2014-11-23

Um clube da má língua


O mal existe como acidente do bem. Ou é o contrário? Ou um é condição do outro? Ou céu e o inferno avançam paralelamente? Ou nada? Está cá tudo, não está? Esta pode ser uma conversa da casa dos segredos ou é mais uma conversa tida nos salões da Maria Alexandrovna Moskalev (do Dostoyevsky) em Mordassov? Ou, afinal, no café do bairro ou aqui mesmo, na rede? De algum modo, quando cá escrevemos, citando ou pensando por nós, achamos todos que encontramos uma luz especial, um brilho especial, que se partilha por sentido de colectivo ou, noutro plano, ostensivamente por exibição egocêntrica. Mas é curioso como, a tentar escrever um livro que queremos menos plano, ou a ler o querido do Fyodor, tudo me parece uma intriga palaciana invertida. Um dia divirto-me a dar título aos novos condes, mas, num certo sentido, e sem com isto defender o desinvestimento no que é importante e o investimento no que é merda, andamos todos, essencialmente, atentos a nós próprios e desatentos aos outros. Gabamos o génio do Fyodor Dostoyevsky a retratar sombras e luzes e achamo-nos a salvo disso quando apartamos a casa dos segredos de nós próprios. Está bem, está. Já aconteceu passarem por uma sombra vossa num qualquer festival literário, ou de música, ou qualquer evento socialmente distinto? O que é que nos distingue? Um coração aberto, meus meninos, porque um coração aberto nunca é o coração das trevas. E, evidentemente, uma só cara. E não é nada fácil ter uma só cara sem perguntar primeiro para o lado, e tu, o que vais fazer, o que vais dizer? É por isso que é sempre menos difícil alinhar na tribo dos que só desdizem e apoucam. Sentem-se a salvo. A salvo deles próprios. E, de vez em quando, percebem que estão, cuturalmente, imersos no próprio tempo e no próprio espaço, por mais que o combatam. No fundo, é tudo papa di kantina.

PG-M 2014

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