2014-07-17

mão ANTE mão (Quiz marítimo de férias)

 mão:

Quero viver porta com porta contigo
Contar-te segredos pela parede fina
Como naquele filme do Genet

ANTE:

as pessoas queixam-se tanto de as deixarem desertas, mas nós - que escrevemos ou lemos - temos a doença de estarmos sempre povoados

(com ou sem solidão em anexo) 

mão:

"A vida dos sentidos é um plágio de uma idealização maior. Mas é um plágio legalizado porque sabe bem sentir os cabelos em desalinho." C. Lacerda (ou é Lispector? )
 
 ANTE:

 Ontem - 10 de Julho - o dia fugiu-me dos pés e das mãos, e ainda não consegui responder a todos individualmente. Não o farei publicamente. Há algo de feérico no dia de anos, se acaso indicamos publicamente a data de aniversário no facebook. Todos sabemos que não somos especiais nem particularmente amados porque uma multidão nos parece rodear neste dia. Mas não é mau. Tem sido sempre uma oportunidade de recuperar contactos e, ao longo do dia, aqueles que escrevem quando podemos olhar, permitem que nos lembremos que eles, não nós, existem. Alegra-me ter de devolver mimos e poder recuperar muitos contactos perdidos. Tenho a certeza de que a solidão, no dia dos nossos anos, é a mais intensa de todas. Hoje o mundo normaliza e nós só somos especiais porque sim. Nós todos.

 mão:

Tenho falado deles e delas, e não me vou cansar enquanto nos trouxerem mais do que aquilo de que alguma vez fomos capazes da mesma idade. Ainda ontem dizia a uma amiga que nós, mesmo os maluquinhos por literatura que limpavam concursos literários, não atingíamos este nível, que está hoje acima até de muito consagrados sobrevalorizados. Esta geração, que muitos encaram como regressiva, salvará a nossa, que não tem trazido rasgo à literatura. Trago-vos palavras escritas de forma informal pela Carol, aquela menina de 16 - 17 feitos há dias - que me disse espontaneamente a Tabacaria do Álvaro de Campos num jardim brasileiro:

"Eu não vou dizer que existe só uma verdade e sentido para tudo que é a inutilidade, assim como não vou dizer que cada homem é um crime e que alguns crimes são imperdoáveis, não obstante, devem ser absolvidos.
Eu não vou dizer que a única coisa que nos redime é o amor. Também não direi que é assim que sempre acontece: ele nos liberta da vida maçadora condenando-nos à morte, e dá o veredicto com piedade. Não concluirei que os poemas de amor são, geralmente, tristes, por serem testamentos infinitos. Então, não aproveitarei o ensejo e não direi que o fim é infinito, e que o próprio infinito, às vezes, tem a delicadeza de se fazer de fim.
Assim, não vou dizer nada, porque nada é tudo que eu tenho a dizer."

ANTE:
O São João do Porto está a recuperar o vigor. Uma multidão bonita sempre a circular. A festa esmorece mais longe. A magia de romper as barreiras do pudor por uma noite e sorrisos abertos e luminosos do entardecer de 23 ao amanhecer de 24. Único no mundo.

mão:

(Em modo Luiz Pacheco, este é de uma clareza e lucidez difíceis de atingir, com um perfume de liberdade e regionalismo que pode resgatar muita gente de um sofrimento atroz, eheheh. Bom domingo )

DO EXPERTO

Há um crítico de poesia filho
de uma grandessíssima puta
que no entanto vingou
com o dinheiro da mãe
e hoje (sobre todos os poemas)
elabora sempre a mesma dolorosa
e sofrida recensão
(no periódico global)
em que chega sempre à mesma
conclusão
(primordial):
que é, ele próprio,
um animal.

ANTE:

numa deliciosa reportagem da Sic ("O teatro e as serras"), uma senhora de 83 anos dizia: "Quando ele se foi (o marido), o que me custou mais foi fechar a porta e ir para o campo." Porque ele estava sempre em casa e a porta ficava aberta.

Amanhã vou fechar a porta e vou para o campo - às segundas o corpo tem de se habituar a descolar do calor dos nossos e a casa fica vazia logo às oito da manhã.

Eu fecho a porta e vou para o campo.
 

mão:

 No ofício da escrita, sinto sempre que estou em dívida. Devo a quem lê de forma desassombrada, e não tenho o direito de não escrever. E isso é claro a uma segunda-feira pós-eleições, quando quase todos precisam de ser resgatados do guião do país medíocre, e quando a quase todos dói o dia e os nossos espaços e pessoas arrancados ao corpo outra vez. Ninguém me elegeu para escrever, mas isto não é democrático. É a melhor maldição. Prefiro dividi-la com as pessoas que estão e passam. Sou um bardo de solidão na multidão, como diria o Emerson. Tento não ser medíocre, mas como só o tempo largo dá relevância aos textos, é isso que é quem vai mostrando palavras. Em rigor, os poemas e os livros deviam aguardar cinquenta anos em casco de carvalho antes de serem servidos. É essa, pois, a incoerência da contemporaneidade que eu trazia na alma quando me convenceram a deixar imprimir as palavras ainda verdes e anémicas. Mas quero que creiam em mim quando digo que venho por vós, não por mim. Qualquer escritor que usa a primeira pessoa é confundido com um egocêntrico, mas o egocentrismo é uma das ilusões do nosso tempo. Os maiores egocêntricos disfarçam o discurso. Os puros de espírito, das duas uma, ou se guardam em casco de carvalho ou se mostram de vísceras e celebram a arte e acendem a luz de defesa de território nos pobres de espírito. Um amigo disse-me que eu sou uma boa pessoa mas tenho sido uma má personagem. Tem razão. Mas vejo-me cada vez menos preocupado com personagens neste caminho privilegiado dos livros. Sou o que sou, de veias dilatadas e sangue fervente em qualquer parte do corpo, desconfortavelmente inclemente com a mediocridade e a incompetência, tolerante com a insuficiência, perigoso para os maldosos, mas destes há poucos, embora tantos aprendizes involuntários. A noite ardeu num poema que me consumiu e que tenho de deixar amadurecer, desta vez, até ao princípio da tarde. A poesia em que eu creio escreve-se com cem palavras, não mais, e não pode ser críptica. Aliás, a literatura mais fácil de fazer é a que despreza o par e o elemento que lê. Páginas viscerais e crípticas são fáceis de fazer para quem é doente disto. O que me consome é o projecto absolutamente transparente que verbaliza o que era impossível horas antes. Assim "A carne da virgem maria", em que quis incluir uma e todas as mulheres, um e todos os amores, uma, todas e nenhuma fé a partir da figura de maria. Apresento-vos "A carne da virgem maria" ao princípio da tarde. Para fazer frente a esta segunda e depois zarpar, a todo o vapor, semana fora. Obrigado por "ouvirem".

ANTE:


Maravilhoso! - ao jantar, na Lourinhã, a 30 de Maio de 2014. A minha mesa com Zink e Júdice foi o cumprimento de um sonho, e só depois de acordar posso dizer alguma coisa. Já a do Adelino Gomes e Alfredo Cunha, à noite, sobre os rapazes dos tanques, foi memorável (como o livro da Lídia), forte, poética, histórica.

mar:

E para os que ainda não tiveram férias, e para os que já as usaram, tomai uma espécie de aforismo libertador do Cortázar, que devereis usar sem tento e substituindo "argentino" pelo que sois (eu colocaria "tripeiro", por exemplo), quando tiverdes de responder a alguma desfaçatez: "Como bom argentino descomedido na fala, a minha resposta é cortês mas inequívoca: puta que os pariu." ("Papéis inesperados", Cavalo de ferro, 2009, p20)
 
PG-M 2014
(fotos minhas)

Sem comentários: