2014-08-26

As mulheres onde bate o mar


Ela anda cheia de dúvidas, de insegurança na alma e de fragilidade no corpo. É ainda relativamente nova, é ainda das que se esquece que é falível grande parte do ano, é raramente apanhada pela doença, mas aconteceu este inverno. Muita tosse, febre, foi à cama duas vezes, e ainda assim teve de se levantar de manhã para dar o pequeno-almoço às crianças. Nesses dias, depois de os miúdos partirem para escola, ao sentir-se sozinha em casa e, em vez de livre, agrilhoada, débil, fraca, temeu não chegar a ser toda a mãe. Depois viu a agenda das semanas seguintes e temeu não ser toda a amiga, toda a profissional, temeu falhar tudo e todos. Amigas mais íntimas lembraram-lhe que estar doente era a coisa mais natural do mundo, que tinha era de arrepiar caminho e de voltar à vida, que tantas entre elas já tinham ido trabalhar com febre, mas ela punha as pernas fora da cama e era percorrida por uma dor que levava todas as sombras, quando ia fazer o pequeno-almoço ia curvada e apoiava-se em todos os cantos e móveis, quando voltava à cama estava exausta, um dos dias deu até por si desmaiada de bruços sobre o edredon. Ela anda cheia de dúvidas, de insegurança na alma e de fragilidade no corpo. Precisou que a vizinha, mulher dura e fria, que tem na cara as rugas do chão, disse o Torga, que nunca lhe dirigia a palavra, que nunca a tocava, que nunca a festejava, ao vê-la a arrastar-se no pátio para que a roupa dos miúdos ficasse seca para a escola, lhe pedisse, do muro de meação, que lhe abrisse a porta da frente, e, quase a empurrando para a cama, lhe fizesse um chá, lhe pendurasse a roupa no estendal, e lhe dissesse "a senhora, para ser rocha outra vez, tem de se resguardar da tormenta e deste mar de gente que a quer comer", e quando ela disse "mas", a vizinha interrompeu-a, "a senhora tem direito a deslargar o corpo, a senhora tem de ter tempo para molhar a sua almofada com as suas lágrimas, deixe, eu mudo-lhe a fronha, deixe, eu penduro-lhe a roupa, deixe, eu faço-lhe uma sopa branca, deixe, eu faço-lhe um arroz branco, deixe, eu faço-lhe uma cama branca, e durante três dias não se levanta que não seja para si,

a senhora"

Quando ela, cheia de dúvidas, quis alinhar umas frases para explicar à vizinha a gratidão, ela empurrou-a, "a senhora não me deve nada, nós as mulheres somos assim, penedos, escoras, penedos outra vez, a senhora vá-se mas é deitar,

a senhora"

Em três dias a mais nova voltou a ser penedo. Na primeira noite, a vizinha fria agarrou nas mãos dos meninos, quando chegaram da escola, e pediu-lhes para irem ver a mãezinha, para perguntarem se ela precisava de ajuda, e deu-lhes tarefas pequenas. O mais velho ainda se tentou queixar da vizinha ao pai, ele agarrou-lhe vigorosamente um maxilar, o miúdo calou-se.

Faziam quarenta anos de diferença. A mais velha era viúva. Quando chegou o momento, a mais nova pediu uma licença no trabalho - não faltava desde a doença - e paramentou o quarto da mais velha, mudou a temperatura das lâmpadas, a roupa da cama, as almofadas, e, quando ela viajava inconsciente, passava as costas dos dedos pelas bochechas da mulher fria que não deixava que ninguém lhe tocasse. Nos momentos lúcidos o olhar era rijo e húmido, tinha a fúria do mar que lhe batera toda a vida, mas um dia, na véspera da morte, a velha fria agarrou a mão morna da nova, fechou os olhos com força, beijou-lha e disse, com as bochechas molhadas, numa voz fina e baça, "a senhora saiba que, em toda a minha vida, estas são as primeiras lágrimas que choro fora dos olhos, a senhora"

A mais nova vedou o resto das palavras, selou-lhe os lábios, secou-lhe as primeira lágrimas para virem mais, e mais e mais, até as forças lhe acabarem e subir um sorriso.

Depois morreu.

Ela andava cheia de dúvidas, de insegurança na alma e de fragilidade no corpo. É ainda relativamente nova, era das que se esquecia de como era falível grande parte do ano, era raramente apanhada pela doença, mas já teve de faltar duas vezes nos últimos três anos. Ainda lhe bate o mar.

PG-M 2014
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