2014-07-03

Lispector por Lacerda sobre PG-M

 
"O meu nome é como uma flor de lis ao peito: Lispector. Essa flor desabrochou era eu menininha, brincando à roda das palavras. Quando cheguei ao Brasil, chamaram-me de Clarice, nome enfeitado pelos medievais, que acharam que Clara não bastava. Então fiquei Clarice, uma figura com alguma claridade e um lírio dentro do peito. A mais nova da família, eu chorava a minha mãe e acolhia os gatos vadios. Foi aí que fui entrando dentro de mim, mas nunca me fechei. Têm dito que sou hermética mas eu estive sempre sangrando pelo mundo. A poesia explodiu em mim como uma onda pela primeira vez no Recife, quando tomava banhos no mar. Levantava leques de água no ar e sorria. Eu não mudei, não fiz concessões. Sou criança ainda, menina do mar e da areia branca. Ele também foi menino de praia. O menino crescido, agora já homem, já vacinado e ditador das viagens a tomar. Assina os poemas com três letras altas, que parecem fazer parte de um acaso, como se colhesse, sem pensar, maçãs de uma cesta. Ele é o conjunto das letras com o hífen a atravancar a harmonia do conjunto. PG-M, estranha forma de assinar poemas. Somos semelhantes, quase nascidos dos mesmos nervos, da mesma seiva. Porque eu me recuso a ser chamada de escritora e ele se desmistifica enquanto escritor. Eu não assumo, quero a liberdade de quem não tem nome. Ele vem e está ao alcance de um braço esticado, não foge, não se refugia na falsa eloquência do fato e gravata. Já o conheço há muito tempo. Antes de ter existido andava a ser sonhado por quem rasga o mundo e suja as mãos de terra para encontrar a verdade. A febre refugia-se em nós e as vísceras, apesar de habitarem corpos diferentes, também são gémeas umas das outras. E os pontos de interrogação sangram-nos as costas e lembram a urgência das respostas que tardam em chegar. Eu nunca esperei que alguém me entendesse ou que chorassem por causa de eu existir. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca. E sempre houve tanta inteligência e tão pouco toque. Toque como a confirmação do eco, o grito que vem do lado de lá e que nos acalma o vazio. E escrever é o meu eco, é a confirmação da minha vida. Eu acho que quando não escrevo eu estou morta. Só depois posso renascer, tomar o espírito de algo novo que se anuncie pela manhã. Mas é tudo muito incerto e escrever não é nada um prazer. Sempre senti que escrevia como se fosse para salvar a vida de alguém, só mais tarde vim a entender, numa luz do fim do mundo, que me resgatava a mim dos escombros do caminho. Tinha feito a travessia o tempo todo com um fogo cá dentro e estava em meu poder provoca-lo ou deixar que se desvanecesse. Para trás já tinha ficado muita palavra. Este escritor, com um nome que se enrola na língua como as vagas do Atlântico, também balança entre a luz clara das palavras de todos os dias e aquelas que não saem nunca. O mais simples é dizer que advoga, escreve e estaciona carros nos Poveiros. O resto só a poesia explica, aquela que ele traz desde menino e não sabia explicar de onde vinha. Talvez falasse para dentro ou subisse aos cumes das palavras. E aí, no cimo delas, atira-se das torres gémeas, de mãos dadas com os jumpers. Imortaliza-se em verso. Agora escreveu um livro que não tem ninguém, ou que tem ninguém, ou que não tem alguém. Talvez, se o livro estiver mesmo deserto de gente, possamos encontra-lo ao fundo da rua do arco-celeste. Mas o poeta está em todo o lugar, em toda e qualquer disposição dos objectos, nas sombras, na intensidade da luz. O poeta terá reparado na poesia das coisas ainda muito cedo e a ela se rendeu, à falta de outra hipótese. Também eu acabei por saber, que eu tinha poderes que eu não entendia nem queria entender, mas a vida em mim os havia retido para que um dia enfim desabrochasse essa matéria desconhecida e feliz e inconsciente que era finalmente: eu!, eu, o que quer que seja."

Monólogo escrito e lido por Catarina Lacerda
(vídeo com vislumbre dessa leitura abaixo)

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