2014-07-03

Catarina ao mundo


Ao mundo, importa que a Catarina aspira a entrar na universidade com 19 valores, que foi e é uma aluna exemplar e tem sido uma promissora actriz amadora.
A mim, o que me importa na Catarina é o nada. A consciência do nada - de onde se nasce e onde se pode morrer, por onde se pode passar. A humildade de travar as pulsões de arrebatamento que frequentemente a cercam, por ser quase sempre encantadora, quase sempre muito boa, muitas vezes genial. Com 18 anos, poucos têm essa consciência do nada. Ela tem.

Conheci a Catarina Lacerda - ou melhor, os olhos infinitamente indagantes da Catarina Lacerda, porque nada mais recordei depois desse acontecimento - num encontro do grupo de teatro amador de que ela faz parte, o contra-regra, residente na Escola Inês de Castro, em Gaia. Ela já me vinha sendo apresentada pela sua professora de teatro, Joana Félix, como um caso sério na abordagem à arte cénica e literária. Esse encontro pretendia apresentar-me aos actores que iam representar o prólogo que eu tinha escrito para a peça "As Criadas", de Genet, aos actores que iam actuar na própria peça (a Catarina estava entre estes) e aos professores. Foi, como eu costumo dizer, daqueles momentos que marcam, uma hora material, não formal, e que eu abordei no texto "Da beleza", que li antes do espectáculo que esse mesmo grupo viria a construir em torno do "Livro sem Ninguém".

A professora Joana vinha dizendo que ela mostrava pouca coisa do que escrevia, que se resguardava muito, e eu não fiz mais do que pedir directamente à Catarina que me mostrassse alguns textos, primeiro devidamente seleccionados por ela, e depois muitos outros, quase todos em bruto. O que li assombrou-me. A Catarina escreve sobre o imaterial (que não se opõe ao "material" supra) como tenho visto poucos escrever, e aqui não tenho qualquer dificuldade em trazer todos a jogo, os nossos grandes, os de sempre. Os textos de amor da Catarina, por exemplo, continuam reservados e por trabalhar, mas são tão bonitos que quase assustam, significam uma vivência elaborada, madura, um crescimento e ponderação serena dos conceitos, e muitas, muitas, muitas e boas leituras.

Ora, a Catarina fez 18 anos no dia em que saiu o Livro sem Ninguém, e fica por isso indelevelmente ligada a ele.

E eu, como sempre fiz aos meus estagiários de advocacia - ela talvez seja a minha primeira "estagiária" de literatura - coloquei-lhe desafios conscientemente ousados.

O primeiro foi personificar uma figura literária à escolha dela, que apresentaria o autor e o Livro sem Ninguém na sessão da Fnac do Gaiashopping, onde teria parceiros de peso (como a Maria do Rosário Pedreira, o Miguel Miranda, o Luís Miguel Rocha e uma assistência exigente) com a "agravante" de ter de ser ela própria a escrever o monólgo. Só quem lá esteve sabe como ela tocou todos. É isso que ela faz. Podemos até discutir a qualidade literária e a capacidade de comunicação da Catarina, mas o que é indiscutível é que ninguém lhe fica indiferente e todos, invariavelmente, me falam daquela menina encantada e encantadora. A Catarina é, essencialmente, de uma rara profundidade: como é actriz amadora, parte do trabalho dela é conseguir comunicar essa profundidade. Mas literariamente ninguém lho pode exigir. Mas o trabalho de transformação do conteúdo literário puro em texto dramático foi, creio, estimulante para ela, e o resultado foi este: Lispector por Lacerda sobre PG-M (vislumbre da leitura da Catarina neste vídeo)
No espectáculo da Noite sem Ninguém, a Catarina reformulou e adaptou o mesmo texto e o resultado foi ainda melhor, como pôde testemunhar o muito público presente nessa noite mágica.

E agora, na Feira do Livro de Braga, quando o grande Bruno, dessa instituição cultural quase benemérita (para tantos escritores) em que se está a transformar a Antunes Livreiros, me deu a ideia de levar à apresentação de 2 de Julho "aquela rapariga encantadora", eu complementei com uma inversão das normais regras do jogo nestas coisas: e se, em vez de uma leitura dramatizada, fosse ela própria a apresentadora? - algo que me era particularmente grato, depois de andar a ouvir há algum tempo comparações de "estatutos" de quem pode apresentar quem, como se estas coisas fossem lá pelo tamanho, e como se houvesse alguma instituição para aferir da grandeza de cada artista. E foi então essa a originalidade: foi a Catarina que me apresentou em Braga, como este texto: Tentativa de tradução da poesia

O efeito foi parecido. Encantamento. Respeito de todos os quadrantes.
Porque a Catarina leva muito a sério estas coisas e aproveitou as oportunidades que lhe foram postas na mão.

Temos pois os debutantes - como escritores, que normalmente são grandes leitores -, os consagrados (onde são claramente minimizados os professores universitários, e há tantos recensores de pacotilha que têm a aprender tanto com eles) e os "in-between" (esses, que pululam, que andam em todo o lado).

A Catarina, para mim, são palavras, mais nada.
Leitora exemplar, escritora que pratica diariamente o exercício da humildade.
A publicação em papel, e ela sabe-o, não é o mais importante. Há um crescimento - dela e de todos - que é mais importante e se faz com suor e trabalho diário.

A publicação é um acidente do tempo, é o compromisso com a contemporaneidade, com os que nos querem espreitar hoje, mas só o tempo julgará e decidirá. Publicar é o casco de carvalho onde se coloca a envelhecer o néctar (a matéria literária).

Em Braga, a hierarquia do livro foi invertida: se é liderada pelos hipermercados, a que se seguem os supermercados, os minimercados, os postos de abastecimento, os distribuidores, as casas editoras, as livrarias de grandes grupos, os editores, os recensores, o autor (finalmente!), os amigos do autor, os livreiros, as universidades, os leitores e as escolas, foi totalmente invertida em Braga para aparecerem em primeiro lugar a escola (que me trouxe a Catarina) e os leitores (que nos compram, nos lêem e nos apoiam ao vivo em troca de uma assinatura, às vezes nem isso); e grandes livreiros, como, por exemplo, esta Antunes Livreiros e este Bruno que me enche a alma.

E depois da Catarina ao mundo, um pouco de silêncio e descanso.
Ou o que ela é para mim: nada e depois tudo a cada frase de cada dia.
Palavras e silêncio, bom silêncio.

Como eu li em Braga, rezava o Emerson há duzentos (!) anos (p22, "A confiança em si, a Natureza e outros ensaios, Relógio d'água 2009, que Walt Whitman diz tê-lo colocado a ferver e Matthew Arnold disse ser a mais importante obra em prosa alguma vez escrita:)

"(...) O tempo e o espaço são apenas cores fisiológicas fabricadas pelos olhos, mas a alma é luz; onde ela está é dia, onde estava era noite. (...)
O homem é tímido e temeroso; já não caminha direito; não se atreve a dizer "eu penso, "eu sou", mas cita alguém, santo ou sábio. Sente vergonha perante o rebento da planta ou a rosa que se abre. Estas rosas sob a minha janela não fazem qualquer referência a rosas anteriores ou mais belas; são aquilo que são; (...) Não existe tempo para elas. Existe simplesmente a rosa, perfeita a cada momento da existência. (...) na flor desabrochada não há nada a mais; na raiz sem planta não há nada a menos. (...)"

PG-M 2014

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