2014-07-04

Tentativa de tradução da poesia (CL apresenta PG-M)

Catarina Lacerda apresenta Pedro Guilherme-Moreira e os seus dois livros publicados, "Livro sem Ninguém" e "A manhã do mundo"
(a única foto que saiu está desfocada e, literalmente, um "espanto" :) )

"Quando o Pedro me falou do diálogo entre escritores de diferentes gerações disse-me que o amor e a amizade se traduzirão sempre, no que à literatura diz respeito, por inclemência, inconveniência, e nenhuma contemporização. O que me me trouxe aqui hoje foram, essencialmente, o amor e a amizade, nunca a sua tradução. Confesso uma tentativa de tradução mas avistei, em pleno processo de moer a beleza e a eternidade, o meu fracasso. Traduzir seria escola, teoria, letra morta. Nunca poderia ter pressentido um convite destes. Nunca poderia sentir-me preparada para uma coisa destas. Não eu. Disso tenho a certeza. Viver é nunca nos sentirmos prontos para nada. Estamos no sistema cinzento, temos de estar, mas não há sistema cinzento dentro de nós. Como o Winston, protagonista de 1984, de Orwell. Mas como é que se explica a poesia a alguém? E estando aqui, como falar de um ser inefável, translúcido, que não quebra? Dizer que me ele me falou da medida certa das coisas. Que a humildade não é tão comum assim. Ele, que é um autêntico vulcão de poesia. Um vulcão sempre activo. E um leitor, no verdadeiro sentido da palavra. De pessoas, da poesia que está em todo o lado, do recanto, do café, do quotidiano. É um amante dessa banalidade que permite que o excepcional seja sempre inesperado. O escritor deveria estar bem perto de quem o lê. Este poeta de que falamos prontifica-se a uma autodesmistificação e é tão implacável como tem de ser. Foi ele que me disse que os eremitas são um mito, porque já todos o somos. Estamos sempre sozinhos. Mas é preciso um sítio onde pousar a cabeça, como procurava Manuel António Pina e tantos outros.

Pedro Guilherme-Moreira não é um ser circunstancial. É um homem alto, mais alto do que a média. A altura tentou ilustrar para fora o peso que carregava dentro. Sabia que a sabedoria não serve para nada se não somos capazes de esticar o corpo e desafiar as leis da gravidade para espreitar a literatura, que quando é louvável nasce por dentro e nunca para fora. O corpo do poeta rejeita com todas as forças a literatura pura exteriorizada. Ele está aqui, estão a vê-lo. Mas vejam com mais atenção como se agita na cadeira, como vos olha, primeiro desconfiado, mas frontal. Quando o conheci, não lhe percebi a poesia. Mas está lá, nele, essencialmente nele.

Os livros, agora dois, são as pernas que se estendem até aos leitores e que lhes acompanham as sombras dos dias. Uma rua sem saída estende-se pelo espectro de cores do arco-íris, com todas as casas iluminadas por dentro e com o escritor a caminhar pelas divisões de cada uma sem nunca tocar nos objectos, mas não os deixando intactos quando sobre eles escreve. E, como um ladrão que entra silenciosamente em lares alheios, fala sobre cabelos fugidios, roupa interior a secar ao sol, seringas esquecidas num beco. Um livro sem ninguém, um título matreiro que promete a eternidade das coisas e do pó que cai mais rápido sobre nós do que sobre elas. Mas há vida onde há corpo e toque e olhar debruçado. A cadeira onde se senta o poeta e estas de onde o olham têm tanta vida como os corpos que recebem. Antes de toda esta humanização através do objecto, já o escritor se tinha decidido a falar de vidas ceifadas, nunca pelo exterior, mas levando pela mão um leitor confortado pelos corredores de dois arranha-céus. Mostrou-lhe a asfixia e estranhos a falarem pela última vez. E nós apercebemo-nos de que podemos partir os vidros para respirar mas acicatar as chamas ou podemos deixar-nos morrer lá dentro ou saltar. Telefonar a alguém, arrependermo-nos. Tudo isto numa manhã que nunca ficou perdida no tempo, mas se tornou a manhã do mundo.

Ele esteve nas torres gémeas e numa rua sem saída e descobriu em ambos os lugares a poesia na luz torrencial dos dias e na noite inquieta daqueles que não dormem. A imagem do poeta é exactamente essa: uma luz acesa na noite. Em qualquer noite há um poeta que não dorme. Este, o Pedro, que pelo primeiro nome parece um filho nosso, disse uma vez assim:

tenho a cabeça cheia de poesia
mas nada nos dedos
os olhos a conter rimas
as mãos nos joelhos
e tudo
o que não se diz

A poesia que ele carrega é como uma deslocação dos ossos, que nunca mais lhe permitiu a total verticalidade do corpo. Não há menoridade aqui nem é coisa de nascimento ou de sangue. A mim, a poesia apanhou-me desprevenida num corredor que ia de uma divisão a outra. Nunca mais me livrei dela. Ele escreve desde sempre. Tropeçou em câmara lenta nela, em câmara lenta porque nos filmes todos os momentos marcantes merecem um abrandamento do tempo. Essa foi a primeira finta que ele conseguiu fazer à impermanência das coisas. Depois ganhou uma paixão total e aí nunca mais parou. Para nunca mais. O problema é que há muito poucos a ver. A cegueira é intemporal. Mas há mãos que chegam e ficam. Há eternidade. A limitação do corpo pode ser desmentida por uma música dos Sigur Rós. A vida é incluir. Incluir, incluir, incluir. A morte é rebentar. A morte devia ser rebentar, de lágrimas, de amor. E os textos deviam implodir e arremessar palavras contra a parede. E as palavras nunca morriam.

É difícil tirar de dentro
todos os pequenos poemas
encravados.

Mas a questão é esta: quem nunca se engasgou com a vida? O dia corre como qualquer outro mas de repente há uma deslocação, uma maré abrupta que inunda o rochedo em que nos achávamos, tão sossegado na paisagem. Não há sossego aqui. Além, o poeta continua a agitar-se na cadeira. Ele sabe que não há sossego. Conhece as marés mas mergulha fundo, não se abate por um céu cinzento. O abatimento só deveria existir se fosse arrebatamento, se a beleza fosse tanta e pesasse tanto que o peito não aguentava mais. Uma vez pedi aos céus que eles não me pressionassem o peito contra a terra, que o abrissem, que o rasgassem e deixassem entrar a primavera e o verão de todas as coisas, com o sol a tocar a pele seca do corpo. O amor não deixa a poeira do tempo varrer as encostas do peito. Morre-se, ainda assim. Morre-se. A poesia não. Nem o poeta, nem o homem que está dentro do poeta. Nem a agitação que carrega. Só o indizível é que tem tanto valor que pode ficar por aí. E há uma leitura superficial das coisas e outra marítima, que é a inatingível e que a escrita só deixa passar vislumbres. São as convulsões e as paragens cardíacas que ficam. A poesia é uma tentativa de guardar tudo numa pequena mão em forma de concha que é a memória. A memória é um dos maiores altares que edificámos sem querer. E o amor também, esse que é incluir até não existir mais espaço. Mas há sempre espaço.

À parte isso, guardamos em nós todos os sonhos do mundo."

Catarina Lacerda

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