2014-11-05

As mulheres perfeitas de Lisboa

Não há mulheres perfeitas. A não ser no metro de Lisboa. Era isto que te queria explicar ao café, quando me achei tão comovido contigo que as minhas palavras habituais se demoraram na garganta – o que, já se sabe, faz chorar os olhos e dar a desculpa das rajadas que percorrem os becos de Telheiras e levantam uma poeira subtil que irrita a córnea. As palavras por habitar formam frases surdas e fazem com que os lábios se entreabram sem nada – mas, do mal o menos, os meus lábios são bonitos, carnudos, e, favorecendo-os a boca fechada e o silêncio, não desmerecem das hesitações. A língua avança, humedece-os, e eu tenho de reformular e tu

- Diz.

e eu, não há mulheres perfeitas. A não ser no metro de Lisboa. Se guardares o telemóvel no bolso e te ergueres acima da massa que se fecha na luz programada e sistematizada do mundo sem vento dos ecrãs, verás. São olhares que elas não confiam a ninguém. De que não abdicam. Com efeito, até os inibem e escondem. Se estiver uma já sentada na estação, evitar-te-á até a composição retomar a marcha. Mas, no momento em que a vais perder, dá-to. Normalmente esses olhares queimam, tu entras em sobressalto, há um desespero quântico e logo te focas na estação seguinte: Arroios. Na vinda, tinha sido uma miúda pálida que tinha o polegar fixo no ecrã do telefone e escolhia sempre um ponto neutro como objecto, ligeiramente descaído para a esquerda do eixo que se pode traçar entre as tuas pupilas e as dela. Os lábios pintados de vermelho e o cabelo a várias matizes, não de tintas, mas de luz. Perdeste-a na de Roma. Esta era insubstituível. Na volta, a miúda era outra, morena, romani, e olhou-te de frente mal se sentou – mas foi a única vez que te olhou. O telemóvel era um pretexto. Tinha os cabelos pretos a escorrer em flocos e ia recebendo uma combinação de sombras e halogéneo. Os olhos meigos com umas longas pestanas.


Estou a falar disto para não gaguejar nem dizer que a perfeita és tu. Isso e que escrevo como quem fica exangue. Corto os pulsos e as palavras saem. Estava escuro dentro do café e tu brilhavas e tinhas contornos definidos. O cabelo negro, os olhos negros, os lábios com o rigor da beleza genuína. Não sei se acreditas nisto de aplicar matemáticas ao que se eleva acima do primordial, do animal. Concordamos que não há nada de natural na monogamia, e aí convém-nos ficar frios, no chão, sem arrebatamentos, como cavalos a bater os cascos no tempero exacto das suas aspirações. Sabemos apenas que, quando as crinas esvoaçarem no espaço, a galope, já tudo será possível. Já tudo será nosso. A minha comoção explica-se por reconhecimento. Primeiro a bondade, depois a clareza, e, à medida que a conversa vogava, subia, descia e entrava em nós, como as bicas, o sumo, a cola, a leveza. Agora tudo é possível a galope pelos campos ou pelas linhas ou pelas estradas ou pelas praias, um beijo ou um corpo, o silêncio ou um braço, as mãos cingidas e os perfumes. Reparaste como os perfumes fizeram o seu percurso sozinhos, apesar de nós? Como eles, a pele. Como eles, as mãos sobre a mesa. Como eles, os olhares. Olhares directos, longos, cheios, com o jogo mais puro. Rayuela. Não há mulheres perfeitas. Excepto no metro de Lisboa.

E nos cafés de Telheiras.


PG-M 2014
Foto de Luigi Morante. Fonte.

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