não precisasse da parte de cima por tantos anos. A tormenta era ainda maior quando lia as críticas e recensões, perfeito, genial, JD escreve como se a realidade se desenvolvesse sempre em dois ou mais planos. E não desenvole?
O meu marido estava a fumar nu, eu ainda suspirava na cadeira articulada do lado, quando ele fez aquela pergunta retórica:
- Então agora pedes beijos a miúdos de dezanove anos?
Eu devo ter fica lívida, branca, e não me saíam palavras, provavelmente não havia.
- Não te preocupes - disse ele - A sério, não te preocupes. - Sorriu e pegou no livro do Salinger - Percebo essa curiosidade toda. E ficava muito mais preocupado se andasses desvairada com este gajo, como a outra que se perdeu aos dezoito anos e resolveu contar a história quando já estava mais morta do que ele.

A lucidez do meu marido não era uma atitude que tivesse cabimento num conto sobre uma família americana sem estrutura, um marido nunca poderia achar natural a intimidade com uma rapaz inteligente de dezanove anos. Pensei perguntar-lhe, quase orgulhosa, se ele tinha lido a resposta do miúdo, de lhe contar as virtudes do rapaz, mas era tudo, evidentemente, disparatado. Profundamente disparatado.
Por isso menti e disse aquilo, e disse-o da forma mais americana que consegui:

- O Salinger nunca me deu tesão.

Ele sorriu, tirou mais uma passa e serviu-se do bourbon.

PG-M 2014