2014-12-31

Cala-te. Abranda. Pára.

 É um privilégio, mas também mata. O meu dia, muitos dias meus, são questionar assim. Estou a contrapesar Leibniz e o lado binário da lógica, e subitamente sou interrompido pelo telemóvel e é telemarketing, pergunto ao miúdo se quer dois ou três pães para o lanche, volto à questão dos axiomas da matemática primitiva e trago filosofia e física para o meio de uma frase, aponto-a num envelope por abrir porque vou tentar escrever ao fim da tarde, digo ao miúdo que se despache porque são horas de ir para o treino, ele chama-me para ver um vídeo no YouTube, rimo-nos juntos, digo-lhe que se arranje, vejo um livro saído na estante, são poemas, não digo de quem porque neste ponto o parágrafo ficaria insuportavelmente pretensioso, um curto poema sugere-me outro que vou escrevendo na cabeça, a mulherzinha liga, falamos de banalidades que selamos com a frase essencial, pela tarde, em frente ao mar, pronto para escrever, o telefonema de um cliente obriga-me a abrir o Citius e requerer uma urgência, o dia vai acabar, o ano vai acabar, subitamente agarro trinta minutos em que não sinto mais nada que não as frases, escrevo e tenho a ilusão de ser mais do que o que sou, de ter alcançado uma luz nova, mas o relógio diz que são horas de ir ajudar à ceia, chego a casa, vou ao wc, pego na Bonet brevemente, depois no Gabo, depois em mim, é preciso fazer vinho quente, dois paus de canela, o vinho ferve, eu arrebatado com conceitos kantianos, e no fim a vergonha do homem da rua que nunca teve a oportunidade desta felicidade. Mas este morre de frio ou fome. Os outros morrem de ter subido demasiado. E agora vai entrar 2015. O ano, que vai alto, fica baixo e com uma espécie de infinito por cima. Isso traz-me de volta a matemática. Cala-te, Pedro. Abranda, Pedro. Pára, Pedro.

PG-M 2014

2 comentários:

Denise disse...

Olá!

Gostei muito do texto, e queria também partilhar que acabo de ler "A Manhã do Mundo".

Gostei imenso.

Parabéns :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá, Denise. Fico muito feliz. Agora talvez o Livro sem ninguém? :) É toda uma outra aventura. Beijinhos. PG-M