2014-07-24

Os corpos e os olhares todos (ensaio sobre a praia)

 Por influência de grandes como Emerson, Montaigne ou Sócrates, o avô saiu hoje para vender bolas de berlim na praia com o vigor filosófico do seu próprio corpo.
Consciente dos seus limites aos setenta e cinco anos, as dores crescentes dos quilómetros de areia, as rótulas em pó, mas com a confiança na superioridade gnóstica do seu próprio eu, luz da sua alma, Lolita.
Assim apôs na epígrafe do ensaio sobre a praia:
"O meu sorriso tem treze anos (deixara a estiva há treze anos, com uma reforma por invalidez, e começara a vender bolas de berlim na praia nessa mesma altura), é a minha alegria, a luz da minha alma, Lolita"
Explica-se esta referêcia literária porque eu sou o monitor do município na carrinha-biblioteca-ambulante e o avô passou a ler tudo o que lhe deixo nas mãos, quando torna a casa esgotado da jorna das bolas com creme, depois de esfriar os pés e deixar o peixe ao lume.
A obra-prima do Nabokov marcou-o particularmente.
"Filho, sinto uma culpa insuportável.", dizia-me, no fim de cada um dos duzentos dias que demorou a ler o livro, cujo empréstimo eu fui prolongando por baixo da mesa porque tenho conhecimentos na vereação da cultura.
Não era uma culpa própria, que o avô é, sempre foi e será, um santo, mas uma culpa universal, e é por isso que "Lolita" é, sempre foi e será, uma obra-prima.
Depois, não se espantem, leu tudo.
Emerson, Montaigne e Sócrates em Platão.
Quando me pediram para explicar, entre tremoços e minis, na tasca do Zeca Eufrates, como era possível que o meu avô lesse tais coisas, eu limitava-me, cuspindo cascas, a explicar:

"Os mestres escrevem simples e são simples de entender. Escrevem ou falam como nós aqui no café, olhos nos olhos. Os outros não são mestres, sequer discípulos. São"

e o pessoal que comia os combinados ao balcão é que completava a frase com os mais variados insultos, são políticos, bestinhas, cagões, etc, com os quais, que fique assente, nunca concordei, mas também é certo que nunca completei ou quis completar a frase.

Vem isto a propósito do ensaio de avô sobre a praia, que ele ditou e eu escrevi depois dos jantares do verão passado, e é tão curto quanto sublime, na senda dos mestres:

"Passo sempre no mesmo passo e na mesma praia, mas o mundo também é sempre tão diferente, e eu escrevo isto porque sempre fui tão igual.
Quando as pessoas se vêm despir do que evitaram o ano todo, a nudez, a gordura, a imperfeição, ficam claras, simples e firmes - pelo menos todas as que não se enterram na areia ou mergulham de vez no mar definitivo.

(há aqui coisas que têm a minha mão, mas juro que as ideias são do avô)
Na primeira idade há uma pureza que não dificulta as coisas. Os olhos e a pele das crianças brilham, têm sorrisos ou interrogações transparentes, implicados, estão no lugar a que pertencem.
Mas se eu avanço na praia e na idade e entre os guarda-sóis a regra são olhos pequenos e testas franzidas e a desculpa é o que alumia e aquece, o sol. O reclamado sol, aifnal, não é vida, e passa a constrangir e a diminuir.
As pessoas não estão bem com os seus corpos, vêm encolhidas e sérias, mesmo que tentem sorrir, com o euro na mão, muitas com vergonha, muita vergonha, e não é de serem vistas, mas de terem de comunicar, que é o que fazer automaticamente o resto do ano - ou parece que fazem.

(para o avô, as redes sociais são uma realidade vivida de ouvido)
Quando eu volto, perto da hora do almoço, e já quase não sou chamado para bolas, vejo centenas, milhares, de ilhas em terra. As pessoas que não esqueço são penínsulas, continentes, são as que brilham como as crianças e, tenham o corpo que tiverem, são sempre elegantes no trato e refinadas no entusiasmo.

(o meu avô não saberia dizer que "entusiasmo" é, etimologicamente, a possessão de deus, mas quando eu lho expliquei ele ficou assombrado, e então, disse ele, tive uma certa esperteza, porque era  mesmo isso que queria dizer)

As pessoas que não esqueço recebem o sol e têm a cor certa, a medida certa, e aguardam pelo curso do tempo e até confessam saudades minhas, eu que me sinto apenas funcional

(o avô escreveu "funcionário", mas eu pedi-lhe para mudar para "funcional", é praticamente a mesma coisa mas muito mais importante)

A adolescente que aparece mirrada e insegura e de olhar fechado é mais velha do que a velha que aparece de queixo erguido e sorriso aberto e olhar seguro e focado, às vezes iluminado.

Embrulho sempre a bola num guardanapo de papel, o meu papel, e eles afastam-se por pecado.

Mas sempre me perturbará, depois dos livros que li, ter visto coisas que nunca antes vira, como se me tivessem lavado a cara, eu que fazia esta praia há anos e todos os dias de todos os verões desde o fim da estiva, o que sempre me perturbará é ter percebido que as pessoas, que esperam o calor para libertarem os corpos e enfrentar o sol e o mar, são meros agasalhos de si próprias, são quase todas demasiado velhas para o seu próprio sorriso, a sua alegria, a sua Lolita, luz da sua alma, têm quase todas os olhos muito pequeninos e os corpos mirrados e estão sem classe ou confiança, o ego inchado e a transbordar a sombra do guarda-sol, e acabam por desprezar, nos três meses sonhados, tudo aquilo que almejaram, e não recebem, porque não se expandem nem reflectem o sol e o mar que procuraram.

(eu acrescentei uma modernice, porque era uma ideia que o avô queria incluir e me tentou explicar, as selfies de verão, que validam e carimbam e tipificam uma felicidade que não é procurada intrinsecamente, nem extrinsecamente, no próprio ou no próximo)

Verão após verão, a praia nem chega a ser teatro.
Os corpos e os olhares são a desilusão.
O mar a ilusão.

E eu sinto culpa. A culpa universal de sempre. E a urgência de ir, com as minhas bolas com creme, de olhos abertos e sorriso claro, corpo confiante e postura transparente, contaminar a praia do meu sorriso, luz da minha alma, Lolita."
PG-M 2014, ele e o avô dele

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