2014-09-27

Dia 27


O dia vinte e sete é o último
em que te escrevo poemas
para que me poupes

nesta madrugada
chegarás de novo
com punhos em vez
de dedos
dentes em vez de
lábios 



e, com sorte,
(tu tens é sorte, cabra)

desmaias

dentro de mim

nunca me perdoaste a sombra disforme

do teu corpo pequeno 

 nunca me perdoaste o silêncio apagado

na arena,
nunca me perdoaste a luz transparente

dos filhos


nunca me perdoaste
o fingimento
nas legendas
do facebook


("maravilhoso fim-de-semana
com os meninos
em Formentera"
Click.)

fingia
sempre
a vida de sonho
com o homem
que me havia de
consumir até

à última
gota



se fosses vampiro, se ao menos fosses
vampiro

os sorrisos e as corridas
pelas promessas de
sexo
são hoje gritos e cercos
por
promessa nenhuma


há um quarto vazio em cada lágrima



ainda posso remendar os ossos
ainda posso remendar a cara
ainda posso remendar no tempo
o sangue que me estala sob a pele

já apaguei os vídeos
e as fotos felizes que,
depois de te matar,
não suportarei rever

agora vou apenas transformar
o choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pela mãe ferida

em choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pelo pai morto



PG-M 2014
fonte da foto

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