2014-09-23

Luís Miguel Rocha, claro


Digo o teu nome.
Muitos de nós conhecemos este lugar, ou porque por lá passámos, ou porque por lá passaram aqueles que amamos e até alguns que não amamos.
Talvez a única diferença seja a indiferença.
Importarmo-nos realmente com o outro é transferirmo-nos para dentro dele. Não devemos tentar adivinhá-lo à nossa imagem, não devemos dizer para nós próprios, convenientemente, que talvez seja melhor não incomodar. Vale muito mais a pena arriscar uma resposta dura ou um pedido de não interferência do que, pura e simplesmente, passarmos a ideia de indiferença ao herói que carece da nossa diferença.
Não há melhoras externas, há melhoras íntimas. Não há estranhos nos momentos maus. Não há inimigos ou inconvenientes à vista de um olhar claro, tímido, temoroso, de uma pessoa que se preocupa connosco.
O cancro não é uma doença do passado, mas do futuro. A boa vida e a vida melhor farão com que nos cruzemos nestes corredores e nestas florestas em maior número e muito mais vezes do que no passado. A boa notícia é que a maioria vai poder dizer que venceu. Mas para isso é preciso lutar - e para cada batalha temos de constituir o nosso exército. Cada um escolhe seu. Há quem o queira feito de poucos soldados, outros apenas de silêncio e livros, outros dos seus amores, outros ainda de solidão, para que possam declinar a doença no passado e nunca no presente.
Esta é a árvore que faz sombra (para trazer luz) ao Luís Miguel Rocha, meu par das escritas e meu amigo de algumas viagens únicas. E eu tinha de escrever publicamente no mesmo dia em que ele torna público este sofrimento e este combate. As coisas boas não se guardam para depois. Não somos amigos acríticos um do outro - as primeiras perguntas que lhe fiz foram sobre o passado que eu não conheço. Ele, mais voluntarioso, aceitou-me tal qual. Tive sempre o cuidado de lhe pedir para nos atermos à matéria, à essência, não à aparência ou à forma. O tempo em que alimentamos esta amizade tem sido denso e intenso, cheio de coisas significativas. E, ainda que me repita - prometo que não insistirei mais, Luís - e ele me proíba os superlativos e os comparativos, o Luís Miguel Rocha é o meu escritor do ano, tanto foi o que aprendi com ele na relação prática, real, com leitores e livreiros. Ele será sempre mais sábio do que eu nesse departamento. É a ele, mais do que a qualquer outro, que se deve a coragem do protesto de escritores (um acto raro no meio literário) pelo fim da feira do livro da Apel no Porto. Ironia, teve de faltar à primeira feira livre - que, mesmo com alguns tiques de elitismo que todos os tripeiros dispensam, é uma festa que também tem de ser dele -. Não vigora entre nós o critério do "peso" da literatura, mas apenas a seriedade da relação com os livros, os leitores, os livreiros. Vocês deviam ver a adoração pelo Luís no Brasil, a festa que lhe faziam no Teatro da Urca - o aperto dos abraços. O Luís não quer um pedestal, nem eu lhe vou dar um, que esses ficam para as nossas mulheres, para os nossos amores. Mas eu não sei mentir - tenho essa infantilidade primordial - naquilo que escrevo, e só escrevo o que quero e porque quero. E escrevo sobre ti neste dia, Luís, porque tenho medo. Talvez não o medo específico da tua doença e destes químicos agressivos que te podem salvar. O medo de não te dizer as coisas devidas no tempo devido. Nenhuma homenagem é um cheque em branco, mas poucos homens me pareceram maiores do que tu neste ano. És franco, prático, directo, disponível, certeiro. É bom ver-te escolher as palavras. E o humor e a ironia. E cresces, e deixas-te crescer. E vais ganhar, por nós. E, ainda que tenhas direito a eles, os espaços vazios de ti ficam sem sentido. Porque foram fundados por ti, ó bestseller português no New York Times, ó rapaz bravo.

Hoje tornaste pública a tua luta. Num círculo mais restrito - que é um círculo onde, creio, cabem todos os que vierem por bem -, já tinhas feito saber o que sofrias há algum tempo. Quem conhece estas florestas, sabe bem o que ganhamos em estar perto dos que sofrem, e como ali nos esquecemos de que somos um deles. Eu gosto de saber que vais agora colher os abraços de todos os que gostam de ti e te respeitam. Tantas são as coisas dos nossos dias que ficam pequeninas à vista disto. Somos muitos a sofrer, mas assim fica mais fácil. E agora todos perceberão e respeitarão se tiveres de levantar a cortina outra vez. Mas não é inútil a torrente de amor que te vai chegar. Ainda que o essencial seja a pessoa, aí ao lado, a quem podes apertar a mão quando magoa a sério. E quando tens medo.
 
Sim, caminha entre essas árvores, agora. Mas não demores.

Entretanto, aqui, dizemos todos o teu nome, Bazinga.

PG-M 2014
fonte da foto: Luís Miguel Rocha, o próprio

PS: Toma lá, BAZINGA!

 

18 comentários:

helena frontini disse...

Conheço-o pela escrita. As suas palavras confirmam o que imaginava dele como ser humano. Vai vencer esse maldito mal!!!

macy disse...

Tocante... bonita homenagem ao teu amigo. Que lhe vai certamente saber como um néctar dos deuses...

Beijinho
Teresa Carvalho

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Helena e Teresa

JP disse...

Há lágrimas que lavam... estas que me deste são maravilhosamente higiénicas!
Obrigado, Pedro!

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado eu :)

mariazinha disse...

Beijos para ambos. Acho que é só isto. :)

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, M!!

elisabete sendim disse...

adorei esta homenagem! alem de grande escritor é e sempre foi uma pessoa admirável!!!crescemos juntos e sempre o vi como é, inteligente, sincero e muito boa pessoa Luis Miguel tu ja és um vencedor e esta é mais uma dura batalha que vais conseguir vencer beijinhos
Elisabete Sendim

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Elisabete.

Fernanda Palmeira disse...

Este sim, é um abraço do tamanho do mundo. Obrigada por o tornar público.

Suzana disse...

Fé e esperança é o que desejo a todos os portadores desta maldição, sim não se trata de uma doença, mas sim uma maldição que nos assombra todos os dias, perdi meu pai há bem pouco tempo para esta maldita, mas mesmo já em agonia, como lhe chamam, senti naquele seu último aperto de mão a réstia da força e esperança de viver nem que fosse mais um minuto... Parabéns pelo texto, não pude conter as lágrimas pois relembrei tudo aquilo a que já assisti... ESPERANÇA E FORÇA SEMPRE

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Fernanda.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Suzana

São Ribeiro disse...

Já sabia algum tempo pois a minha mãe é vizinha da dele.
É uma dura batalha que pode ser vencida
Adorei cada linha do que li, parabéns
bjs

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, São.

Ana Cristina Rocha Pinto disse...

Obrigada Pedro, ele adorou este texto... As árvores não foram suficientes para salva-lo desta maldita doença... Mas ele sentir-se bem lá... Como sempre estava tudo bem... Está tudo bem..........

Ana Cristina Rocha Pinto disse...

Obrigada Pedro, ele adorou este texto.... As árvores não foram suficientes para o salvar. Mas ele sentir-se bem lá. Estava sempre tudo bem.. Está tudo bem

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Ana