2014-12-13

Improbiso a Oeste

Nota Prévia: a regra é a não publicação de textos que são lidos ou ditos em lançamentos ou sessões não filmadas ou televisionadas, precisamente para premiar quem se desloca ao local. Como este disurso, proferido num momento que me honra profundamente, tendo como companheiros de mesa Nuno Júdice, Rui Zink e João Morales, está integral no youtube, publico-o, finalmente, porque são raros os meus registos de oralidade e humor. Divirtam-se. :)


"Quando bi a mesa literária que me tinha calhado a Oeste, com berdadeiros monstros como o Rui Zink e o Nuno Júdice,

que é para não dizer outra coisa,

bi que num tinha a mínima hipótese de me sair bem na bida real. Resolbi entom ber se me safaba contando a história do combate do meu pai por lebar a literatura surreal, e não real, a terra de cegos.

Bou entom começar:

Título: O labrego surrealista

O meu pai é um labrego surrealista que até já se tentou dependurar no estendal lá de casa com cinquenta molas, não tendo sido bem sucedido. Com efeito, ainda tebe sucesso c´os braços,

mas fracassou com todos os outros membros.

Bai daí, frustrado por num conseguir realizar instalações surrealistas, consultou a wikipedia

e enberedou pelo surrealismo literário. Comprou Breton, Kafka e Cesariny, que nunca leu, e rumou ao café da terra empenhado em criar o grupo dos surrealistas de sanfelos da marinha, mas tebe grande resistência do grupo de leitores do jornal de notícias e do teimoso do Basconcelos, que era um joserodrigues-santista fanático, e que gritaba para o meu pai quando lhe bia a Metamorfose na mão:

“Uma vida num te chega para perceberes isso, Moreira, mas na minha cabem binte Zé Rodrigues, e quanto mais grosso melhor, salbo seja.”

O meu pai ficaba furioso e saía porta fora do Café Gelo. É bom que se perceba que este nome num tem nada a ber com o café do Cesariny, mas era Gelo porque o dono do café, o Loureiro, era um forreta e num tinha aquecimento, já que o berdadeiro nome do café era Café do Loureiro.

A berdade é que toda a literatura tinha de ser balidada no Café Gelo do Loureiro:

um gajo ia lá e perguntaba: bocês aprobam o LECHERNERBONNIER? E o pessoal todo repetia em uníssono: LE-CHER-NER-BON-NIER,  LE-CHER-NER-BON-NIER, e todos, pelo menos quatro bezes, senteciabam: é bom, é bom, é bom, é bom.

E o Cruzeiro Seixas?

Seixas, Seixas, Seixas, Seixas, Seixas, é bom, é bom, é bom, é bom.

Esta era a Academia Literária do Gelo do Loureiro.

Ora bem, esta história começa realmente, no que aqui nos interessa, quando eu cheguei a casa e a empregada me deu o recado.

“Sêdôtor, telfonou um tal de João Morais, o meu marido até explicou que era o seleccionador de râguebi, e disse que o sedôtor tinha uma mesa no oeste cum Rui Cinco, ou Cínico, num sei, e outro que é o Juice.”

Ora, ao contrário do que possam pensar, eu não despedi esta empregada por causa do recado,

páginas 2 de 3:

foi ela que me despediu a mim e à minha mulher, quando, dias depois, deixou escrito:

“Decidi que estaba na hora de me ir embora e que era abuso e gozo par mim

cas pessoas telefonem para casa dos senhores e deixem recados com nomes estúpidos.”

E enquanto eu enfrentava o drama de ficar sem empregada, o meu pai, orgulhoso, ia ao Café Gelo do Loureiro obter aprovação para os meus companheiros de mesa, não sem antes passar na libraria do Guedes, lá em sanfelos, que também bendia o selo do carro e daba para pagar o telemóbel e a luz e o gás, e comprar um libro de cada um

-        Do Rui Zink só temos o Hotel Lusitano, disse o Guedes.

-        E só tens este, Guedes, com as páginas todas amarelas?

-        Assim é que é bonito, pá. Ora cheira.

E o meu pai, já à procura da pândega, que lá na terra é sempre assim com os livros do Zink:

-        Por acasonum tens a Dádiba Dibina, de 2005?

E ele,

-        Ter, tenho, pá, tenho três ricos filhos criados a consola, com mais de cem quilos cada um.

-        Playstation?

-        O mais belho pela dois, o do meio pela três e o mais nobo pela Uí.

             E o meu pai chegou ao café só com o Hotel Lusitano, porque o Guedes não tinha nada do Nuno Júdice, mas, como bão ber, a Probidência habia de resolber esse problema.

            Chegado ao Gelo, o meu pai tebe de balidar o Zink, e o pessoal:

-        Zín-que? Zín-que? O que é isso? Zín-que?

-        Esperai, esperai, num podeis dezer à moda do norte, tem de ser curto, seco e fininho, assim, Zíiiink, e todos, Zínk-Zínk-Zínk,

e em jeito de aprobação, com as bocas fechadas e cheias de ar e os queixos a dizer que sim,

Mutito bom, muito bom, muito bom, muito bom.

            Perto estaba o presidente do conselho fiscal do clube local, o Sanfelos Futebol Clube, cuja experiência surreal são os óculos degradé com defeito, porque ficam escuros depressa mas demoram muito tempo a clarear, e o homem, quando entra em qualquer lado bindo do exterior, num tira os óculos porque pensa ca miopia é pior ca cegueira e entom bai contra tudo, e o Loureiro, qué o dono do café, pá, dás-me cabo da mobília, e o Basconcelos, que num grama o presidente nem por nada, prega-lhe uma galheta para ele aprender, ele abaixa-se e diz “tá quieto, pá, assseeeee!”,

enfim, é surreal.

            A berdade é que, quando o homem deita a mão ao meu pai, num o larga nem por nada. Nesse dia chamou-o, e então Moreira, já pagaste as quotas, pá? quais quotas?, carago, pá, as quotas de dois mil e quinze, pá, o clube precisa, pá, ah, tá bem, eu pago mais tarde, ok, tá bem, mas eu queria-te falar era desse Zink.

Epá, eu sou como tu, mas exigentalista, até ando a ler o Cámus,

Camius, disse o meu pai

mas porquê, tem um i e um acento?

Página 3 de 3:

Não

então, pá?

continua, bá!

Pronto, li o estrangeiro e até gostei, apesar de me parecer que o Cámus se passa no fim, e como queria ir direitinho, apesar do Guedes da libraria me dizer que era melhor não,  eu insisti e comprei o seguinte, que era o Mito do Xifo

e o Basconcelos, ao longe, Sísifo, pá, Sísifo, num sejas parolo e pedante, pá, lê o Zé Rodrigues, pá!

E o presidente, Cala-te!

Oube, espera lá Moreira, eu até acho que o Zink é bom, mas num percebi nada do Mito do Xifo...

Sísifo, parolo!

...e num consigo encaixar o Zink nos exigentalistas...

Também não o encaixas nos surrealistas, disse o meu pai

Achas?

Acho.

Olha, enfim, num leias os livros do Zink, cuma vida num te chega, pá, lê só os títulos.

Se tu o dizes.

Moreira, isto sou eu a dizer e já sabes que sei o que sei, mas o Júce é bom, pá, vai por mim.

Ok, pá.

Já pagaste as quotas, Moreira?

E foi isto toda a tarde. O Basconcelos ainda foi encher a cabeça ao do conselho fiscal,

disse-lhe que aprendesse,

que o Zink era Gnóstico e citou o Hans Jonas e tudo,

e diz um “A embriaguez da improcedência, pá”, e o outro, eu sei pá, “um deus separado do eu é um deus carrasco, pá, mas o  Zink num é nada disso, qu´é que queres, pá?, larga-me da mão!

Entretanto eu chego a casa, e recebe-me a noba empregada do meu pai, quer dizer, gobernanta, que esta era toda fina e exigia que a chamassem de gobernanta,

-        Olá, senhor doutor.

-        Olá, senhora gobernanta.

-        Go – VER - nanta, senhor doutor, desculpe, Go - VER - nanta.

E sem sotaque algum, disse:

-        Soube que o seu paizinho não conseguiu arranjar Nuno Júdice. O Doutor permite-me?

            Confesso que fiquei cum bocado de medo, mas permiti, e ela alça de uma mão, aponta-a para o céu, e começa:

página 4 de 3:

“Um outro Poema de Amor

No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"

Eiiia. Até eu fiquei abananado. Que bonito, senhora go - VER - nanta, que bonito.

E depois, com excesso de zelo, ajoelha-se e diz:
-        Eu sei outro! Permite-me?

Como eu até tinha achado aquilo espectacular, deixei:

-        Já Bocage não sou...

-        Ah, esse não, senhora GoVERnanta, esse num é do...

-        Ah, peço imensa desculpa, enerbei-me, posso, senhor doutor?

-        Faça fabor!

-        Não sou nada, nunca serei nada...

-        Oh, senhora go – VER – nanta, agora já podia ir parando....

            Ela ajoelhou-se, desesperada,  eu tibe medo que ela me despedisse como a outra e lá a deixei dizer Bocage e Campos. Com esta gobernanta, cheguei a ter medo que o meu pai fosse perdendo gradualmente o sotaque e o surrealismo, mas perdeu só o surrealismo.

            É berdade. O Grupo surrealista do gelo do Loureiro acabou.

            Principalmente porque o meu pai já num aturaba o presidente do conselho fiscal,

            que aliás acabou internado em ortopedia piso três com lesões persistentes e foi processado pelo Loureiro por cósa da mobília e nunca mais lá apareceu.

            O meu pai juntou-se ao grupo de leitores do Jornal de Notícias.

            O João Morales, o Rui Zink e o Nuno Júdice são reais e eu nunca deixarei de ser filho de um labrego surrealista.



            Obrigado e Biba a Lourinhã."

PG-M 2014

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