2014-07-29

carta-aberta-terra-ar (Volume II - Camila e o MH17)

(continuação do Volume I - Avigdor, sobre Gaza)

Exmo Senhor Director do De Telegraaf,
Hans,

O meu filho não tem nome.
Encontrou-se com a tua, Hans, no mesmo dia e num lugar mais elevado do que este. Dias antes o meu país tinha consumido o nome ao filho de uma conhecida jornalista de televisão, tratando-o com intimidade. Dias depois o meu filho, que tinha quinze anos, desapareceu, e, no centro do meu desespero, o país continuava a consumir o nome do filho e da jornalista, tratando-os com intimidade. Pobre mãe, pensava eu - como é importante a solidão - o tempo que for preciso -, em vez da multidão, no sofrimento.

O meu filho continuava por aparecer. O último sinal dele era uma sms no telemóvel da ex-namorada:
"pelo menos diz à minha mãe que estou bem".
Ela não disse. Limitou-se a reencaminhar a sms para o meu telemóvel.
Estão muito assim, os filhos, com o mundo na mão e nos olhos, mas calados e sem corpo.
O meu menino era diferente e passava a vida a dizer que era diferente:

"A alma é o corpo, mãe, dizia o Sartre".
Pouco depois de a sms chegar, alguns assassinos convictos destruíram o avião que trazia a tua querida filha de volta.
"Don't be coming. Come." Dizia a D ao André Gorz, quando lhe perguntava se vinha para a cama e ele, escrevendo compulsivamente, lhe respondia: "Já vou".
Ela não veio. O meu menino não veio. O relatório da autópsia dele calculava a hora da morte muito próxima da morte provável dela. E acreditas que eu vinha sentindo a sombra do teu avião como minha?

Agora não são vida, não são morte, são a memória do mundo. Passou uma barcaça e levou-os de nós.

Que adianta, Hans, lutar contra a dor? Depois de ti, conheci a história - que parece desmesurada, mas todas as histórias de perda são desmesuradas - de outros meninos que provavelmente avistaram a tua filha, passaram por ela no corredor do avião, brincaram com ela entre refeições. Os pais deles são australianos e chamam-se Anthony Maslin e Rin Norris. Perderam no mesmo voo Mo (12 anos), Evie (10 anos) e Otis (8 anos) — além do pai de Norris, Nick, que acompanhava os pequenos. Numa nota disponibilizada pelo Ministério das Relações Exteriores e Comércio da Austrália, dizem que estão a viver “o inferno do inferno”. “Os nossos bebés não estão aqui connosco — somos obrigados a viver com este acto de horror todos os dias e todos os momentos para o resto de nossas vidas”. Dizem que ninguém merece sentir a dor que enfrentam, “nem mesmo as pessoas que alvejaram a nossa família”.

“Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos pelos nossos filhos, por Mo, Evie e Otis. Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos pelo avô Nick. Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos um pelo outro. Isso é algo que nos dá algum conforto"
E aos amigos:
"Queremos continuar a saber sobre a vida de todos vocês, as coisas boas e más. Já não temos mais vida para viver por nós mesmos.”

Vem mais um silêncio, um longo silêncio, algo que primeiro queima e depois comprime todos os órgãos, e depois só tu e Elsemiek, Hans.

Nos dias de desespero, até o corpo do meu menino ser encontrado num buraco remoto por um camponês, saí à rua dormente e lembro-me dos títulos dolorosos do De Telegraaf em nome do povo holandês:
"MOORDENARS".

Depois contaram a tua história, Hans, e, deus me perdoe, a tua inclemência e a promessa de não haver perdão para os assassinos da tua Elsemiek deram-me a força que me faltava, enquanto o meu país nos continuava a cercar com conselhos luminosos a todos os pais que perdem os filhos e com a intimidade àquela mãe jornalista, procurando história sensacionais onde havia só a vida e a morte que faz parte da vida.

É por isso que o meu filho não tem - nem terá - nome público, e é por isso que escrevo a um jornal holandês. Estás longe, Hans, e és igual a mim. Não sei holandês, mas não é preciso saber holandês para deixar um abraço e dizer um adeus.

O meu filho era um aluno brilhante, amado por pai e mãe, não era superprotegido nem mimado em excesso, mas nunca saberemos o afecto devido, a medida do amor, e a nossa geração, a quem garantiram que nenhum afecto podia ser demasiado, andou perdida a educar filhos debaixo do corpo e sem distância. Os filhos que agora abdicam do corpo e nos dão distância, suprema ironia.

O meu filho disse-me várias vezes que se queria suicidar.
Não, eu não perguntava o que tinha feito mal, não lhe virava as costas, nem o enchia de abraços. Tinha tudo para ele, estendia a mão, que ele apertava sempre que queria. Dizia-me que essa vontade me transcenderia sempre e não era mal que eu ou o pai tivéssemos feito. Andávamos, todos, sempre afogados em livros e a procurar a lucidez, mas não há medida para estes momentos. Demasiada lucidez ou clareza podem soar a falso, afinal há um lado primário, animal, de que a nossa civilização se afasta e deixa de saber interpretar. Como o uso do silêncio, que comparece nos grandes amores e nas grandes amizades. Como usa uma mãe o silêncio com o seu filho?

Hoje eu daria tudo pelo último abraço - este que te ofereço, Hans - do meu menino. Daria quase tanto pelo último adeus.
É precisamente o que não damos nem queremos sem uma boa justificação.
O abraço e o adeus.
Que são quase tão importantes como a água e o alimento.
Talvez o abraço a comida e o adeus a bebida.

Diz o Bloom que o génio comparece quando sentimos a consciência alargada, a percepção intensificada, e era sempre isso que eu sentia quando o meu menino me falava, não quando calava. E foi o que eu senti quando as notas de suicídio dele me chegaram às mãos. Disseram-me que estavam no bolso da camisa que tinha vestida quando o encontraram, e quero mostrar-tas, Hans. O meu menino ainda me vai escutar, o que talvez seja possível nesta nova forma de existência, a memória, porque para que aguém escute verdadeiramente o orador ou o escrevente não pode ter consciência desse acto.

E porque te quero mostrar essas notas, Hans, termino recordando o meu menino com as palavras da obsessão das últimas horas, Cortázar, porque  o meu menino tinha

"uma voz na qual havia também uma forma de olhar"

E era nesse olhar vital que eu via, ironicamente, explicação para a abdicação da vida. A explicação mais simples de todas, a explicação de tudo:
o amor, essa coisa, essa qualidade, esse acto sobre-humano.

E, pela tua Eselmiek linda, deixo-te o abraço para comeres e o adeus para beberes, Hans.

As notas do meu menino começam assim:

"Mãe, mato-me lentamente na caverna da Setsuko porque não mais suporto a vida como ela se me afigura. Há, pois, amor e pirilampos à porta do meu túmulo.

Como disse o Emerson, mãe, corta estas palavras e sangrarão, são vasculares e vivas."



PG-M 2014

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