2014-10-18

Porch


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé
ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse
o terreno perto da casa é seco
há um pequeno bosque a separar-me da estrada
os fumos são comestíveis
o da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem
todas as noites de outono, de se encolherem
todas as noites de inverno, de abrandarem
na primavera e de pararem
no verão
o fumo é o segredo do bosque, fica entre copas
com um sopro, levanto a tempestade
é fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz
a tinta branca estala sob os meus dedos
no meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa
ao fim da tarde
às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste
com a voz côncava que o tabaco me devolveu
o canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu
há lágrimas moucas
identidade
o fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo
o do meu charuto encobre-me a cara
estrelas enfim
a luz no centro até depois do jantar
ninguém sai da estrada
ninguém vem
antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo
estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima
o mundo pousa
a última passa nunca chega ao fim

PG-M 2014

4 comentários:

Virginia disse...

Ler este texto na California dá um gozo especial....

Como ouvir os Azeitonas........anda ver os aviões......obrigada pela partilha, Pedro.

Abraço

Virgínia

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado! Estás onde, Virgínia?

Virginia disse...

Estou em Mountain View, mas vou partyir para o Porto na $ª feira. Estive aqui três semanas com a família do meu filho. Visitei as Yosemite - espectáculo! San francisco tb adorei....a Beat Generation ainda está viva!! :)

Abº

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Uau! Tens de Imprimir este e afixá-lo num Porch. Manda foto.:) É um oportunidade única :)