2014-09-25

Dia 25

Ao vigésimo quinto
dia decreto
que o mês acabou

e, desmedido e visceral, no pé direito da casa novecentista,
ouvindo o piano do nosso filho do outro lado da parede
longe de ti e do som da televisão, sumido, dolente,
as bolas de cotão da manta escocesa a vogar
no rasgo de sol que sangra da lucerna,
como se fosse domingo
e sem medo,

sem medo nenhum

amo-te

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
para quem és toucado e
indumentária
função e plano
objecto e
critério

devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta
retira o meu cheiro do arquibanco
tapa-me a boca, cala-me as ominosas
disquisições

ai, ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove

espero mil anos por ti

não vês que o amor não são
dias
em janeiro esperas
fevereiro
em março abril
em maio junho
em julho agosto
em setembro

temes outubro

aceitas novembro e
em dezembro finges

no primeiro dia da semana
pensas no último
no último
no primeiro

no dia um
não aceitas o fim
no dia dois dói-te
no dia três, quatro, cinco começa o
imperativo
no dia seis, sete, oito, nove, dez,
estás no centro,
estás dolente

(recorda o sol na lucerna)

poucos sabem que o Plátano
é o ginásio do mestre
o lugar onde se ensina
o lugar onde  se cresce

e a plateia

lembras-te do meu Plátano
erguido à cúria de poetas?
a dizer-lhes que a plateia
és tu, não eles,
que nada, meu amor
te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

onze, doze, treze, catorze, quinze,
só os teus lábios me abrandam,
dezasseis, dezassete, dezoito,
só os teus beijos me calam,
dezanove, vinte, vinte e
um

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

vinte e dois, vinte e três,

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

vinte e quatro

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta

vinte e cinco:

ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove


espero mil anos
por ti


PG-M 2014
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