2014-08-04

não temos fotografias

 isto não é um poema, são tremoços,
cerveja clara ou um copo de vinho branco, areia,
mar contido no horizonte que muda cada vez
que uma criança salta
ou rio em curva que apaga as tuas pálpebras por causa de uma luz
vesperal,
cola com gelo, meia torrada, corpos vestidos na
esplanada, despidos
à medida que a duna desce e a praia
avulta, vultos
a rasgar linhas de espuma, o céu a transitar

o céu a transitar

azul claro, azul escuro, vermelho, laranja,salmão, cinza claro, cinza escuro

preto

selfies no ocaso
vultos outra vez
bolas vermelhas
agora lua

lua é uma palavra que já não cabe nos poemas,
mas isto não é um poema,
são

selfies de manhã
água turquesa
bolas de berlim
com creme

que espalhas nas costas e no pescoço e na ponta do nariz
carências

faltam beijos de língua em público
faltam bancos
de jardim, faltam

- nas noites quentes de música -

olhos aquosos em vez de
vidro, faltam
felácios com lábios
em vez de litronas e charros
em todas as bocas

faltam beijos de língua em público,
lucidez demorada nas salivas
orações
em papilas gustativas,
areia no corpo e as palmas nas coxas
francas
guerras
de ventres lisos

isto não é um poema, isto é o pico da noite
moderna,
um colectivo alienado a deitar-se
nas camas dos pais
acorda tarde e começa tudo
de novo

antes de ser noite

cerveja clara ou um copo de vinho branco, areia,
mar contido no horizonte que muda cada vez que uma criança salta

isto não é um poema, apenas praia
e agosto afixado
nos murais

antes ninguém sabia
o verão só falava
no jantar
de fim de curso

lembras-te das dunas e nós
nos beijos de língua em
público, nus
na guerra dos ventres lisos,
que pena,
dirias,

não temos fotografias

PG-M 2014
fonte da foto



2 comentários:

Epifânia disse...

E eis que imagino Fernando Alves dizendo isto, como só ele, no seu "Sinais"

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Seria uma privilégio. :)