2014-11-18

Caixa com Mulher dentro

 
E agora que a noite te vai levar no corso escuro
E os teus olhos estão cerrados de esperança
Agora que é infinito o passado e urgente o futuro
E o teu coração vai azedo da passagem
pelas portas mais pequenas das
casas

Agora que as mãos te doem e o sabão te humilha e os arames do estendal
te perfuram
a linha da vida e os dígitos estão negros
Agora que as tuas pálpebras estão queimadas por cubos de solidão e incêndios que rebentam na cozinha e as luzes fluorescentes te entorpecem
Agora que o teu corpo está no fim e ainda prestas vassalagem às mochilas
e já não tens braços mas puxas a roupa da máquina para dentro da tua própria bacia e cais para trás e bates com a cabeça há muito afogada por todos os teus papéis secundários na parede do vestíbulo

agora que todos excepto o mais velho que não chegou do treino e o marido que não chegou do golfe
dormem
e tu estás morta

tens um recado na mesinha de cabeceira que ele deixou antes de ir para o campo às três da tarde e ainda não voltou com a pergunta que no teu funeral parecerá a metafísica de uma vida rutilante:

e se amanhã despachasses os meninos mais cedo para o treino com umas sandes nas mochilas e fôssemos ao cinema ver aquele filme de que a minha secretária me falou e que eu até te expliquei que gostava muito de ver porque é uma espécie de remake do Rocky quando estavas ontem a estender a roupa e eu vim cá fora buscar os tacos, não sei se ouviste

e ele vai ler emocionado aos amigos enquanto te limpa os lábios frios no caixão

o desespero do velório durará a noite em que deixarão o teu corpo sozinho na capela mortuária,

o desespero durará,

não o teu último sorriso,
mas o inútil putter
que ele guardou irritado à pressa na mala do carro
quando o primeiro de todos os filhos lhe ligou
a dizer que ninguém abria a porta

nunca mais

foda-se para esta merda a tua mãe
é sempre a mesma coisa adormece
a ver a novela e um gajo que se lixe

e um gajo se lixe,
meu amor


PG-M 2014
fonte da foto

2 comentários:

perdigota disse...

Já cá não parava há algum tempo e deixa-me dizer-te, este texto tem o pior e o melhor timing de sempre.

Pima

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Olá. Então porquê?