2014-11-14

Literatura da tapada, da pedreira e do ourives


Não sou crítico ou recenseador literário, nem aspiro a tal. Sou leitor há quarenta anos.

Recentemente, contraí a epidemia dos escritores que começam a ler em função do que querem escrever, e posso dizer que estou gravemente doente, já que poucas coisas me satisfazem e raramente consigo ler um livro que não me interesse como oficina. Em mais de uma década de blogue, poucas foram as vezes em que escrevi sobre livros. Este foi-me entregue de forma muito discreta e humilde pelo próprio autor. Não vinha sequer dedicado, eu é que fiz questão. Olhando para trás, devo tê-lo recebido com uma certa altivez e indiferença. Procuro sempre acarinhar a produção literária ou - se não puder ser literatura - a escrita, e recebo qualquer livro com entusiasmo e esperança de que seja a descoberta que me mate a sede permanente, mas desconfio sempre dos que têm ar de serem auto-editados, porque respeito tanto o ofício de editor e revisor profissional, que tendo a considerar menos quem parece não os ter, não os procurar, não perceber que são uma das essências da literatura.

Há também pessoas que se juntam e se querem impôr para fazerem o  diálogo da mediocridade e, quando nos falta tempo para lermos tantas coisas que temos a certeza de que são boas e nos fazem falta, posso levar essa mediocridade a mal. Às vezes levo. E isto acontece dentro ou fora do chamado "meio", embora, claro, aconteça mais fora do que dentro. 

Não estou fechado numa bolha literária ou artística, nunca estive, e, embora me perturbasse essa perda de capacidade da leitura pela leitura, este livro ensinou-me mais uma grande lição. Lembro-me do Saramago - entre outros - dizer que para falar de nós, mais vale não falar, lembro-me desta ideia reiterada pelos lábios da própria Pilar, talvez a primeira que expressou quando nos conhecemos, e também tenho presente a aspiração do Lobo Antunes ao silêncio. Então, num silogismo de taberneiro, diria que quem fala de si não se ouve. 

Ora, foram muitas as vezes em que procurei a literatura em bruto, sem escola que não a da leitura, a do ouvido e a da própria mão. Cesário Costa, neste "Memórias da Memória" (Editora Ausência, 2002) é praticamente, apenas e só, esse magnífico silêncio da vida, porque fala de si e da sua vida na sua terra e nos seus lugares entre o nascimento do seu avô e os nascimentos dos seus filhos. Também me recordo daquela ideia do Lobo Antunes: escrever contra os melhores. A verdade é que, à medida que ia subindo pela leitura do livro do Cesário, em espanto e, confesso, alguma comoção, corria a consultar o que tinha feito no "Livro sem Ninguém" e pensei, pensei tantas vezes, como este livro do Cesário é o Livro sem Ninguém com pessoas à vista, e como tinha sido bom eu tê-lo lido antes de publicar, porque, garanto, ia plagiar secções inteiras do livro do Cesário e depois pugnaria por não o convidar para lançamento nenhum e nem se chegasse perto do meu livro, para não detectar a desfeita.

Pois vi-me, na primeira parte do livro, e quase a cada parágrafo, a "escrever contra" o Cesário e a pensar na mão segura, eloquente, leve, que ele tem para descrever as casas, as quintas, os pinhais, os quintais, os hábitos simples, a pedreira, o alfaiate, como tinha sido bom importar para mim as cerejas "vermelho granada" que ele roubava e encher a minha horta de morangos. E eu sei que, se o meu livro tivesse gente à vista, este era o livro que queria ter escrito. O Cesário é um homem simples, com uma vida de trabalho desde tenra idade, e foi estudando, muitas vezes à noite, enquanto fazia quilómetros a pé, e foi-se cultivando - até porque nas suas linhas também se sentem muitos livros, muitas leituras, dedicação ao teatro. Mas eu creio que o mais notável na primeira metade do livro do Cesário (que a segunda é diferente), perfeitamente arrebatadora e imprescindível para qualquer gaiense de sessenta ou setenta anos (embora um bom livro seja imprescindível para o mundo inteiro), é a sua mão enxuta, que não deriva, que não se tenta exibir, que fala apenas do que conhece, do que sabe, esse silêncio. Mas, até aqui, na literatura da tapada, da pedreira e do ourives (notáveis as páginas em que Cesário descreve a arte de ourives no Porto dos anos cinquenta, sessenta do seculo vinte), é preciso nascer com a arte nas veias para poder lá chegar. E Cesário chega. Aliás, a primeira metade deste livro - a segunda também é boa, e não desemerece, mas é um relato biográfico mais plano, embora o livro acabe de forma muito bela, em epístola, aliás citada pelo ilustre prefaciador, Hélder Pacheco, embora eu considere a frase tão destacada ("Os pampilhos amarelos que cobriam os campos que conheceste, prenuciando a Páscoa, foram substituídos por prédios") no prefácio e na contracapa é superada por muitos outros parágrafos ao longo do livro. Por exemplo,

"Ainda no jardim, no fundo do quintal, em maio, quando ia pelo carreiro com a saca dos livros e da lousa às costas e os bolsos cheios de sameiras para jogar a "pincha", via reluzir na relva ainda húmida do orvalho algumas cerejas vermelho granada, expostas como rubis sobre o manto aveludado da relva, como jóias numa vitrina. Não era preciso comprá-las.

Delicadas, apanhava-as, umas intactas, outras debicadas pelos melros que cantavam melodiosamente mais acima na árvore, tirava-lhes vagarosamente a pele, saboreava-as enfim e corria para a escola para ter tempo de jogar qualquer coisa antes de tocar a campainha para entrar na sala de aulas do professor Queiroz.


A sensação era estranha e quase amarga. Imaginemos um quadro de natureza morta com esta cenário. Sentia que o estragava quando apanhava as cerejas vermelho granada do chão."

Tão bonito, não é? E há tantas passagens assim. E é curioso como eu também acabo por recorrer, no Livro sem Ninguém, à ideia das naturezas mortas que suspendem em si a arte.

Qualquer livro beneficia de uma boa revisão e edição, e este não as tem, mas seria injusto para o Cesário que isso fosse destacado, porque foram tantas as palavras notáveis que sublinhei como as vírgulas e os acentos fora de sítio e um ou outro lapso, que servirão para que lhos possa mostrar e a próxima edição saia perfeita. E os lapsos são raros e esparsos, ao contrário do que detecto em tantos manuscritos de aspirantes que me são enviados, e provavelmente menos do que os dos meus próprios manuscritos pacientemente revistos e editados pela Maria do Rosário Pedreira. Aliás, o que ficará para a vida - sim, posso dizer que raras vezes tive, nestes quarenta anos, tanto prazer a ler um livro - será o paradigma do Cesário, que me servirá perante todos os aspirantes: vejam lá como se escreve como quem revolve a terra ou incrusta pequenas pedras preciosas. O Cesário escreveu, literalmente, o livro da sua vida, que pode ser o livro da vida de muitos. E não é um livrinho engraçado. É um livrão.

Um livrão que congela numa belíssima fotografia o lado mais belo de um tempo que já não volta, e que é o nosso, se temos sessenta, setenta, o dos nossos pais, se temos trinta, quarenta, ou o dos nossos avós, se temos dez, vinte anos. Não se esquece. Agradece-se. Obrigado, Cesário.


PG-M 2014
foto do Cesário

5 comentários:

Cristina Torrão disse...

Lindíssima e sincera homenagem a um livro que, não tenho dúvidas, o merece! É minha convicção de que qualquer vida merece ser contada, tudo depende da maneira como se conta.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Beijinhos, Cristina :)

Denise disse...

Adorei :)

redonda disse...

Será que podemos encontrar o livro na Fnac ou na Wook? Vou procurar nos seus sites.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Encontra o autor facilmente no Facebook. Cesário Guedes da Costa. Ele, certamente, lhe dirá.