2014-11-23

O velho Lobo

 
O Lobo Antunes voltou a dar uma entrevista em que repete o número em que finge não conhecer os que estão a chegar à literatura, ou por cá andam há pouco. É bem feito. O velho Lobo não está louco, e comporta-se de uma forma que exige músculo e vista larga aos visados. O velho Lobo não está a desprezá-los. Se os receber individualmente, conversará com eles, ouvi-los-á. Com bom ou mau feitio, é um monstro no melhor dos sentidos e, nesta altura, merece ser respeitado por isso. A mim diverte-me ver tudo aos saltos e à estalada. Sou finalista do Leya e não sacralizo o prémio - é um investimento de um grande grupo, não importa se bom ou mau, os meus princípios não me permitem essa pronúncia, e o que tiver a dizer, digo em privado. O "Livro sem ninguém" beneficiou muito do selo de finalista - que eu fiz questão de pedir, porque, no que toca a vendas, me estou lixando para o significado do livro ou a quantidade de literatura inserta. Quero é vender: fazer o break-even para não dar prejuízo à editora, e tudo o resto é ganho, sendo que só a partir das dezenas de milhares de exemplares o escritor ganha algum poder. Eu não tenho nenhum. Mas quero vender, quero chegar ao máximo de leitores possível. No resto da vida, preocupo-me com a literatura, e não é bem com os vaidosões éditos como eu, mas com tudo o que de bom me chega, mesmo inédito. Quando lanço, ai lanço a sério e lanço longe . É óbvio que dava um jeitaço deitar a mão aos 100.000 menos impostos. Eu e mais cinco ou seis que em 2012 ficaram à bica são os que podem morder o lábio inferior com mais força. Vai uma esmolinha para os finalistas? Mas a verdade é que continuei sempre a acarinhar os vencedores, e todos os outros. Escrevi a todos os finalistas do meu ano, faço por escrever a todos os que chegam de novo à minha editora. Escrevo também a muitos literatos, mas talvez deixe de o fazer. Não creio que valha a pena. A postura de humildação praticamente desapareceu das chamadas "novas gerações" - a maioria está muito focada em si e olha de lado os próprios pares. E agora querem reclamá-la do velho Lobo? Mas não é evidente que ele faz um número que pretende isso mesmo, pôr à prova as fragilidades dos que se acotovelam e até dos que não se acotovelam por aí? Ao permanecer no meio, a única via a seguir é a do espelho. É útil observar os outros a verem-se ao espelho, como é útil observarmo-nos a nós próprios a vermo-nos ao espelho (é preciso um segundo espelho: enquanto a nossa figura nos aparecer feia, menor, e a dos outros maior do que nós, está tudo bem. Quando a nossa figura nos começar a parecer sempre esbelta, gira, impecável, e a dos outros sempre ridícula, que soem os alarmes). Como já escrevi, divertem-me e estimulam-me intelectualmente as entrevistas do velho Lobo. Devo-lhe a ele e a Saramago e à Rosário Pedreira estar édito. Posso brincar literariamente com o nosso meio, já o fiz, posso queixar-me da falta de lealdade e humildade em privado, realmente gostava de conhecer mais gente como o Afonso Cruz e o Rocha e o Miguel Roza e o Rebocho e a Mar e a Lacerda e a Cristina (e mais alguns), mas creio que os simples e claros serão sempre poucos, não adianta chorar, e o recém-chegado, também Afonso, é um menino cheio de pureza e potencial, não o cerquem, não lhe encham os ouvidos, digam só que não ligue, que "o meu irmão" é o velho Lobo, que o velho Lobo está a meter-se com ele e com todos os outros, como o Guerreiro e assim, que até confundiu teológico com gnóstico, mas isso sou eu a ser pedante, porque o Guerreiro é um tipo que também já cá anda há muito e temos é de o aturar. A verdade é que a maioria, entre os recenseadores e os autores, não sabe ouvir, dedica o tempo a destruir tudo em volta, mas, quando lhe apontam um erro, uma incorrecção de verbo ou postura, cala-se bem caladinha. Então, porquê perder tempo quando temos o velho Lobo a encher-nos a alma e até nos podemos rir com isso?

PG-M 2014

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