2014-07-29

carta-aberta-terra-ar (volume I - Avigdor)

Avigdor não será descrito aqui, não aqui, pelo que ele é ou pelo que parece.
Avigdor será descrito pelo que perdeu. E não há ficção ou literatura que o suporte.
Perdeu o filho, a nora e dois netos. A bomba que caiu sobre a casa, que fica em Gaza, tinha a estrela de David. Isso não teria nada de extraordinário se Avigdor não fosse israelita.
O seu filho morto, Abner, de vinte e cinco anos, morava no centro de Gaza, e também era israelita.
A sua nora morta, Golda, de vinte e três anos, era palestina.
O seu neto mais velho, Kenan, de seis anos, era ambas as coisas e nenhuma.
Como o seu neto mais pequenino, Saji, de quatro, que era isso tudo: do mundo.
Estão todos mortos. E assim essa parte do mundo que era chão de Avigdor.
A culpa é do amor, que vai a todo o lado e não escolhe o território,
ou escolhe-o com imprudência, que pode ser, afinal, um dos nomes do sublime.

Avigdor escreveu anteontem ao director do jornal holandês "De Telegraaf" uma carta aberta dirigida a uma mãe portuguesa, Camila, depois de ter lido online a carta aberta da própria Camila publicada no mesmo jornal, dias antes, sobre o assassínio de duzentas e noventa e oito pessoas do voo MH17 da Malasya Airlines no ar momentaneamente pestilento da Ucrânia.

Querida Camila,

 Sobrevivo numa casa de uma rua de Tel Aviv, Israel, e, tal como a Camila na sua cidade, em Portugal, há perto do café que frequento um pequeno quiosque com jornais de todo o mundo e, como a Camila, também não sei holandês, e apesar disso, também como a Camila, percebi os gritos de dor dos holandeses pelas capas do De Telegraaf. Ao passar para o café, "298 DODEN" ou "MOORDENARS" fez-me parar e, imagine, rezar, eu que sou pouco religioso, que provavelmente é o mesmo que ser nada religioso. Quando comecei a escrever-lhe esta carta, contudo, vivia noutro mundo. Agora estou sem chão. Uma bomba lançada pelo exército do meu país caiu sobre a casa do meu filho, no centro de Gaza, onde ele vivia uma bonita história de amor com a que era, seguramente, a mulher mais bonita e doce do meu antigo mundo, Golda, que herdara o seu nome árabe da mulher judia que um disse "Eu também sou palestina", Golda Meir, primeira-ministra do meu país. O meu Abner (já lhe falo dos nomes, que na nossa família significavam tanto: por nada) prometeu a Golda, quando estudavam na Universidade de Haifa, que um dia fundariam uma família a que ninguém saberia o que chamar e com isso um pilar firme da paz. Para o cumprirem escolheram o lugar das minorias, seguindo as instruções do exército de Isarael: vão para o centro de Gaza, que é seguro. As instruções que os mataram. Sabe a primeira pergunta que a polícia de ambos os lados me fez, Camila? O que é que está escrito neste quadro? Era uma inscrição em sânscrito num quadro pendurado na sala luminosa do apartamento do meu filho em Gaza: "Amo-te". Abner e Golda eram ambos linguistas, e resolveram erguer-se numa língua antiga que não era a deles. A ambas as polícias respondi que não sabia. Ao exército do meu país, que me informou e pediu desculpas pela morte do meu filho, citei a mãe da minha nora, Golda, e o que ela dissera anos antes ao seus próprios soldados, quando Israel lhe matou o filho mais novo da mesma forma que agora lhe matara a filha mais velha:
"Não vos autorizo a assassinar uma única pessoa em nome do meu filho."
Não critico aquele pai holandês, Hans, a quem a Camila dedica a sua carta, nem posso, aliás, condenar a promessa que ele faz de não perdoar nunca a ninguém a morte da sua menina de dezassete anos, Elsemiek, no voo MH17, porque essa determinação dá espessura e músculo ao meu próprio coração, cor à minha raiva, açúcar ao meu ódio, mas aqui sabemos, já há muito, que a paz nasce do perdão e da abdicação da vingança. É por isso que o ódio não pode durar um único dia.
 Por cada dia de ódio morre um filho nosso.

Os que nos "protegem" matam os nossos meninos em escolas e parques infantis, em aviões e, tantas vezes, no nosso próprio regaço. Há sempre uma justificação elevada. Mesmo que sejam ratos em túneis. Porque é isso que, para os que nos "protegem", todos nós somos, Camila. Ratos nos túneis. Irrelevantes.
Todas estas linhas de egoísmo, Camila, para lhe expressar os meus profundos sentimentos pelo suicídio do seu filho de quinze anos, anónimo como o meu ("o meu filho não tem nome", escreveu a Camila a abrir a sua carta, e nós, aqui, chorámos), mas de quem ninguém saberia - e ele, nas suas últimas linhas, é genial - se não fosse a Camila. Peço-lhe então que não se sinta sozinha, porque não há medida para a dor de qualquer pai. A minha e a sua são a mesma.
Termino com uma estupidez que me vai perdoar. As minhas primeiras lágrimas, a minha primeira raiva, foi para o nome que o meu pai me escolheu e para o nome que eu escolhi ao meu filho:
Avigdor, o meu nome, significa "pai protector".
Abner, o nome do meu filho, significa "a vela do pai".
Esse significado, "a vela do pai", servir-me-á pela eternidade. Não devia.
Golda era companheira e mãe.
O meu neto Kenan gostava de puzzles. O mais pequenino, Saji , do Ipad de Abner. À morte envergavam, respectivamente, uma camisola amarela - com inscrições em hebraico - e uma laranja - com inscrições em árabe.
As camisolas eram uma declaração de liberdade e educação e réplicas das que Abner e Golda haviam envergado, anos antes, para se defrontarem nas eleições para a Associação de Estudantes da Universidade de Haifa.
Os cadáveres de ambos, depois de estendidos na sala luminosa do apartamento de Gaza, onde estava pendurado o quadro "Amo-te", em sânscrito (a sala estava intacta, ao contrário da cozinha, nas traseiras, onde os quatro tomavam o pequeno-almoço quando a bomba com a estrela de David os encontrou) ainda tinham vestidas as camisolas amarela - com inscrições em hebraico - e laranja - com inscrições em árabe.
Bem vê, Camila, porque é que as lágrimas são infinitas.

Seu, Avigdor


PG-M 2014

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