2014-12-31

a mais bela das doenças


Hoje fugi para escrever, estou sempre a fugir para escrever, mas tenho conseguido fugir pouco e o livro que estou a montar agora exige um rigor (não formal, como o Livro sem Ninguém, mas verbal, um rigor que neste caso não é o rigor dicionarizado, é o rigor de escrever de novo, de construir de novo, mas como se parecesse evidente e regular, peguem por exemplo na primeira página de "Olhos azuis, cabelo preto", da Duras, e percebem o que quero dizer, o parágrafo que parece ter estado sempre escrito e, no entanto, é sublime, sublime porque é simples como os lábios serenos de uma amiga num café de vinte minutos) que não me permite produzir em quantidade, apenas em qualidade, e tenho feito coisas como nunca fiz, não sei se as melhores de sempre, não sei se no meio das menos boas, estou a ligá-las, a cosê-las, a mim parecem-me bem porque me falta o ar muita vezes e me fundo com a música que está nos ouvidos, e voltei a não querer saber do papel, de imprimir, de publicar, de ver os humores e os amores do meio como rugas rítmicas que me chegam como asas de insectos na tarde dos bosques, por exemplo, querem maior atrevimento do que me sentir o artista mais sortudo do mundo a ouvir o Experience, do Enaudi, e não sentir clivagem entre a música e as palavras que escrevera e estava a reler, maior insolência do que isto?, a verdade é que cada fuga permite a felicidade de uma frase, um parágrafo, no máximo, sinto os olhos tremer, o mar ali à frente, com este sol, faz parte do meu caderno, insolente, sou um insolente, está tudo no mesmo plano, na mesma página - mas eu só escrevi isto para partilhar uma ideia, mais do que uma ideia, uma gratidão que me surgiu em forma de frase, eu a agradecer à providência por me ter dado este defeito, este abismo, de ter, de poder, libertar pela escrita os detalhes mais insuportáveis, mais desumanos, mais sublimes, da existência: ainda agora, vejam, estou a ouvir o Bank Robbery, Miles Davis e John Lee Hooker como um só, e sinto-me parte deles e da areia e da espuma. Querem presunção maior? Estou intratável. - quero voltar a ter um programa de rádio, tenho saudades da rádio, quero literatura e música e pintura na rádio ao domingo de manhã sem ser um programa patrocinado pela spa. Quero dar spas de livros em vez de workshops de escrita "criativa". Intratável. Sou intratável. Sem rever. Tomem lá. 

PG-M 2014

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