2014-09-12

Namora o falcão na tarde do mundo (e cuida da cerejeira)


O dia mais duro do ano. 11 de Setembro, 13º aniversário. Os juristas, quando numa assistência, são ilhas. Já não te lembravas disto. E como as conferências raramente acabam com sessões de autógrafos, os juristas partem e confessam-se longe, de costas, ao frio.

Ontem esteve quente naquele jardim.

Das cerca de quartenta pessoas, dois terços eram mulheres. A mulher é um ser superior, daí a tarde - junto à cerejeira, entre os voos do falcão - ter-te parecido a tarde do mundo.

Lembras-te de que o direito e os advogados esfriaram e esvaziaram ao longo dos anos oitenta e noventa, quando nos campos se plantavam cogumelos e faculdades de direito e antes de os bastonários serem eleitos pela televisão. Ouve lá a surpresa: aquela assistência já não era leve, nem frívola, nem cinzenta. Era densa, focada, luminosa. Mesmos os homens, repara bem, os homens advogados, estavam dotados de empatia às duas pernas, e o elemento, a condição, erguia-se nos braços pousados - mas principalmente nos sorrisos contidos. Mas elas, Marlene, elas eram completas - umas intensas, outras luminosas, uma ou outra com a  desconfiança justa do que lhe estavam a vender.

E tu sabes que nunca vendemos nada.

O João poupou o maçarico - a Rita não podia ser, a Rita não podia mesmo ser, era demasiado bonita e ameaçava ler bem e não podia. O João não leu bem, mas teve a coragem de deixar o poema tomar conta dele, de não levantar muros.

May I feel said he, E. E. Cummings, 1935

Há outras gargalhadas e estes advogados são mais altos, mais completos, mais distintos, como se voltássemos ao tempo em que a lealdade começou esta história de amizade com o Falcão e que a paixão por dragões continuou com o Cerejeira. Namora o falcão na tarde do mundo. E cuida da cerejeira.

E depois disseste tu, assim. Antes apresentaste-me os livros como poucos e eu perdi-me na paixão pelas minhas profissões de advogado e escritor. Tê-los-ei perdido a eles, também?

Tu e eu sabemos que no direito há menos pessoas com a doença dos livros, sabes que as queremos reconquistar, toldar num primeiro momento, tragar num segundo, falar de pele, de sangue, de pulsações, de vísceras, num terceiro.

Ontem, afinal, foi tudo à primeira.

Na placa diz Nuno Cerejeira Namora, Pedro Marinho Falcão e Associados. O modelo pode parecer um daqueles eventos bonitinhos em que se exalta um colectivo à custa da arte: um escritor apresenta-se no jardim de um escritório de advogados nobre. Olha que bonito.

Afinal deixámos lá o corpo.
E trouxemos os corpos deles.

Do Eduardo, do Pedro, do Miguel, do João, da Adriana, da Joana, da Angelina, do Nuno, da Rita, da Francisca, da Ana, da Leonor, da Sara, da Filipa, da Sofia, do Vítor, da Tatiana, da Susana. De todos.

Que surpresa, Marlene, como os decobridores de antanho, vamos Mar dentro insensatamente, afinal, todos descobrimos livros,

we do all feel.

PG-M 2014
foto de NM, PMF & Associados

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