2014-06-12

Começo hoje a adolescência e tu não existes





Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes.
Por não saber nada de ti, mas aspirar a ti, invento-te e faço-te o culto como se pudesses ser real.
Assim, se compareceres, saberei que és tu.
Não precisarei de te fazer perguntas.
Posso estar no leito da morte e tu no curso da vida, saberei.
Se me deixares ler-te o olhar ou divisar-te a sombra ao longe, numa determinada inclinação. Saberei.

Começo hoje a adolescência e acordei com o quarto cheio de verão, porque neste tempo ainda há verões, os melhores das nossas vidas. A mãe, como sempre, abriu a persiana cedo, depois a janela. Habituei-me a não acordar quando o quarto fica com a cor leitosa e firme das dez da manhã. Como a praia é perto, começam a entrar os sons abafados que, daqui a alguns anos, identificarei como sinais do resgaste da leveza à existência. Ou felicidade: os gritos das crianças e das gaivotas, os motores dos barcos na água, o pregão das senhoras das batatas, o cheiro a óleo de coco e a creme nívea, o iôdo, a maresia que sobe as casas da primeira linha e nos cai no jardim.
A mãe abraça-me e dá-me os parabéns, diz-me que finalmente sou um homem, eu escrevo duas coisas no diário de bordo, engulo o leite achocolatado com pão com manteiga, visto os calções e a t-shirt do naranjito, e, ainda antes de os irmãos se levantarem, porque é dia dos meus anos e no dia dos meus anos levo a manhã para solidão, saio à rua. Levo a toalha, mas não levo a bola de voleibol. Hoje não quero grupos, quero distância.
Porque tu ainda não existes.
Caminho cinquenta metros e derivo da entrada principal, subo a duna maior e lá está, o mar daquele azul que os olhos nunca mais terão - esgotada a inocência e a pureza, a areia daquele bege aveludado que os pés nunca mais sentirão por causa do peso dos dias, o ar com aquela humidade salgada que os lábios nunca mais provarão depois de serem beijados sem corpo.
Estendo o braço direito para que o sol te mostre a minha pele dourada.
Tu beijas-me a dobra do braço sobre a artéria radial, está quente, cheira bem, é o lugar onde a cabeça encaixa quando os abraços se transformam em colo, é o lugar onde dormes e, ainda que não existas, há uma certeza na minha pose acocorada na duna, nos olhos semicerrados que absorvem toda a luz que as pálpebras e as pestanas não filtram.
Que eu já te amo.
Os amores profundos não são difíceis.
O amor que existe em todas as partes do corpo quando as perguntas começam a ser feitas é um sereno e solitário monólogo onde ela se vai encaixar quando chegar.
Se ela chegar.
E se ela chegar, reconhece-se. Reconhece-nos, porque fez a mesma vida.
Teve-nos nos braços no recesso das dunas ou numa montanha lunar.
E o amor prossegue em monólogo, mas troca de sujeitos.
Nós somos ela. Ela somos nós.
Começa o caminho da imperfeição, desce do absoluto, passa a residir nas coisas simples, nos detalhes, no efémero, deixa de ser uma aspiração, é apenas a fragilidade da existência protegida pelos braços dos ventos e das marés que, afinal, se observavam sem ninguém, muito antes do combate.

Às vezes o detalhe é um pormenor gigante.
Fica-se feio de parte a parte e o amor absoluto, que não é possível ser vivido nas falhas dos ossos e da carne, mas não tem necessariamente de morrer, tende a esgotar-se nas dores musculares da treva. Há os que cuidam de o manter, mesmo depois da separação, de forma maternal ou paternal e sob a incredulidade dos novos intérpretes. E então, nas costuras intestinas dos panos das barracas, nas praias, subsistem, por irreverência, amores absolutos sob todos os ventos e marés.

Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes.
Certos miúdos e miúdas pensam nestas coisas.
Na praia, lá em baixo, ainda não consigo ver os amores absolutos que sobraram dos verões. Só naquela hora do abandono, quando os banheiros começam a levantar os panos das barracas, consigo perceber o que sobra. Às vezes sobra só sexo. Outras apenas ternura. Outras uma empatia suave e externa. Raras vezes vi nas torres de panos de barracas recolhidas no casebre de madeira pintado de vermelho e branco aquele que pode vir a ser o nosso amor, abandonado à míngua da vida, espécie de antecipação de outono.

Hoje à noite, vestido de gala com as minhas Levi's novas e uma camisa bordô às estrelas que o pai não usa, as fotografias vão suspender vários sorrisos abertos que os rolos de trinta e seis não mostrarão de imediato, abre-se o bolo, sopram-se as treze velas, serve-se o bolo, corre algum champanhe, tang e coca-cola sem variações, pudim boca-doce, o bolo de bolacha da mãe e as notas de dez contos dos avós, por isso não posso, não posso até que seja muito de noite, a mãe vá fechar a janela e a persiana e eu venha, sem ninguém perceber, à porta da lavandaria, ao pátio das traseiras da casa, levar-te aos lugares que eu inventarei para ti, certamente uma avenida em nova iorque ou um sotoportego veneziano, um acampamento no topo da fuente dé ou uma planície amarela para cavaleiros de triste figura, um bosque de abetos no liechtenstein ou então apenas uma boca de incêndio mais recatada no alto de um bairro social onde não nos beijaremos, sequer nos tocaremos, não daremos as mãos ou passeios um ao outro, porque cuidaremos primeiro do amor absoluto.

Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes, continuo a morte e tu tardas, prefiro pensar, no último suspiro, que afinal te conheci, do que ter uma vida de dias bonitos e tormentosos como o de hoje.
Tinha-te dito que o mar está azul e é um verão antigo.
Como os melhores.

PG-M 2014



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