2014-08-03

carta-aberta-terra-ar (Volume III: notas para um suicídio regular)

(continuado de Volume II - Camila sobre o MH17)

Mãe, mato-me lentamente na caverna da Setsuko porque não mais suporto a vida como ela se me afigura. Há, pois, amor e pirilampos à porta do meu túmulo.

Como disse o Emerson, mãe, corta estas palavras e sangrarão, são vasculares e vivas.

Não salto de uma ponte, mato-me lentamente numa caverna - igual à de Platão, parecida com de Saramago e onde, de vez em quando, passa um camponês com livros.
Lembras-te de quando vimos juntos "O Túmulo dos Pirilampos" e como aquele deslumbramento da obra-prima absoluta nos toldou fisicamente?
A inefável sequência de analepse da caverna, os momentos de felicidade em solidão da pequena Setsuko quando o irmão a deixava sozinha para tentar arranjar comida e só trazia fome, a caixa de rebuçados e os pirilampos, os outros momentos - os insuportáveis - a que somos expostos pelo realizador recebendo os factos mais terriveis e vendo a própria cara da fome,

tocam a arte suprema.

Lembras-te da Amelita Galli-Cruci a cantar o "Home Sweet Home" enquanto regressávamos à última chama, depois de tudo estar morto,
mãe?

Vai para lá do pensamento, faculta-nos o sofrimento físico, a superfície, a pele, o buraco da fome, a brutalidade do real -  e tudo desenhado à mão para o criador. Primeiro escrito sofregamente, entre lágrimas - porque, já sabíamos, a história está na pele de quem a escreveu -, depois desenhado meticulosamente por outros, na escuridão do ateliê Ghibli. Ele concebeu e comandou e chama-se Isao Takahata e é, de algum modo, irmão do mestre Myazaki.
Isao aprofundou.

O aprofundamento da razão dá altura à alma

(chega-se ao sublime, ao alto, ao pico, descendo de forma consistente às profundezas do pensamento)


Roger Ebert disse que o Túmulo dos Pirilampos é um dos melhores e mais poderosos filmes de guerra de todos os tempos: não tem artifício. Caracteriza regressivamente a condição humana e a guerra, do fim para o princípio, da perda absoluta - toda a perda - à essência: é, por tudo isso, isso tudo. E é como me mostro para ti aqui: tudo.

Quando te disse que não suporto mais a vida como ela se me afigura, quis dizer: como ela se me afigura depois de a ver morrer. Não a Setsuko, mãe, mas o meu amor. Apesar de a Setsuko nos fazer morrer e de o meu amor não estar fisicamente morto, é sem ela, a mulher que amo, que não consigo viver. Como vês, a explicação do suicídio é simples, clássica, finalmente frívola.

Tenho quinze anos e já não há cidade que valha a pena vistar com ela, todos os quartos de hotel serão ainda mais iguais, talvez apenas o efeito do vento nas cortinas mude, nem isso, porque eu só a veria a ela, só a ouviria a ela, só falaria para lhe ver os olhos a escutar-me a voz, como a Mireille do Cortázar à sua Lamia, lembras-te?. E então o mundo, na ronda parda do amor que exclui tudo menos o objecto dele, seria sempre o pretexto - e o objecto o texto. Verona é um pretexto, Paris é um pretexto. Ela o texto que eu desenho com sangue nos dedos. Terá ela reparado nas sombras entre os meus sorrisos? Das ruas nos abraços? Das cidades nos beijos?

O que importa é o que ela disse: que me ama, mas não entende o amor que me tem.

Por isso me tornei insuportável.

Bem vês, mãe, o amor é do mundo, está no mundo, não é apenas do homem nem está apenas no homem.
O verdadeiro amor, o amor absoluto, é sobre-humano e rebenta com os corpos onde reside.

Ou aspiramos a uma finitude, ou a temperamos com pedaços de existência palpável e frívola, ou implodimos.

Deixa-me, pois, mãe, morrer e enfim sossegar.

Unamuno disse que a religião espanhola é o Quixotismo. A minha também, tu sabes, mas falta-me loucura para ser verdadeiramente feliz, incompleto.

O poema de Quixote foi a Dulcineia - capaz que era dessa imperfeição.
Já eu, mãe, sempre fui cego para Dulcineias.

Porque olho através.
Porque não contenho a impureza do absoluto.
Porque Cervantes, que soube descer e negar toda a influência literária, veio a influenciar o próprio século e os que lhe sucederam. Cervantes nunca ouviu falar de Shakespeare, mas Shakespeare conheceu bem - e temeu - o Quixote, que Bloom irmanou com Sir Falstaff. A temível realidade das veias que correm nos braços da ficção seria a pergunta que Bloom faria, se pudesse, ao próprio Skakespeare: "Como é que consegue que as suas personagens sejam mais reais do que as pessoas com quem nos cruzamos diariamente?"

E apesar de o Cortázar o dizer, que nos romances se esquece indo beber para as confeitarias, eu nunca esqueço nada e viciei-me na insuportável ameaça da lucidez. Os jeitos de Rolando ofenderam-me de forma duradoura*.


E Erasmo, mãe, advogou que o sublime é a loucura que emana directamente de nós: não lhe chegarei, pois. Nunca. Nem com Erasmo, nem com Longino, nem comigo, nem com ninguém. Não chegarei lá, ao lugar onde, para Bloom, virtude e esgotamento são sinónimos: a velhice.

E, se não emano, imano.
Morrerei na irrisão de mim próprio, portanto, finalmente pleno.

Ao camponês que me vem visitar e me traz livros, nunca comida, já instruí que te entregasse esta à morte, que espero te encontre bem, mãe.
Se a vieres a ler, quer dizer que, finalmente, me extingui.
Não permitirei que Aurora Bernárdez me seleccione os textos para publicação póstuma. Quero que sejas tu.

Não chores, mãe, que a beleza é negra.
Cada vez mais negra.
E todas as caixas de música, apesar de sublimes,

dão medo.

Teu filho.


PG-M 2014
Nota: Este volume encerra a "carta-aberta-terra-ar". Volume I (Avigdor, sobre Gaza) aqui. Volume II (Camila, sobre o voo MH17), aqui.
fonte da foto

* do conto "Os Gatos", de Cortázar, publicado nos "Papés Inesperados", edição Cavalo de Ferro 

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