2014-09-13

Homo Literatus XXI (e a feira-do-livro-mesmo-do-Porto)


Primeiro ponto prévio: só o meu leitor me é hierarquicamente superior na literatura - o acto de criação só responde perante aqueles para quem cria.

Segundo ponto prévio: o meio literário não foge aos tempos que vivemos, os da mediocridade nos vários poderes. Os tipos de mediocridade no meio literário são de várias ordens e feitios: estão também em alguns que já deram muito à literatura, e que não resistem a ser arrastados, de vez em quando, para os níveis rasteiros e a fazer juizinhos ou a adoptar atitudezinhas; estão em alguns escritores que se vão munindo de certezas parvas e as vão difundindo por aí; estão em alguns organizadores de eventos literários que começam a achar-se importantes por conviver com alguns grandes; estão nos que citam grandes nomes e criam cultos, tornando-se animais acríticos dentro dos cultos e descontroladamente histéricos fora deles - alguns até usam as redes sociais para exaltar moderamente e apoucar furiosamente; estão nos que se aproximam dos pares para os apoiar no frontispício e trair pelos fundos; estão nos, poucos, medíocres desonestos, ou nos desonestos de qualidade, a que não podemos fugir, sob pena de nos tornarmos eremitas; estão nos que dão opinião apenas à sombra dos outros, ou depois de lhes perceberem a inclinação; estão, pois, nos que querem estar de bem com deus e com o diabo; estão em todos os que perdem a curiosidade e o encanto.


Mal nenhum em simpatizar com medíocres - há pessoas verdadeiramente simpáticas que nem sequer têm consciência de o ser, tal como mal nenhum em odiar génios (o problema talvez esteja no "odiar", não no "odiar génios"). Há sempre casos práticos contemporâneos desta evidência. Neste preciso momento o ódio a Saramago vai-se esbatendo com a sua não existência física, mas persiste viva aquela "impressãozinha" do costume ao Lobo Antunes. Aliás, eu tendo a simpatizar com os medíocres, ou porque sou um deles, ou porque há sempre uma animação pungente na forma como se olham e se aplaudem, como se têm em boa conta e como defendem o espaço que ocupam, encarando-se como concorrentes. E até acham que estão certos, que a literatura é apenas isso: mais um comércio.

Esta gente raramente estima os maiores entre os seus contemporâneos.
Mas, mesmo quando se quer matar ou considerar morto um consagrado, há um erro ético na crítica. Outro filosófico. Outro social: não devemos desassossegar os mortos.

Há também quem escreva que tem saudades de uma boa polémica literária à moda antiga que, dizem, quase deixou de existir. À distância, o ataque pessoal é motivo de sorriso. Na contemporaneiade, nem por isso. Mas até isso se contraria: um bom debate de ideias não tem de incluir o ataque pessoal, não precisa, os grandes, os mesmo grandes, sabem ser elegantes. Claro que houve e haverá sempre grandes que eram e são também grandes bestas. Mas deve investir-se mais na ciência, menos na vaidade, no narcisismo e no egocentrismo.

Não advogo que desprezemos sumariamente os que consideramos errados ou fora de foco - mal nenhum em discordar. E não o advogo, em particular, na Feira do livro que renasce na cidade onde nasci e que acarinho com todas as minhas forças. Não quero bichanice entre as pedras do Porto, embora saiba que ela é, na prática, inevitável. Mas para tal devemos enfrentar esses maus hábitos e tentar trabalhar com quem os transporta, em vez de lhes virar as costas.

Fui ao Brasil com dois best-sellers, tantas vezes ostracizados nos meios provincianamente elitistas, e aprendi a simplicidade e a essencialidade da relação com os livreiros. Aliás, a experiência brasileira foi única, e escreve quem está presente e observa os festivais literários, como utilizador e leitor, há muitos anos, e gosta menos deles como escritor. É raro encontrar um espectro alargado e diversificado como o que levámos a este festival brasileiro, em que todos aprenderam com todos e nem por um momento se perdeu tempo a falar de personalidades. As conversas, incessantes, foram, aliás, surpreendentemente ricas. Acontece que os festivais literários nacionais estão a ficar planos, normalizados, estão a perder intensidade e densidade, e momentos como os que o Rubem Fonseca protagonizou na Póvoa são cada vez mais raros. E aconteceu porque era o Rubem Fonseca, não porque foi na Póvoa. Sem desprimor para os nomes que estão sempre em todos os festivais, muitos deles de pessoas com valor, outros nem por isso, e para o trabalho meritório de criar artistas pop na literatura, que é bem preciso, já era altura de nos deixarmos de manias e de tiques de elitismo.



A verdade é que falta Porto ao Porto. E Porto sem Porto é que não. Pelo menos nunca mais. É com alegria que recebemos todos, mesmo os que o ano passado tiveram medo de apoiar a mais pura iniciativa literária que conheci, um momento histórico de protesto de escritores contra os tiques de uma Apel que, recordo, interrompeu uma sucessão histórica de 83 feiras do livro com uma motivação espúria e, lá está, mesquinha: punir politicamente a equipa camarária de Rui Rio. E eu sei porque fui uma das centenas de pessoas que ofereceram à Apel alternativas sólidas e irrecusáveis. Muitas dessas centenas de pessoas tinham apoios que superavam largamente os 75.000 Euros pedidos pela Apel. E garanto-vos que a presunção e o pedantismo nem sequer quiseram ouvir. Quiseram apenas punir. Motivações tão pequeninas que o Porto não pode perdoar. A não ser que lhe peçam desculpa. Ao Porto e a nós, tripeiros.



 Verdade seja dita: expus estas preocupações à organização da actual Feira do Livro do Porto. Apesar dos muitos defeitos que lhe podem apontar, ouviram e acolheram. Estavam mesmo dispostos a promover um debate que eu considerava essencial entre homens e mulheres de pêlo na venta como são os nortenhos, e que tinha de contar com os protagonistas do protesto livre de 2013. Dificuldades de agenda já não permitiram esse debate, mas uma livreira e escritora desassombrada acabou por ter uma atitude à moda do norte: fez constar todos os nomes no programa, embora o meu fosse dispensável, porque tenho fraca presença e trago pouco para lá da palavra escrita. Mas vou lá estar, isso vou, e com muita honra, na última tarde do último dia de feira, dia 21, a conviver com os leitores no meio da Avenida das Tílias.


Há uma falta, sim, há uma falta importante, e eu vou trazê-lo aqui e agora: o Luís Miguel Rocha.
Este rapaz, estre tripeiro, esquecido e olhado de lado pelo meio literário durante tantos anos, e que um bom trabalho de livreiros e agentes tem trazido mais para perto de nós, é só o escritor com quem mais aprendi neste último ano. Entre nós, e naquilo que posso divulgar, ele sabe que eu sei que ele sabe (uf!) escrever mais do que o necessário para best-sellers - basta tomar contacto com o primeiro de todos os seus livros - e estou ansioso que ele entre por outros campos. Mas ele ensinou-me tanto, a mim e a outros. Ensinou-me a relação essencial com os livreiros. Ensinou-me a atitude correcta, e tenho até a certeza de que nesta altura me corrigiria todos os superlativos. E basta olhar para a forma como ele construiu o seu percurso para perceber a lição que deu a tantas editoras que ainda não sabem vender livros ou chegar mais perto do leitor.

E, sobre este ano, o último raciocínio que fiz foi muito simples. Ainda que seja preciso mais Porto, porque todos os escritores portuenses gostavam de estar presentes para receber e festejar os seus pares - e não estão -, ainda que se dispensassem os tiques elitistas,  se eu vou à feira lisboeta da Apel por respeito aos meus leitores e à minha editora, vou ao meu Porto.

Tenho pena, muita pena, que a principal editora da minha cidade, e que tem o nome dela,  a Porto Editora, provavelmente o maior grupo editorial português do momento, não esteja presente na feira. Entre a PE e a CMP, há certamente gente menos iluminada, não faço ideia se de um ou de outro lado - ou se de um lado estranho a ambas, um qualquer outsourcing moderno -, mas que não podem nem devem afectar o prestígio de ambas as instituições, desiluminados que ainda não perceberam o que está em causa, tal como tantos no ano passado. É triste quando a História tem de contar com esta gente que dá cabo dela. A verdade é que, "até ao fecho desta edição" ainda não tinha sido possível apurar porque é que a PE não estava na feira. Mas era o mínimo que a PE e a CMP podiam fazer pelos leitores: explicar porquê. Não explicam porque, disso não tenho dúvidas, nenhuma motivação é maior do que o leitor. E, para explicações pequeninas, pensam eles, mais vale estar calado. Era bom, no entanto, ver mais coragem.

Já poucos conservam aquela sabedoria que já quase não existe na nossa geração. Talves seja impossível voltar. Mesmo entre os mais cultos. Não há tempo. Mesmo que haja muito mais tempo do que o que dizem. Mas ficam as saudades dos que verdadeiramente sabiam e sabem disto.

Onde ficam os livros nisto? Não ficam. Verdadeiramente não ficam. O Homo Literatus XXI tem pouca literatura e sabedoria em si. Salvam-nos os leitores, os que estão no topo da hierarquia. Mesmo que vos custe.


PG-M 2014
fonte da foto: jornal Público


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