2014-09-01

Clown Laboratori Porto


Como expliquei mais extensa e profundamente na entrada "(não) exercício de teatro pleno", talvez eu não ame nem seja apaixonado pelo teatro: dizem que o amor é incondicional, e o meu amor pelo teatro não é. Ou teria de me atrever a chamar não-teatro às tentativas afectadas de massacrar plateias com tédio e encenações pretensiosas de textos que, em si, o não continham, já para não falar das obras sobrevalorizadas de certos gigantes. Mas não me vou atrever, para já, a questionar o grande, sendo tão pequeno. Venho antes fazer aquilo que gostava que fizessem mais vezes: dar-vos um conselho firme. E ele é:

Sempre que o Clow Laboratori Porto monte um espectáculo, não pensem duas vezes: vão ver.

Sábado era um dia em que me apetecia estar no teatro.
A oferta portuense é, contudo, neste Agosto, muitíssimo pobre. Nem sequer há um portal decente e integrado que ofereça um cartaz de teatro. O menos mau ainda é o Guia do Lazer, do Público, que contudo continha um erro: colocava uma certa peça com um nome estranho, "LABARÉ 3: A MORTE" com duas horas de apresentação diferentes e em dois locais diferentes, o que foi esclarecido ao longo da tarde: bastou enviar um mail ao Clown Laboratori a perguntar "onde fica a morte?". A morte respondeu.

A apresentação era em Vila do Conde, onde, por acaso, havíamos estado nessa mesma tarde. Voltamos a Vila do Conde? Depois do que li e vi, tinha uma fé. É certo que que estávamos com a pele ainda sensível de uma sessão de tédio numa noites de curtas vilacondenses (na competição nacional, porque na interncional tivemos o estonteante e poderosíssimo "Habana", de Edouard Salier), entre outras más experiências teatrais.

Essa fé veio-me dos pedaços de quadros que espreitei no facebook do Clown Laboratori Porto ou no canal do youtube da mesma companhia, que é uma plataforma em formação contínua. Tentando não ver os quadros completos, para não estragar a experiência do vivo (hoje sei que não estraga, porque se sentem de outra forma e se volta lá para rir mais): em vários lugares, em várias noites, havia uma coisa em comum: riso, muito riso, compulsivo riso.

Na nossa noite houve dois risos singulares: um bebé que o dobrava e uma rapariga que perdeu as estribeiras, divertindo-nos a todos - estava desesperada de tanto rir. Ao que sei, isso acontece amiúde, ataques de riso de rebolar pelo chão, e o que foi particularmente grato de "observar" (ouvindo) foi o momento e as personagens que activam mais ou menos o riso a esta ou aquela pessoa. Como se a clareza e a lucidez tivessem descido sobre todos no escuro, o riso de cada um parecia separado do riso dos outros, identificável, juntando-se durante os quadros, como ondas. A verdade é que na noite de Vila do Conde toda a plateia riu muito, cada um em momentos diferentes, muitos nos mesmos, mas riram. Eu tenho dito que há uns vinte anos que não me ria tanto - e com o cérebro a funcionar.

Muitos de nós dizem que não gostam de palhaços, sendo certo que a maioria se quer referir aos palhaços clássicos, o rico e o pobre, de circo. Para quem desconfia da palavra e do conceito, fica de pé atrás logo na sinopse, mas o pé não resiste quando, nos vídeos do facebook ou do youtube, se ouve as pessoas rir. Quem não quer soltar os fantasmas, rir até ao limite da resistência fisica? Afinal, o que este colectivo de gente virtuosa nos traz é um bem escasso.

O palhaço moderno é cáustico e inteligente. A minha mulher diz-me que o meu pico de gargalhadas e choro misturados aconteceu no quadro das carpideiras. O estudo do choro é tão belo, tão preciso, tão contundente, tão realista até, se quiserem, que nos desarma. Que me desarmou o corpo e a alma: ai, obrigado, obrigado muitíssimo. Lembro-me também do quadro dos cantores líricos em "alemão macarrónico" (nunca vi inventar tão bem a sonoridade do alemão), onde a personagem da "Morte" - mérito do actor Janela Magalhães, mas depois de todos os outros que a vestem - nos conquista definitivamente.

Para ela, o momento de descontrolo (porque é isso mesmo que acontece) foi o quadro talvez mais básico e histriónico: os patinhos. Não vou contar, mas há algo de incrível na exposição da estupidez à grande inteligência, que é o que acontece em toda a peça.

Corajoso e sintomático o quadro do Cristo com sede que, confundido com um Zé Manel, percorre também a peça.

Mas creio que, sendo todas as palhaças e palhaços memoráveis (memoráveis mesmo), a mais desconcertante é esse mulherão que é a Marta Costa. Entra-nos com a sua beleza esfíngica a fazer de "partenaire", mas conquista-nos defintivamente no primeiro quadro em que é protagonista. Dizem que as palhaças não podem ser bonitas e elegantes. A Marta descontrói tudo, porque se vê claramente que está no domínio de corpo e alma. É magnífica.

E claro que para mim sobreveio o drama mais literário do palhaço: a peça é fisicamente esgotante, muito exigente mesmo, e como lidará o actor dentro de si depois de ter, literalmente, exposto as vísiceras de todos, e as suas  próprias, pelo riso - que também contém (e muitas) lágrimas? Como se protege um actor destes, como cobre as feridas, como serena a carne, como regressa à pele? É tremendo.

Está de parabéns o encenador Pedro Fabião .

Estes "miúdos", a trabalhar assim, não deviam ter de precisar de fazer mais nada na vida. Nós temos o dever de pagar bilhete e os deixar viver a fazer tão bem e a fazer-nos tão bem. O Clown Laboratori Porto passou a ser uma realidade, não um mero colectivo ou plataforma. É uma realidade que vou procurar e uma hora para onde vou fugir: ah, sobre essa hora, eu pensei inicialmente que a duração da peça, sessenta minutos, era escassa para o bilhete que se paga, que nem é caro, 7,5 Euros. Saí com uma sensação completamente diferente: a experiência é tão poderosa, tão intensa, que nenhum de nós aguentava muito mais a rir assim.

Nunca desapareçam, por favor.
Pelo menos deixem-me morrer primeiro, caramba.

PG-M 2014


2 comentários:

Epifânia disse...

A premissa do primeiro parágrafo obrigar-me-nos-ia a negar o amor pela literatura, cinema, música...
Por outro lado, ditam as normas que não posso pretender que seja apenas arte aquela que me agrada,embora me sinta tantas e tantas vezes tentada.
Agradeço a dica relativa ao Clown Laboratori, que não conheço e junto-me no lamento à inexistência de um cartaz de teatro decente.
Tendo vivido largos anos fora d a minha cidade sinto tantas e tantas vezes um completo desnorte no que ao teatro toca.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Bom combate :)