2014-07-07

(não) exercício de teatro pleno


Esta crónica
(ou soilóquio ou monólogo ou didascália, o que quiserem, o que vos apetecer)
Esta crónica esteve para se chamar "exercicio a merda!"
(dialogando, de forma intelectualmente desonesta, com o conceito de merda/sorte teatral)
ou, tendo em conta  sensibilidade de alguns departamentos cutlurais, "exercicio o tanas!",
mas, como o próprio encenador lhe chamou exercício, achei que os princípios da boa educação não me permitiam um ou outro.

Permitem apenas dizer e defender ao longo das linhas seguintes que este pode não ser exercicio nenhum.

Falo da peça "Esta noite improvisa-se", de Luigi Pirandello, como encenada, precisamente, por Nuno Carinhas para o fecho de ano dos finalistas do curso de teatro da ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo), Porto, e que esteve em cena no Teatro Helena Sá e Costa até ontem, 6 de Julho de2014.
E de como a vou comparar - disparate! - com "Turismo Infinito" e "À espera de Godot".

Depois de ter perdido, em anos anteriores, várias representações do "Turismo Infinito", no Porto e em Lisboa, largamente elogiada e com excelentes críticas e testemunhos arrebatados do público, fui finalmente vê-la quase em ritual (o ritual de quem precisa de alimento) - em Março deste 2014 - ao Teatro Nacional de São João. E, porque as expectactivas eram altíssimas, fui-me desiludindo ao longo da peça, quando percebi que a maioria dos textos não tinham outra carne, outro sangue, outra forma, porque nenhum deles houvera sido escrito para vir à cena, ainda que o próprio Pessoa teatralizasse a própria existência - don't we all? Não quero, não gosto, de magoar quem muito trabalha para dar o seu melhor, e esta é a posição de absoluta subjectividade de mais um urso, entre muitos, mas que tem uma relação profunda com todos aqueles textos de Pessoa e sus muchachos. Com a excepção do (este sim) solilóquio da corcunda Maria José (que alguns classificam como um heterónimo feminino de Pessoa) - excepcional na encenação e na representação inesquecível de Emília Silvestre - e da excelência do João Reis, a tudo o resto faltou força, corpo, carne - particularmente a todo o Bernardo Soares, que é uma luminária lido e foi um fósforo ouvido e visto. Aquilo de que fala o Genet, o Salazar Sampaio, o próprio Pirandello, entre outros, o teatro como respiração, o toque no braço do público, não esteve lá. Levei pessoas comigo, outros levaram pessoas consigo, e não há que ter vergonha de dizer que vi bocejos, enfado, tédio, como já tinha visto no "À espera de Godot", de Samuel Beckett, poucas semanas antes. Não, o teatro não pode permitir isto.

Os entendidos - eu não sou, eu sou um dos que esteve nas pontas dos dedos dos actores ontem, sou apenas público e exijo vísceras - explicar-me-ão (já o li em muitos lados) que Beckett é fundamental pela ousadia de novos modelos, por romper com cânones, e que a encenação de Ricardo Pais do "Turismo Infinito" tem uma quantidade infinita de méritos. Mas cairemos naquilo em que eu próprio caí quando me apaixonei por teatro: li teoria, li peças, li tantas coisas no silêncio e longe do palco, quis perceber como era, como se pensava, como se fazia, para, como autor, não escrever o inútil, e acabei por não escrever nada, fiquei avariado na grelha de partida, até me virem buscar para deixar a pele no texto para quem quer deixar a pele no palco, e escrever, escrever, escrever, experimentar aquele imediatismo, aquela adrenalina de quem visualiza a cena em acção mas depois tem a humildade - tem de ter a humildade - de dizer ao encenador, como ontem ficava claro no Pirandello, que "o autor não interessa", que "isto" (o papel onde estava escrita a peça) não existe.

E falo das grandes e consagradas peças do nosso quintal para explicar como é injusto e ridículo minimizar o que quer que seja pelo lugar de onde vem e por quem o protagoniza quando, no fim da peça, nós, no público, estamos arrepiados e temos a carne a vibrar e o corpo tomado, e experimentamos até outras dimensões. Sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som experimentados, sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som em tirocínio.

A mim nunca me tinha acontecido chorar enquanto aplaudia de pé, e chorar na cara da emoção dos actores e nas próprias lágrimas de uma das actrizes, a Leonor. Aplaudir de pé está banalizado, ouvia eu ontem quando as muitas palmas se calaram. Tenho visto, sim, pináculos humanos a erguerem-se quase automaticamente quando o pano cai, mas não nos devemos esquecer de que estamos a falar do lado positivo do arrebatamento e até de uma certa forma de comunicação que tem uma tradição de séculos. Deixá-los erguerem-se por aqueles que nos saudaram e "morreram" em palco.

Como há semanas o "Nós somos Rolling Stones", encenação de Gonçalo Amorim que me levou às lágrimas dos dois lados do planeta, noite e dia, choro e riso, com a fada que, depois de estar dez minutos a bater à porta, perguntava "porque é que demoraram tanto tempo a atender, caralho?" e nos brindava com esse libertador "foda-se!" quando não gostava de alguma coisa (era uma fada barbuda, foi um grande desempenho do Paulo Moura Lopes) até tudo o que todos os actores nos deram no limite do esgotamento físico, agora este "Esta noite improvisa-se" deixa-nos colados à cadeira: não por ser um exercício, mas porque, depois de nos excitar os sentidos (principalmente a ironia, que deve ser um dos sétimos sentidos) nos coloca num túnel regressivo de emoções e vem da cor para o cinzento - talvez preto e branco - corpulento, e nos apresenta muitos actores de nervo e (já) maturidade, e abre a oportunidade ao brilho da Maria Quintelas.

Como autor, estou convicto de que Pirandello falou em exercício por duas ordens de razão: porque uma das necessidades da comunicação da arte é tipificar intenções, principalmente à comunicação social, que era bem mais exigente e sabedora ao tempo em que a peça foi escrita; e porque não tem problemas em ironizar consigo próprio. No incício da peça, como já ficou dito supra, é claro quando escreve que "o autor não importa" (ou não interessa) e o põe na boca do encenador. Essa humildação primordial, tal como a contenção, é essência da arte, de qualquer arte.

Mas o que Nuno Carinhas encena é uma peça brilhante de Pirandello e uma declaração de amor ao teatro, não propriamente experimentação ou exercício. Quem viu sabe que, subitamente, a sala é um corpo único e o público um dos seus órgãos. Não é a primeira vez, não será a última, mas é uma das melhores vezes. O tirocínio de todas as funções teatrais corre maravilhosamente, da figurinista às luzes, dos protagonistas aos secundários, da encenação ao próprio público, que é chamado a tomar decisões, é questionado e criticado em cena e na plateia e dialoga directamente com o actor/ encenador. E a peça tem tudo, tem todas, as emoções, todas as vísceras.

E o colectivo, a turma finalista, não tem um único elemento mais apagado ou escondido, funciona como uma torrente que quase nos afoga de emoção - de todas as emoções, todas as vísceras. São cerca de quarenta e um só. Às vezes uma só.

Mas quero destacar dois, e espero que todos os outros saibam que foram olhados individualmente e estiveram brilhantes sempre que foram chamados (gostei muito do Alejandro, gostei da Catarina, da Mafalda, da Márcia, da Gabriela, gostei de tantos, tantos, gostei especialmente da humildade que transpirou e é rara no meio tão egocentrado do teatro - tantas vezes se fala de público, mas tão poucas o público sente que é o primeiro; tal como na literatura, de onde eu venho, tão poucas vezes o leitor sente que é, e deve sempre ser, o primeiro):

Destaco o Pedro Macedo, como corpo da comédia no colectivo. Desde a entrada em cena com o subtil e "sensível" "Volver!" até à assunção do leque.

E, claro, a Maria Quintelas, nos ossos de Momina. Foi ela a culpada por algumas lágrimas despropositadas, e não lhas perdoo, ai, não lhas perdoo mesmo, eu, que sou um homem, e os homens não choram (é essencial mentir, como o teatro, porque a verdade fica sempre clara - e simples - perante máscaras). A Maria teve o seu triunfo e destacou-se mesmo antes de restar no palco como protagonista. O que ela tem, teve ou terá não sei ao certo. Não sei ainda, embora pudesse perorar inconsequente e arrebatadamente. Seria inútil. Não é nada de físico, é algo de luz e posição e palco. Oh, mas isto é físico, não é? É pelo menos física. Química. Físico-química. Maria é físico-química. Vi outras encenações em que a Momina nem sequer cantava particularmente bem. O Nuno Carinhas, presumindo que tenha sido decisão dele (ou terá sido indicação do colectivo, ou de outro professor?) soube escolher a voz mais pungente, mais bela. E quando ela canta, e cada vez que ela canta, chora-se por dentro - e se ela não se detém, se prolonga aquele martírio branco, chora-se por fora. E, no terço final do espectáculo, ela protagoniza aquela inversão violenta que nasce no arco-íris de abordagens e estilos e desce ao pardacento espesso do drama, o Pirandello a manietar-nos (não sei se ele deixou didascálias ao encenador: "que Momina cante maravilhosamente, que Momina seja visceral, que seja Maria, que seja Maria!"). Para um autor, perante Maria Quintelas, há logo aquela deformação da diva retórica, teórica , ideal, que queremos para os nossos textos. Para o homem no público, tudo jorra, tudo verte, tudo se fixa no fogo de artifício de um ídolo que não se quer que desapareça. E o mais difícil está do lado do ídolo, quando desce: voa, aterra, apaga renasce? Bravo, Maria.


Não aceito, nenhum público aceita (e posso mesmo tornar-me um verdadeiro nortenho, com o execício pleno do calão, como este - não - exercício pleno de teatro) que me (lhe) digam, perante a minha (dele) máxima emoção, perante as minhas (dele) lágrimas, perante as minhas (dele) vísceras, que isto é uma peçazita e aquilo uma peçazona. Para mim, "Esta noite improvisa-se", encenação de Nuno Carinhas para o grupo de finalistas do curso de teatro da ESMAE 2013/2014, é, foi (que pena não voltar) a peça do ano ("Nós somos Rolling Stones" é capaz de empatar num plano tão alto), e eu vi Godot, e eu vi Turismo Infinito. Não importa. Não senti. E esta ferveu-me. Malvados.
Ainda estou a aplaudir. Malvados.

E a rir, que raio.
Que raio, Pedro.

E a chorar, que raio.
Que raio, Maria.

PG-M 2014
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