2014-11-23

ALA que se faz tarde (e há uma Margarida no campo)

Lobo Antunes: "(...) Porque é que a literatura portuguesa é tão má?
Isabel Lucas: É? 
Lobo Antunes: Não é? Acho que a Ana Margarida de Carvalho fez um livro bom. (...)"
Ípsilon (suplemento do jornal "Público") de 7-11-2014, p10

 
Um sorriso. Uma epifania. Somos todos uma merda, pá. Somos mesmo. A espaços podemos ser bons, sim, mas temos o tempo de permeio. O mesmo que nos permite olhar para Conrad com algumas certezas. Algum tempo para as apneias da Herta Muller. Para o Lobo Antunes com um misto de respeito e ternura e tanta reverência. Somos todos uma merda, excepto a Ana Margarida, que acabou de ganhar um prémio importante e merece este pedestal, esta semana de glória, este prenúncio do Lobo Antunes, que provavelmente ela sente como tão grande ou maior do que o prémio (eu sentiria). Dois terços de nós são perguntas, o outro terço certezas, nove em dez delas parvas e uma clara, transparente, e só de década a década, ou pelos bissextos, se tivermos sorte, elas nos chegam. O que eu sinto perante o Lobo Antunes é gratidão. Sei que, se eu tiver a sorte de ele um dia pegar num livro meu e uma pedra preciosa brilhar fugazmente nesses olhos profundos, azuis, encantados, uma só frase de milhares que ele passará com enfado, terei ganho um tempo que não é meu por direito. Esta pergunta é um pedido, uma esperança permanente, nenhuma crítica. Que sorte que eu tenho de ser contemporâneo, leitor, aprendiz e ter vindo a ser companheiro de editora de um homem que, sempre que se senta a falar de literatura, nos desmancha e nos chama para a luz. Obrigado, pá!

PG-M 2014
fontes das fotos: ALA e AMC

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