2014-01-31

Da luz da Avelar Brotero às asas do Pessoa


1884.
1884 é da minha vida porque é o ano de nascimento deste meu bisavô.
1884 é da minha vida porque é a data de fundação e o nome do livro com que dezenas de alunos me comoveram na Xico d'Holanda.
1884 é o ano de fundação do Estabelecimento Prisional de Coimbra, onde hoje estive eu e agora está outro Pessoa, que já teria chegado a este parágrafo montado em números cabalísticos.
1884 é da minha vida porque também é a data da fundação da Escola Secundária de Avelar Brotero, em Coimbra - Félix de Avelar Brotero, o grande botânico português cuja primeira publicação, em 1793, é o curioso "Princípios de Agricultura Filosófica" -,  escola onde, no dia 30 de Janeiro do ano da graça de 2014, recebi a luz coada pelas vidraças da bilblioteca e pelo sorriso e empenho das professoras Carla e Isabel e pelo entusiasmo controlado, mas eficiente, de duas corajosas turmas.

À chegada tinha a Ucrânia, a Rússia e o Uzbeqistão corporizados por três belas meninas chamadas, respectivamente, Oleksandra, Ksenia e Sasha (Shahrobonu), que, tendo Portugal como casa, estão a tentar reforçar o seu português. Eu é que aprendi. Aprendi que o agá, em uzbeque, se lê como em hebraico, com o céu da boca, e mostrei a capa d'"A manhã do mundo" em Macedónio, pelo menos para que todas pudessem reconhecer o seu alfabeto, o cirílico, porque o meu nome, Педро Гиљерме-Мореира, escreve-se da mesma forma em todos os lados do cirílico.
Nesta altura já a responsabilidade da luz deixara de ser apenas das vidraças para se virar para as pessoas. Foram as primeiras três dedicatórias.
Havia uma exposição muito bonita sobre "A manhã do mundo" - excertos em fotografias, alguns pedaços de prosa de que me esquecera. Um sobre a beleza da morte, a morte azul. Vieram as turmas e a Rafaela começou por aí. Eu não me poupei aos detalhes e aos passos que me levaram lá. Voltei a entrar nas torres imortais. O Bruno, coitado, tinha a cabeça tapada pelo projector, com o Ângelo voltámos à morte azul, a Joana leu a primeira parte da senda que leva Teresa a quase descobrir o corpo em queda, a Ana falou do momento da morte dos saltadores, o André trouxe-me de volta o meu amigo o Solomon.
Nessa altura perguntei o nome à Margarida. Margarida, ela disse. A ideia era explicar aqui que há sempre um centro, uma cara a receber a maior parte das nossas resposta no público, e ela teve hoje esse papel, o centro do público para o qual eu falava. Minutos depois percebi que talvez houvesse um fundamento: a Meggy fora o 1º prémo do concurso de leitura. O André, que me trouxera o Solomon e tinha um ar-de-deixa-me-estar-quieto-no-meu-canto, foi o 2º, a Telma o 3º. Ainda vieram a inês, a Rita - com a segunda parte da "Criação e Adão" -  e um André-espantado com a expressão mais deliciosa da plateia. A inês era vibrante e fez-nos sorrir várias vezes, porque, sentindo a sessão a esvair-se, saltava na cadeira para que percebêssemos que não se ia dali sem dizer ao que viera. E não foi, e disse, e fez aliás parte da turma que ficou para lá da ordem do dia, e eu deixei a mesa e fui-me sentar no meio deles.

A Micaela - o caso especial. O tipo de caso que eu não perderia por nada, que eu temo tantas vezes poder ficar nas cordas, não dar o passo em frente por timidez, por pudor, por sentir que não pertence ou não tem lugar. O livro marcado de forma meticulosa, o livro lido, passagens que marcaram, despedidas. A primeira que a Micaela leu - a da mãe que se despede do filho pequenino - pareceu comovê-la particularmente, mas tudo na Micaela, o mapa gestual, o sorriso humilde, a candura, essa vergonha bonita de se expôr, gritava leitora exemplar. Escritora exemplar. Por baixo d'"A manhã do mundo" tinha (posso dizer, Micaela?) "O Boneco de Neve", de Jo Nesbo, que algumas vezes nos serviu de refúgio durante a conversa.

E no ar aquele perturbante sentido do "Dream on girl" para o drama de Alice no livro.

Vem o almoço nas mesas corridas da escola, bacalhau à gomes de sá, o café e é hora de, tantos anos depois, eu passar para dentro dos mais altos muros da prisão de Coimbra, muros que rondei durante anos enquanto cursava direito, da dias da silva para baixo, da universidade para cima, pelo jardim da sereia ou por outro lado qualquer, ainda mandei encadernar muitos livros na cadeia, mas isso acabou. O EP de Coimbra é imponente, arquitectonicamente belíssimo, a biblioteca difícil de explicar, porque é sumptuosa, algo que não se espera ali. Como esse poeta Mário Pessoa, que estava sempre a voar dali para fora, fosse das páginas d'"A manhã do mundo", fosse do seu próprio peito. Ele leu o meu "Dominó", que a Isabel trouxe e eu lhe ofereci, eu abri a absoluta excepção das leituras públicas para ler - quase me obrigava a cantar - o "convento do vitral" dele, que ele me ofereceu e eu tenho aqui entre as páginas de um projecto de poesia que me impressinou profundamente pela qualidade: o Zé Eduardo vem de fora, da liberdade, como nós, para lhes dar ferramentas para construir poemas, e conseguiu chegar a um compromisso estratosférico. Não vale a pena fazer revistas, eles, pela mão do Zé Eduardo, saem dali. Maravilhoso. E fica o sorriso desarmante do Lelo, cigano bonito, do riquíssimo Pessoa, do incisivo Roberto, do doce Bruno, do Silva, do Oliveira, do Nogueira - somos quase um pomar -, do Marques e de tantos que estão sempre desassombrados e de coração aberto: nunca há mentira numa conversa sobre literatura de atrás de grades. Há uma dignidade inquebrantável para lá dos ferros, uma sensação de verticalidade, não de engano, que nos inunda. É quase irónico que cá fora se sinta mais volatilidade do que lá dentro, mas é assim, e essa liberdade áspera, dura, faz bem à alma.

E descemos e subimos Coimbra por tantos lados que eu subia e descia há vinte anos.

Minutos depois estou no comboio de regresso ao Porto, eléctrico, entrecortado, suado, difuso, tusso, a menina no bar ofercece-me dois rebuçados, eu peço-lhe o penúltimo café do dia e, da luz da Avelar Brotero às asas do Pessoa, a vida mais alta, tão interior e intensa em cada um dos sujeitos do dia que sim, mais alta, maior do que os homens, do tamanho dos poemas que deixamos por dizer ou, maior ainda, do silêncio da Micaela e da agricultura filosófica, mais do que de um Brotero, do Pessoa.

PG-M 2014

2014-01-25

esta febre portuguesa



escrevo sem abrigo 
há dez mil anos 
escrevo apesar do pai 
escrevo apesar da mãe  
incluo o vento e a mulher 
o mar e o filho 
o céu e o inferno, 
mas casa não  

vou dentro de um torso 
alheio 
fora de mim 
os anos no chão 
os olhos no ventre  
a mão no sexo 
a língua na ponta 
de todas as línguas   

saliva a correr 
que é seiva queimada
nas bocas 
a urgência da frase 
e este longo  

longo silêncio  
este triste  
triste verbo 
esta doce 
doce vulva 

esta febre portuguesa
  
esta certeza 
este dilema 
do linho descendo nas coxas 

de um poema 


PG-M 2014

2014-01-23

Dominó

 somos os troncos cortados, as árvores doentes,
a treva do bairro, os vasos quebrados,
somos o húmus humano, a pedra-sabão,
a merda no piso, os corpos rasgados,

somos
os violentos sem causa,
as respostas sem porquê

joga o dominó de carne
traaaa-ta-ta-ta-ta

somos
os homens nus da prisão
a fúria para cá do vento
o momento

original
chegamos na mesma palha
partimos na mesma tábua
(há um que se vê,
 outro não)

os intermúndios serão
os achaques da surdez
o barulho da paixão
uma cor que tu não vês

nas unhas das mulheres deles
são pretas, azuis, vermelhas, verdes,
são amarelas, bordô,
no mesmo corpo,
no mesmo colo,
na mesma mãe

joga o dominó de carne
traaaa-ta-ta-ta-ta,
passa a faca no azul
fode o vermelho,
enfia no amarelo,
esgana o bordô,
cega o verde

somos
os homens nus da prisão
a fúria para cá do vento
o momento

original
chegamos na mesma palha
partimos na mesma tábua
do mesmo lugar
(há um que se vê,
 outro não)

PG-M 2014
fonte da foto

2014-01-22

LOST for all eternity


Desta vez, com a bênção do timewarp (um recurso tããão "Lost"), que nos permite analepses e prolepses, e com a grande ideia do canal MOV de ter retransmitido toda a série em HD, vi tudo. Tudo. Não perdi um minuto. Quase oitenta horas da melhor série de todos os tempos, digo mais, do melhor naco de arte em movimento alguma vez visto. Acaba amanhã, no episódio dezoito da sexta temporada, e desta vez tenho uma ideia muito diferente da primeira vez, estendida ao longo dos seis anos que demoraram a passar os cento e oito episódios e as seis temporadas. Ao ver praticamente um episódio por dia (foi o meu vício do último trimestre), sem perder pitada, tudo faz sentido, e nem sequer está confuso. E o que eu achei "cheesy" na crónica que escrevi em 2010, "O Lost não acabou (declaração fanática)", parece-me agora a única saída justa para os fãs, que aliás deviam ser todos os habitantes do planeta. Este final coloca a série acima do tempo, a vida que se recompõe no "flash sideways" - porque todos acabam por se tocar e lembrar do universo paralelo da ilha - ou a morte e chegada ao paraíso na história que nos é contada desde o início. Com efeito, desta vez ficou claro que este é o paraíso de Jack, o lugar onde todos se encontram à morte deste, e que os melhores amigos, vivos ou mortos, nunca abandonarão. É um lugar de memória ou de fé, como queiram, a que todos temos direito. Porque nem todos os que lá se encontram, no final, na igreja inundada de luz, estão mortos. Estão é presentes para o morto. Hurley torna-se o novo Jacob, com o improvável ajudante Ben, Jack morre, Sawyer, Kate, Miles, Claire, Lapidus, Miles e Desmond salvam-se. Mas estão todos presentes na morte de Jack, nesse lugar especial onde os amigos se encontram, estejam vivos ou mortos, e que para uns é a fé, outros a memória, outros as duas coisas. O "let go" é, no fundo, a paz. A paz eterna. Não a solidão. Não a ausência.

Há um momento que, se perdido, pode dificultar o entendimento do argumento, este arrebatador argumento: aquele em que Jacob explica que a ilha tem a função de um rolha num garrafão, e que o vinho dentro do garrafão é o mal. Sem rolha, o mal não é contido e o mundo fica coberto de trevas.

O que torna esta série notável é que não é propriamente fantasia.
Tomamos contacto com as perguntas que fazemos desde que temos consciência. O que estamos aqui a fazer? O que é isto? Existe vida além da morte? Há céu, inferno, purgatório? Deus? O que é deus?
O equilíbrio entre o bem e o mal percorre cada episódio. É o próprio Jacob que diz ao irmão, quando observam mais um barco a chegar à ilha e prevêem que os que náufragos seguirão o caminho de todos os anteriores: uma união inicial no desespero e na sorte, uma luta pela liderança, pelo poder, guerra, morte. Que é sempre assim, sempre igual, será sempre, até ao fim.

Mas os grandes desígnios não fariam esta série perfeita, como defendo que é: o que a faz perfeita é ter tudo, e se nem sempre isso quer dizer boa arte (muitas vezes há que tomar partido, fazer opções estéticas, não atirar tudo para dentro do caldeirão), a verdade é que os argumentistas usam com mestria as oitenta horas que lhes dão para contar esta história que, no fundo, é a história da humanidade.

Há grandes histórias de amor, que nunca se desgastam, que são profundamente complexas e raramente ficam claras. As excepções são as de Rose e Bernard, a de Charlie e Claire, a de Sayid e Shanon, a de Desmond e Penny, a de Daniel e Charlotte, a de Hurley e Libby. O triângulo Kate-Jack-Sawyer é tremendo e  muito bem cuidado por quem escreve.

Há grandes histórias de vida, sempre muito bem contadas, sem perda de interesse. Não é porque saímos da ilha e entramos na vida de uma das personagens que desmobilizamos: tudo é relevante, tudo é intenso, tudo é tenso.

Mas não quero terminar esta declaração de amor sem reforçar a escolha da personagem favorita:

Sawyer é das mais bem construídas personagens da história da televisão e do cinema. Tem tudo o que é possível ter, é a dualidade humana em carne viva, é simultaneamente uma coisa e o seu contrário, honesto e vigarista, egoísta e altruísta, justo e vingativo, duro e de coração mole, aparentemente estúpido, mas muito culto (é o que mais lê ao longo de toda a série, está sempre a ler, e a ler grandes livros), e a verdade é que usa a cultura de uma forma popular, terra-a-terra, como sempre me pareceu boa ideia. Tem a melhor escolha de perfume (Davidoff) e é o que, no triângulo com Kate e Jack, demonstra o seu amor por Kate por acções, não por omissões, como o atormentado Jack.

Em rigor, e com poucas excepções, todos os elementos de Lost têm esta dualidade, afinal a dualidade de que somos feitos.

O que custa a quem realmente se dedica a estas oitenta horas sublimes é deixá-las, é não ter mais, não ter para os anos todos que faltam viver. E é curioso como, tendo o casting sido perfeito e a direcção de actores do outro mundo, poucos são os actores de Lost que continuaram com trabalho e visibilidade. E são muitos os que sofrem de uma espécie de síndrome pós traumático. A forma como todos viveram os seis anos da série, mesmo os secundários, foi a forma como se deve viver toda a arte: visceral.

Mas isso tem sempre efeitos secundários. Quando se põem as vísceras nas coisas e as coisas acabam, fica o corpo vazio, os ossos, numa espécie de deserto.

Valha-nos a grande banda sonora e a hipótese de, de vez em quando, rever a série que nos marcou as memórias como se fizesse parte da nossa vida.

Na realidade (coisa engraçada de se dizer da ficção), fez.
Fará sempre.

PG-M 2014

2014-01-20

depois disto, e até à morte, quero calar-me com o relato do maior amor de uma vida


passa o dedo os dedos a mão toda os braços
passa a pele e os pelos e o suor e a saliva
passa os olhos as pálpebras as pestanas as
nádegas as coxas os lábios os
mamilos a língua a saliva as
veias

na única frase da única dedicatória
que algum dia te farei
num livro

começa assim:
à mulher que me colheu

PG-M 2014
fonte da foto

2014-01-19

levanta o teu dedo médio


amanhã, quando voltares
ao firmamento do mundo
com frio e os pés
molhados
tristeza e os olhos
secos

levanta o teu dedo médio

primeiro franze o sobrolho
enche na linha dos lábios
o sol a imitar a alma
a chuva a mimar o choro
e o sorriso a chover

levanta o teu dedo médio

depois vai subir o riso
como um refluxo da terra
e a multidão inquieta
da tua cara insolvente

levanta o teu dedo médio

tem fome, certamente,
e mais do que de comida
tem saudades da leitura
da música e do teatro
do sobretudo do homem
com as crianças por baixo
e todas as gargalhadas
na infinita planura
a casa com nada em volta
os passeios sem destino
e o calor no salão

levanta o teu dedo médio

vai melhorar,
um deus para abrir janelas
depois de portas fechadas
o amparo do patrão
em vez dos olhos na rua
uma casa mais pequena
pelas sombras da cidade
o homem com um certo frio
mas os meninos cingindo
o vosso corpo
e o mesmo abraço só
sem vista

levanta o teu dedo médio

se és de terra e se o corpo
é duro como os penhascos
lê pedaços de poemas
ao ouvido do marido
canta baixinho aos meninos
em redondilhas menores
dramatiza o teu monólogo
nas noites de aniversário
outorga a luz
em cada quarto
enche-te a copa de fumos
e do cheiro dos assados
compra a garrafa de vinho
e em vez de a sangrar
bebe

levanta o teu dedo médio

amanhã, quando voltares
ao firmamento do mundo
leva os pés quentes
e secos
os olhos claros
e leves
e enche os lábios
de sol

o choro a mimar a chuva
e a subida do riso
como um refluxo da terra
e as líquidas multidões
a transvasar

e a inundar
e a levantar

todos os dedos médios

(há um silêncio rotundo
há um murmúrio no mundo)

PG-M 2014
fonte da foto

2014-01-17

Meu pé de laranja amarga (foi adoptado)

 Totoca, me diz a verdade, a mim você pode dizer, Luisinho não está ouvindo, porque estão as mulheres fazendo rios na sala, chorando como se a chuva nunca mais voltasse, como se estivesse repetindo o dia em que o papai nos deixou e partiu para longe, Totoca? Foi com algumas das mamães, Totoca, me conta, Totoca, me diz a verdade!
Nós não vimos Luís ferrando a moldura da porta com metade da cara escondida, nem o olho cheio de lágrima também.
Foi a mamãe da barriga, Zezé, a mamãe que nos pariu.
E depois Totoca não aguentou mais e se juntou ao rio.
Não disse que tinham sido seis pretinhos do morro com canivete na garganta só por vinte tostões que mamãe de barriga tinha ganho na manhã de Bangu.
Quem me disse isso foi a assistente social que veio fazer o bem logo na manhã a seguir ao funeral.
A senhora não precisa levar nós, senhora, nós tem outra mamãe que caia a casa e cuida da gente quando a mamãe de barriga ia em Bangu fazer tostão. A outra mamãe até ensinou Luisinho a ler sentando ele no joelho noite sim noite não com a vela e o livro que o Tio Edmundo levou emprestado da livraria.
A outra mamãe toma conta de nós e nunca deixa solidão entrar na casa nova, que está sempre branca, e nós temos menos pobreza desde que mamãe nova chegou
Papai? Papai não vem há anos,senhora, a gente não sabe de Papai, não.
Principalmente a senhora não pode levar eu, eu engraxo e leio e faço tudo sozinho e tomo conta do Luisinho, e ainda porque meu pé de laranja lima pode morrer sem mim e já chega de morte, senhora, já chega de morte.

Quando fechou a porta da carrinha social com as crianças aos saltos e aos gritos, a zelosa assistente social disse assim para o motorista, precisado de demagogia para o almoço:

"Estas crianças ainda vão agradecer ao grupo parlamentar dos jovenzinhos geniais não fazer leis à toa e o país andar pendurado da liberdade de um belo referendo enquanto elas experimentam, separadas de mano e pés de laranja, os segredos das nossas casas por caiar e centenas de irmãozinhos novos."

E, esfregando a barriga, viu que não tinha fome.
A carrinha seguiu chiando e os menino gritando.
A política é bela,
teoricamente bela.

PG-M 2014
(já agora, não digo, experimento)

2014-01-16

alerta à vaga maior


Do ponto de vista cósmico, não somos nada para ti.
Pelo menos não somos mais do que uma trave de madeira que se desprendeu dos passadiços de praia. Que antes se desprendera de uma linha de comboio.
Somos menos do que ela, menos do que o melhor de nós.

Não somos os únicos que te respeitamos, mas somos os únicos que te pensamos, os únicos que te completamos com velas e cascos.
Os únicos que, apesar de tudo, te olhamos de frente.

Batalhamos dentro de ti, vivemos na tua espuma, temos a literatura a cortar-te as vagas, baleias gigantes, espadartes, poetas com poemas que fundam países.
Ouvimos o teu protesto subir nas noites de tempestade.

E os que entre nós fazem de ti vida ficam duros, de peles curtidas

(mulheres sofridas)

E os que entre nós se habitam de ti, seja inverno ou verão, não toleram alertas amarelos e afastamentos. Ficam e esperam, temem os que se riem na tua cara quando já nem cara tens, quando te misturas com terra e vento e espuma e  sobes vigorosamente à cidade.

Apesar da morte nas tuas faldas parecer estúpida, e a morte dentro de ti heróica, só um pai de pescador pode estar preparado para perder um filho para as ondas - mesmo que nenhuma perda seja consentida, esperada, tolerada. Ninguém pensa na vaga que nos pode levar. Mesmo aqui, contigo aos pés, a escrever, como é sempre meu pecado, seja inverno seja verão.

Já as frases que vieram por estes dias são salvamentos.

Quando Hércules engoliu a Foz do Douro, "estás bem?", "pensei logo em ti". A gente fica grata por, na cabeça dos amigos, ser das pedras da Sé e do mar da Foz. Por todos os dias em que se passa, e quase sempre se fica, em mesas a metros do mar do senhor da pedra, mesas que têm esperado outras horas para flutuar com as ondas. Para que se possa voltar e fingir que o mar se contém.

Não nós.

E tantos foram os anos em que te dei corridas junto às ondas - e só por uma vez me trocaste as voltas e me encostaste às dunas e me terias levado se eu não tivesse recusado. Deve ter sido por isso. Lembro-me de que me ri com a emoção e o medo. Ao longo dos anos tenho visto muitos a rir com emoção e com nervos, alguns deles a morrer. Contamos já trinta e sete anos de uma aliança estranha entre miúdo-e-homem-de-praia. Primeiro miúdo dentro de ti, a conhecer-te os baixios, o mapa das rochas e as correntes, agora homem que te teme por não te dispensar.

Não nos tires mais miúdos, não os tires dos pais deles, pescadores ou não pescadores, nem me engulas os promontórios e as dunas de onde te estudo.

Tens razão: de onde me estudo.

E hoje, entre todos os alertas, e já que é teu o ano de vires comprido, plano, forte, entra com medida por nós adentro.

Se puderes, leva só as traves de madeira.

PG-M 2014

2014-01-15

as revoluções começam sempre nas ruas sem saída?



O que escreve não sabe o que reportar, nem tem de reportar nada, ou tem? O silêncio, quando é uma opção consciente, pode comunicar mais do que o ruído nas frases. O silêncio é normalmente o objectivo último dos escritores sem vaidade. A maioria dos escritores escreve mais longe da página, a andar na rua, a sonhar, do que sentado na função. E muitos, quando se calam, falam mais do que quando respondiam. E reportar o quê? Os vencedores ou os vencidos? Nenhum deles? Apenas os ordinários? Ou os extraordinários? Ou, melhor ainda, a derrota dentro das vitórias, as vitórias de cada derrota, o ordinário de cada extraordinário e o nosso extraordinário - nosso, dos ordinários -? O que move o mundo? As marés? As abelhas? O desejo sexual? A maldade? O poder? Há algo de confuso a sair destes dias desproporcionados e wharolianos, que só existem porque todos, sem excepção, querem a oportunidade de se comover - e isso está bem: esta indignação por se destacar a bondade e a humildade de quem vai. Provavelmente é uma justa indignação, até porque quem se indigna com inteligência raramente é capaz apenas disso: de ser bom. Se até Jeshua teve de ser frio e duro para virar o mundo e Alexandria cair. Então faça-se o seguinte: pintar uma rua com as sete cores, cinco mais duas que Newton somou ao espectro, e deixá-la vazia, sem ninguém. E calarmo-nos todos. A ver se pelas coisas, apenas pelas coisas, a rua se ergue outra vez e frutifica de gente. Se pelos símbolos e pelas plantas e pelos astros e pelas gradações de luz o homem volta a uma rua de onde foi despejado. E se volta bom, mau, ou tudo. Ainda toca "O sonho de amor", de Liszt. As Nogueiras polinizam-se. E o silêncio circular.

PG-M 2014 

O meu pé de laranja lima

Relendo "O meu pé de laranja lima", envergonhado. O meu primeiro livro "a sério", não infantil nem juvenil, que eu levava pelos corredores do colégio para ter força e me sentir menos sozinho aos doze anos. O Zezé era o meu tronco e falava comigo. Tenho vergonha de não ter relido antes, porque está cá tudo, e até parece simples. Comove e faz rir a cada página. Eu não sabia chorar como crescido antes de o Mauro mo ter ensinado. Eu tinha um poema ao pai que era uma merda, dizia o pai. Mas queria concorrer com ele a um concurso literário que também era para crescidos. Não vou contar a história toda aqui, já, até porque a tenho guardada para depois do oceano. Sei que tive dificuldades, as lágrimas correram, eu pensava que ainda eram lágrimas de menino, mas o Mauro, o Zezé e, principalmente, o tio Edmundo, disseram que era direito fundamental, que qualquer homem choraria nessa circunstância. Quem ganhou aquele concurso literário de crescidos foram dois meninos ex-aequo: um de treze anos que se chamava Paulo Rangel, e um de doze que se chamava eu. Eu levava "O meu pé de laranja lima" na mão quando fui receber o prémio. O resto conto mais tarde.

PG-M 2014
fonte da foto

Selecção Ibérica para o FLIPoços 2014 - Abril/ Maio 2014


2014-01-07

Reciclagem humana


É oficial. Perdida a paciência, deixar-se de perguntar aos vizinhos se querem que lhes trate da comoção. Como já ficou dito no princípio do ano. Um gajo porreiro não tem de andar a bater às portas só para perguntar se está tudo bem e se é preciso ajuda na reciclagem. E é tão feio os gajos porrreiros dizerem uns aos outros que são porreiros - e alguma encenação cool, marcha, uma ironia fortezinha e tal, talvez até cinismo light? Algum bullying sobre os daquela marca é muito bem pensado. 2014 é o ano em que vamos ter de começar a separar o lixo - humano, bem entendido. No amarelo o plástico e o metal frio. Claro que plástico e metal seguem caminhos divergentes, porque não podem ser reciclados em conjunto. Para o azul vão, além de revistas, jornais e folhas de papel, especiais televisivos, embalagens de papel e cartão, incluindo as embalagens de bêbados incorrigíveis depois de escorridos e espalmados. Para o verde todos os cacos de gente, já sem tampas nem rolhas. Para o rosa as massas cerebrais informes e coloridas. Sabemos que vamos tirar emprego a alguns nobres e garbosos almeidas, decorrência natural da separação, mas o facto é que os únicos despedidos por inadaptação são sempre os parceiros bacocos e morcões iguais ou parecidos. Que conhecem a letra da cantiga. Então, agora sim, um ano em cheio. E se quiserem emagrecer mantendo o porte, perguntem-nos como.

PG-M 2014

Talão de estacionamento

 
Isto é só um papel no meu bolso?
Aqui pode vir-se tratar de papelada, apenas. E vem. Mas quando olhei para este papel vi o que muitos vocês verão. Muitas vidas. As próprias, as dos outros. Muitas memórias de perda, de vitória, principalmente de medo. Quando olhei para o papel na minha mão, percebi que, subitamente, todos os que não estavam ali chamavam. Há um espaço que é preciso dar a quem tem o que dizer, e não sabe, não pode, não se atreveria a juntar um talão de estacionamento em público. Esta imagem convoca memórias, vidas, mortes. Uns sentem-se confortados e solidários, outros agredidos, devassados. Há preocupação legítima, às vezes até inveja do sofrimento, mas este papel, não sendo nada comigo, pode ser, está no meu bolso. E se chegou aqui é porque é um sintoma dos nossos tempos, em que a cura nos traz mais longe na vida e nos sujeita à lotaria do corpo. Sempre foi assim. Mas agora todos passamos por isto. E esta multidão em volta não me assusta, conforta-me. Aqui não há posts irrelevantes. Aqui está o essencial. E mais histórias de corpos que ganham. E a memória doce, intensa, total, dos que perdem. Se eu nada tivesse escrito, este papel era ainda mais duro. Cotinha mais vozes. Como o silêncio na arte. Assim somos nós, todos nós, fortes. Não um talão de estacionamento. E não, não passou. É preciso saber que volta sempre. A morte ao lado, a vida hora a hora a hora a hora. Com umas gargalhadas de permeio.

PG-M 2014

2014-01-06

revolução

 
se todos os dias chovesse assim
se todos os dias o mar
rugisse assim
subisse aos faróis
e entrasse nas ruas
e os trabalhadores viessem
à praia fumar cigarrilhas
e o vento os levasse furiosamente
pelo ar
e eusébios morressem
e multidões quisessem

dizer que amam mitos
em vez de restos de homens
que vão na maré

e o facebook não
descansasse em
paz
e as televisões dessem
uma só notícia
e os jornais tivessem
uma só capa

e o cr7 marcasse livres
ao ângulo
e o scott matthew cantasse to
love somebody
o rui veloso o porto
sentido
ou a amália o
grito

não bastaria este corpo
estes olhos, este
pensamento
teríamos de planar quase
parados no vento do mar
teríamos de mudar de forma

e ser pássaros
 

PG-M 2014/ fonte da foto

2014-01-04

Olinda

Por causa do que aconteceu à Dona Olinda no dia seis de dezembro, eu já não consigo estar aqui sentado com as costas vazias.
Eu não sabia.
Concluí a revisão do "Livro sem ninguém" na antevéspera de natal, muito depois desse dia, sem saber.
Os ritmos mudam com as férias de natal dos miúdos, os treinos passam para outro horário, e ainda são os treinos do rapaz que permitem as melhores retiradas de escrita junto ao mar, faça chuva, faça sol, seja bonança ou temporal.
A bem dizer, e como faço com todos os bares de praia onde escrevo, estou a deixar o Bar Azul. Honro-os, agradeço-lhes e deixo-os. Acontece sempre naturalmente.

Foi assim com o primeiro, o bar-sol, aos catorze anos. Aí ia estudar e escrever projectos de poemas. Pedia um pingo clarinho - não consigo perceber como gostava disto - e uma queijada de Francelos. São as melhores queijadas que o mundo civilizado pode ter. O bar-sol era um bar de praia com uma arquitectura curiosa, linhas curvas, todo envidraçado. Eu ficava na esplanada, coisa que não faço hoje em dia. Depois demoliram o bar-sol e ficou só a areia e um muro baixinho que sempre lá esteve.

Foi assim com o Titanic, construído sobre as dunas e contemporâneo do bar-sol. Este ainda existe, mas vai mudando de nome. Como fica ao nível da rua, recebe as ondas dentro no inverno.

Foi assim com o Mandarim, em Coimbra, onde escrevi centenas de cartas à que é hoje minha mulher. O Mandarim foi vendido. Perdeu a coxinha de frango e ganhou o McCheese.

Foi assim com o Aviz, no Porto, a quem eu prometi uma placa de mármore a assinalar os anos de estudo e escrita e tertúlia naquela mesa do canto. Não vou cumprir essa promessa. A baixa do Porto renasceu, eu deixei de lá escrever mal terminei o estágio de advocacia.

Foi assim com o Paredão, onde foi escrito todo o livro "A Manhã do Mundo", lá está, durante os treinos de voleibol do miúdo no Atlântico da Madalena. E o Paredão consta dos agradecimentos do livro e foi tema de debate com a tradutora para macedónio, porque não há paredões na Macedónia, que é um país interior, e por isso não inventaram uma palavra para eles.

Foi assim com o Di Mare, onde foi escrito o "Romance proibido a menores de 30", que está - e provavelmete ficará, até eu me entender com ele - inédito.

É assim com o Atlântico e o Bar Azul, onde escrevi o que vai sair em Março, e que vou gradualmente deixando.

Durante o Verão, vou menos aos cafés de praia, que são invadidos pelos banhistas. Estive sem aparecer uns dois meses no Bar Azul e, quando voltei, a Dona Olinda, que nunca tinha falado comigo, saudou-me.

Eu pedi desculpa pela falta e lembrei, para a sossegar, que era mais cliente de inverno.

Ela ficou registou essa ideia, às vezes é bom darmos o nome às coisas perante os nosso avós, o mundo tem de ser mais simples e regrado na parte alta da vida, e sempre que lá voltei ela dizia aos demais, e eu às vezes ouvia, "este é o nosso cliente de inverno". "É muito bom cliente."

Depois eu arranco com a música e já só ouço palavras escritas.

Passei amiúde por mal educado, porque o filho, apesar do vozeirão, não conseguia penetrar na música e nas palavras. Mais tarde chegámos à fala e ele explicou-me que muitas vezes me cumprimentava e eu parecia ignorá-lo. Mas foi graças a essa conversa que soube que a Dona Olinda liderara uma família de trabalho nas concessões de praias, e que aquele Bar Azul era consequência dessa vida de dedicação às velhas barracas listadas. Que se  vão extinguindo.

Ultimanente a Dona Olinda passava os dias na mesa do fundo do Bar Azul, e daí dava as ordens e geria as contas e os negócios.

Tinha sido avisada do coração fraco, mas, com a idade que tinha, preferiu o risco de vida a camas de hospitais e desapossamento.

Eu deixei de ir ao Bar Azul em Novembro, quando entreguei a penúltima revisão do livro à editora. E em Dezembro o coração da Dona Olinda apagou-se sem eu saber. O filho disse-me que aquele mar cavado ficou igual, que choveu quando tinha de chover, que fez sol quando tinha de fazer sol - mas talvez se devesse registar que, em honra da Dona Olinda, este foi o outono que teve dentro o verão de são martinho mais longo de que há memória. Não sei se fazia sol no dia em que ela morreu, mas o fim da vida dela foi cheio de sol, visto em jogos de luzes sobre a espuma das ondas daquela mesa reguardada ao fundo do Bar Azul.

Por causa do que aconteceu à Dona Olinda, eu tenho as costas vazias.
Ela morreu no dia seis de dezembro de dois mil e treze. Eu não sabia. E mesmo sem saber deixei-lhe o agradecimento no fim do livro, como se ela estivesse viva. Agora, que remédio, estará mesmo. Viva. Apesar da mesa vazia, como as costas, ou ocupada por outros, como a vida, com papéis estranhos, diferentes, eu agradeço-lhe, dona Olinda, todos os cafés.

E estou de saída, mas só por acaso.
Sei que o filho não lerá este post até eu lho imprimir e entregar dobrado dentro de um exemplar do "Livro sem ninguém", que será impresso mais de mil vezes com o nome e a memória da mãe, que é o nome de um muncípio brasileiro do estado de Pernambuco, mas isso fica completamente fora de tópico.

Aposto que ela sabia.

PG-M 2014