2014-06-08

Da Beleza







Agora bou explicar o que se passou este ano entre mim e a escola Inês de Castro e o que se ia passando ao mesmo tempo entre mim e o resto do mundo.

Mais ou menos quando eu falei pela primeira bez com a professora Joana, defendi no tribunal um rapaz de 17 anos chamado Hernâni, que era daqueles um bocadinho atrasados e já num estuda e tem a compulsão de conduzir carros. Pega nos carros dos pais e dos amigos e anda até esgotar a gasolina. É preso porque abastece sem pagar, mas num tem uma berdadeira noção do que faz. Ele só quer rolar, rolar, ber as luzes da ribeira, do rio, da abenida, o mar da marginal, os meninos a sair das escolas de onde ele sempre fugiu, e a ponte, claro. No fim do julgamento, ele, quase da minha altura e ainda mais gordo e um bocado bruto, agarrou-me por um braço, a mãe tentou impedi-lo e eu disse para ela deixar,

deixe, deixe, não faz mal.

Então o Hernâni abraçou-me, deitou a cabeça no meu ombro e disse assim, agarrando a minha grabata às riscas:

Nunca ninguém tão bonito me ajudou.

Ele queria referir-se ao fato, não a mim, porque eu agora só uso fato em tribunal quando bou defender os pobres. Num é que eu num seja um rapaz jeitoso, num é que não me tenha começado a arranjar quando comecei a ser chamado para estar com mais pessoas, pelo menos depois de perceber que me expunha menos se fosse mais normal, e mais normal é mais belo para o Hernâni, mas não para a maioria de nós.

Nunca sabemos de que lado está a beleza que nos interessa.

Se por fora, se por dentro, se de lado, se a fazer o pino, se num sorriso ou numa lágrima.

Ainda agora, aqui, neste auditório, os que me estão a ouvir estão a pensar sempre em dois lados: se bai ser fixe ou se bai ser uma seca, se bai comover ou entediar, se bai ser bonito ou feio.

Mas a beleza já cá está, e não é minha.

Por exemplo: eu num mereço ter uma mulher tão bonita, e ela insiste em ser a mais bonita do pedaço, mas que nem pense que lhe bou fazer aqui uma homenagem estúpida qualquer, se no primeiro libro eu lhe expliquei porque é que nunca lhe faria uma dedicatória, e num é que lhe fiz uma neste? E é tão exagerada que ela num pense que bai ter outra.

Claro que a mulher pode ser musa, claro que muitas bezes é, mas o que importa, acima de tudo, é o cheirinho que está no ar de todas as casas às oito da noite, e que é quase sempre obra das mães. É muito diferente quando é feito em solidão, quando se cozinha para ninguém. E esta mãe que é a minha mulher, tal como a mulher que é minha mãe, são destacadas neste ebento literário para dizer que, tal como o Hernâni, transcendem e superam a literatura, e afinal são o fundamento dela, como todos e cada um de bocês. Eu num quero ser um artista atormentado, e já lá bão os dias em que precisava de sofrer para escreber, agora escrebo melhor se tiber colo e abraços e uma mulher que me faz sopa de agriões e me muda a etiqueta dos fatos. E muitos já sabem: nós, os parolos do norte, num bestimos fatos Armani, roubamos as etiquetas dos fatos Armani nos outlets e pedimos às nossas marabilhosas mulheres para as coserem nos nosso blazers horríbeis e baratos que passam a ser caros e blasés.

Ora, há um ano eu era um terórico do teatro, um putativo Armani, até conhecer este grupo de blazer, o contra-regra, e esta escola, que já admiraba de trás, quando entre os escritores se comentaba que nenhuma escola trabalhaba tão bem como esta. É por isso que a noite de hoje é um sonho antigo, espécie de globos de ouro da literatura. E já é bom estar nomeado. Pois eu lia teoria do teatro e tenessee williams e tchekov e o diabo a sete quando me perguntaram: nós num queríamos abusar, mas habia alguma possibilidade de escreber o prólogo de uma peça? O morro teórico ruiu, eu escrebi, percebi que não habia escrita mais imediata do que a dramática e um dia bim conhecer o coração do grupo: numa roda no meio da sala de ensaio, o comando da professora Joana e do professor Pedro, os olhos da Catarina, os lábios da Mafalda, o sorriso da Daniela, os cabelos da Rita no meu ombro, os beijos que a Maria não queria e eu dei, o Gui, o Daniel e o outro Pedro. Tudo me pareceu, também, a corporização da beleza. E eram todos Armanis.

E nós somos sortudos porque ainda podemos tentar ser bonitos, porque o Hernâni nunca se interessará por etiquetas em fatos, e só quer conduzir infinitamente.

Eu a tentar fugir para os cafés de praia para surpreender em palavras o rasto dos objectos no mundo das pessoas e o Hernâni a roubar gasolina para nunca mais parar.

E afinal, na cara destes puros, regressámos em toda a arte ao primordial, ao simples, que em contexto é tudo o que é preciso, como nas redacções da primária: Eu tenho uma casa amarela e gosto muito da minha casa amarela. Eu passo as férias em frente ao mar e por isso gosto das minhas férias. Eu gosto do mar porque é salgado. Eu gosto da areia e de fazer castelos na areia.

A Bera é bonita. A mãe é bonita. O filho é bonito. O pai é bonito.

Os irmãos, os sobrinhos, os cunhados são bonitos. A madrinha e o padrinho são bonitos.

A professora Joana é bonita. A Mafalda, a Daniela, a Catarina, a Rita e a Maria são todas bonitas.

Os Pedros e o Gui e o Daniel são...engraçaditos.

O Hernâni, que não cheirava particularmente bem, tinha uma tshirt curta a deixar ber a barriga, um casaco cheio de buracos e o cabelo despenteado, o Hernâni é agora, para todos nesta sala, o mais bonito.

E eu também sou, mas só por isto:

Porque nas aldeias remotas deste país, sem facebook, ainda dizem que eu sou um rapaz jeitoso,

E porque a Margarida de uma delas, de Trancoso,

a rapariga tetraplégica que eu num conheço pessoalmente e é minha amiga no facebook (e bão ber como é falso o facebook!) e apaixonada por literatura porque, como ao Hernâni, a deixa conduzir sem parar, escreveu aquele comentário público num dia em que conseguiu estar desligada dos ventiladores, porque ela diz que é tão feliz quando o corpo lhe dá descanso e respiração e ela consegue escrever calmamente no facebook com aquela caneta de boca, e nesse dia resolveu dedicá-lo a mim, e não foi o comentário sobre o meu primeiro livro, A manhã do mundo, "Pedro, senti-me aquelas pessoas todas e morri feliz com elas a saltar das Torres, acreditas?", e eu só dizia "acredito, Margarida", mas só pensava, "como é que esta menina sem sorte decide que o bocadinho da semana em que não se sentiu sufocada é para me fazer um elogio a mim?", nem foi um comentário ao segundo, o Livro sem ninguém, quando me disse

"Agora cala-te, Pedro, passei o livro todo em lágrimas por me mostrares a vida normal do mundo e o meu corpo inexistente não aguenta mais poesia", e como eram bonitas estas palavras, e ela a insistir que só as conseguia escrever bem, não as conseguia dizer bem, porque a língua se arrastava e ela ficava feia no esforço e não se queria sentir ainda mais feia, até fechava os olhos quando passava os espelhos ao colo da mãe,

não, não foi nada disso, eu sei que sou bonito por causa do piropo mais simples, o que ela me deixou a uma fotografia que me tiraram na última Feira do livro do Porto, a última de todas, em que ela escreveu, entre fôlegos: “Ai, Pedro, tu tiras um pessoa do sério” (estão a ber como é falso o facebook?)

E eu, que sou uma menina, chorei que nem uma Madalena.

E pra num dizerem que o facebook são só likes e links, vou contar-bos o que é que a Margarida de Trancoso fazia quando num podia. Pedia à mãe para, invariavelmente, lhe colar uma ligação para uma música no facebook.

(original de James Shelton)
interpretada pela Elkie Brooks, mas neste caso inspirada na versão cantada pela Nina Simone, aqui resumida.


Quando aquilo aparecia no mural dela, nós já sabíamos que ela estava piorzita, e nessa música ela dizia sempre a mesma coisa, no mesmo tom, na mesma voz, segura, olímpica, visceral, emprestada pelo Jeff, e em que a mulher amada e perdida passava a significar apenas vida. A vida dela. E a embriaguez da árvore lilás o alívio do corpo pelos medicamentos.

E a ladainha era mais ou menos assim:

I lost myself on a cool damp night
I gave myself in that misty light
I Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
I put my heart in its recipe
It makes me see what I wanna see
and be what I want to be


When I think more than I wanna think
I do things I never should do
I drink much more than I oughta drink
Because it brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, (...)
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she / coming to me / nearly here?

Porque a literatura não vale um tostão furado se não der braços e pernas e sensualidade e música a todos as Margaridas de todos os Trancosos.

E porque me chegam todos os dias histórias de Hernânis e Margaridas e todos os artistas e profissionais aqui presentes sabem que basta um destes pra dar força / e resisitir à neblina dos dias, que todos sabem como são privilegiados e esgotantes e bonitos, e aqui não há tédio, só beleza e riso.

Obrigado e biba o contra-regra, a Inês de Castro e bocês todos.

PG-M 2014
 

Sem comentários: